
Kurban Said



Ali e Nino

Traduo de Flvio Quintiliano
EDITORA
NOVA FRONTEIRA
Titulo original em alemo: ALI UND NINO
Texto de introduo t) 2000 bv Tom Reiss.
CIP- Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
S139a Said, Kurban
Ali e Nino : romance / Kurban Said ; traduo de Flavio Quintiliano. - Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2000
Traduo de Ali und Nino
ISBN 85-209 1126-9
1. Romance austraco.
CDD 833 CDU830-3
Sobre Kurban Said, o autor de Ali e Nino
ESTE BELO E INTRIGANTE ROMANCE  uma histria de amor entre um nobre muulmano e
a filha de um comerciante de f crist no Azerbaijo, a fronteira da Europa no extremo Leste,
durante a Revoluo Russa  tem uma das trajetrias mais peculiares de todos os romances do
sculo XX. Publicado pela primeira vez em Viena, em 1937, este livro rapidamente se tornou um
best-seller, e seu sucesso estrondoso, devido a seu tema proibido  o amor cruzando fronteiras
ticas , teria sido ainda mais impressionante se algum tivesse revelado a verdadeira identidade
de seu autor, conhecido como Kurban Said.
POR mais de cinqenta anos, os segredos que envolviam esse nome permaneceram escondidos
debaixo de muita dissimulao e intrigas. Eu comecei a me interessar pelo mistrio em torno deste
romance quando viajei para o Azerbaijo e descobri que l Ali e Nino era considerado um pico
nacional. Mas as vrias explicaes para a identidade de seu autor, ento em voga no pas, me
pareceram ridculas. Havia uma particularmente extravagante que dizia que Kurban Said era um
muulmano do Cucaso que foi para a Alemanha na dcada de 1920 e decidiu se converter ao judasmo. Resolvi, ento, empreender uma busca
pelo verdadeiro Kurban Said, numa investigao que me levou de Baku a Berlim, do sul da Itlia 
fronteira do Canad, descobrindo que a vida desse autor tinha sido to fascinante, arrebatadora e
atraente como o prprio romance.
O Deutscher Gesamtkatalog de 1935-39 me deu a primeira pea concreta para montar esse quebracabea. No verbete Said, Kurban, est escrito:
pseudnimo da baronesa Elfriede Bodmershof von Ehrenfels. A baronesa Von Ehrenfels era uma nobre austraca, irm de um importante
orientalista europeu, o baro Rolf-Ornar von Ehrenfels que, na Europa Central da dcada de 1930,
reunia  sua volta adeptos de uma cultura fascinante e esquecida. No castelo dos Von Ehrenfels, na
fronteira austro-hngara, descobri as reminiscncias de um mundo de sonhadores e idealistas
romnticos, que acreditavam que as respostas para os problemas da Europa estavam na unio com o
Leste (o Oriente). A correspondncia encontrada no castelo mostrava que os pagamentos dos
direitos autorais de Ali e Nino eram enviados para Kurban Said em vrias capitais europias entre
1930 e 1939, mas quem os recebia de fato era a misteriosa baronesa Elfriede. A baronesa, por sua
vez, remetia o dinheiro para um homem mais misterioso ainda, com um forte sotaque do Cucaso e
um passaporte americano falso, que morava na regio ngreme da cidade de Positano, na costa
Amalfi da Itlia. Esse homem fizera parte do restrito crculo de orientalistas europeus ligados ao
baro, mas sua ideologia e suas relaes eram muito mais complexas, j que ele havia se
aproximado tanto de reis rabes como de Mussolini. Na realidade, a baronesa Elfriede estava
protegendo corajosamente esse homem, um autor mundialmente
famoso que se escondia sob o nome de Kurban Said porque a Gestapo e a polcia secreta fascista
estavam  sua procura. Ele era mais conhecido em todo o mundo por um outro pseudnimo
muulmano: Essad Bey.
Essad Bey era um homem romntico, atormentado e perigoso, famoso em toda a Europa e nos
Estados Unidos como uma das lideranas do Leste. Suas obras eram prescientes porque j
condenavam a Unio Sovitica e mais ainda porque previam o ressurgimento do islamismo
militante em todo o mundo. (Sua compreenso do fundamentalismo islmico em Ali e Nino, por
exemplo, faz o livro parecer mais atual e impactante em nossos dias, depois da revoluo no Ir e
da guerra na Tchetchnia. Suas previses das longas guerras de extermnio na Europa de Leste
tambm parecem estranhamente atuais, afinal o livro foi escrito em 1936.)
No entanto, Essad Bey ou Kurban Said era menos um intelectual do que uma espcie de Rodolfo
Valentino ou Houdini da literatura, seduzindo o pblico tanto pessoalmente quanto em seus livros.
Costumava perambular na Berlim da Repblica de Weimar, e depois em Viena, vestido como um
guerreiro do Cucaso, com manto, espada e bandoleira, e alternava anlises geopolticas com as
histrias fascinantes de suas faanhas, deixando as autoridades confusas: seu antibolchevismo lhe
valeu a admirao de alguns integrantes do Ministrio da Propaganda de Goebbels e o elevou na
sociedade fascista de Mussolini.
Mas, a despeito de sua poltica monarquista e fascista, de seus pseudnimos rabes e de seus
costumes selvagens do deserto, seu nome verdadeiro era Lev Nussimbaum, e ele era judeu.
Nascido em 1905, no seio de uma abastada famlia judia, em Baku, a cidade mais ao sul do Imprio
russo, Lev Nussimbaum escapou dos bolcheviques fugindo para a Alemanha em 1920. Em Berlim,
converteu-se ao islamismo e
adotou o nome de Essad Bey. Aos vinte e dois anos j era um autor de fama internacional com
extensos romances histricos repletos de passagens que atstavam o seu herosmo pessoal. Mesmo
quando Goebbels estava expurgando sistematicamente as editoras alems dos escritores judeus,
Lev conseguiu publicar dezesseis livros, a maioria best-sellers internacionais, e um deles, uma
obra-prima para sempre: Ali e Nino. Tudo isso com apenas trinta anos de idade.
A sua real genialidade, no entanto, estava em criar uma identidade prpria e verstil: enquanto
morava secretamente num minsculo apartamento com seu pai, Abrao Nussimbaum, fingia ser um
prncipe muulmano na sociedade de Berlim e freqentava um grupo de ilustres exilados, entre os
quais estavam Nabokov e Pasternak. Lev apaixonou-se por uma jovem russa extremamente bela,
que conhecera numa noite no apartamento de Pasternak, e passou, ento, a procur-la
insistentemente. Mas ela desprezou seus sentimentos e casou-se com outro homem. Lev jamais
esqueceu esse primeiro amor. Anos depois, escrevendo como Kurban Said, usou a figura da bela
russa de Berlim como modelo para Nino e imaginou um fim dramtico e violento para o rival que,
na vida real, havia conseguido se casar com ela.
s vsperas da ascenso do nazismo ao poder, no inverno de 1932-33, em Berlim, Lev cortejou e
casou-se com uma linda herdeira americana que no fazia a menor idia de sua verdadeira
identidade. At morrer em 1942, ele tambm manteve relaes com o fascismo, atravs de
manobras audaciosas, traando seu caminho ao lado do poder como um ladro num baile de
mscaras.
Em contraste com a trajetria de assimilao adotada pela maioria dos judeus na Alemanha, Lev
fez tudo o que pde para permanecer  parte, como um marginal tnico. Nos cafs de Berlim, ele
usava mantos e turbantes. Na sobrecapa de seu livro, aparece com um gorro de pele, bandoleira e
uma longa adaga. Em suas obras, criou para si o mito do
aventureiro do deserto, indo para a batalha com sua faiscante espada em punho.
Porm sua identidade de guerreiro eventualmente enganava at a ele mesmo, que escolheu
permanecer na Europa, perdendo vrias oportunidades de ficar a salvo, indo morar com os parentes
milionrios de sua mulher em Nova York. Quando ele fugiu de Viena, ocupada pelos nazistas, para
o norte da frica, no perdeu nem um minuto pensando em voltar para a Europa fascista, mesmo
que alguma estranha atrao o mantivesse prximo das foras que o poderiam destruir.
Os segredos da verdadeira identidade de Lev Nussimbaum permaneceram desconhecidos por meio
sculo desde a sua morte. AH e Nino, o aclamado romance que ele escreveu sob seu segundo
pseudnimo muulmano, Kurban Said, encontrou muitos admiradores em vrios pases e fez
surgirem muitas hipteses em relao  identidade desse autor ao longo dos anos. Somente ao
realizar uma investigao para a New Yorker, fui capaz de solucionar definitivamente esse mistrio,
trazendo  luz arquivos do fascismo, manuscritos perdidos e testemunhas em Baku, Viena,
Positano, Berlim, Londres, Florena, Roma e tambm Nova York e construindo um retrato desse
Houdini que detectou as batalhas culturais e raciais de seu tempo e se tornou um cruzado tnico,
numa poca em que isso era quase uma sentena de morte.
Durante a guerra, o romance se perdeu e s foi encontrado no comeo da dcada de 1950, por Jenia
Graman, uma danarina alem-sovitica que se encantou pela histria. Ela o levou para a Inglatrra
e trabalhou na sua traduo por mais de dez anos. Quando a verso inglesa foi finalmente publicada
no comeo dos anos 70, o tema do amor intertnico estava ainda mais em evidncia, e o livro se
tornou um bestseller internacional. O New York Times disse que ler este romance era como
descobrir um tesouro escondido.
Num certo sentido, Lev Nussimbaum foi apenas um exemplo extremo do tipo de europeu que
poderamos chamar de judeu orientalista  um fenmeno que comeou na Inglatrra com Disraeli
e floresceu na virada do sculo, na Europa Central, onde se falava alemo. Como tudo o que
envolve os judeus, o orientalismo judaico assumiu um aspecto mais trgico e profundo na
Alemanha. Judeus cultos  como um anti-semita insistia em afirmar  podem falar sobre
Goethe, Schiller e Schlegel o quanto quiserem; no entanto, continuaro sendo um povo oriental
estrangeiro. A acusao de serem europeus na superfcie e orientais no corao era dirigida aos
judeus alemes durante todo o sculo XIX, e o termo anti-semitismo foi cunhado em 1879 por
Wilhelm Marr, um escritor de panfletos de Hamburgo, e significava colocar os judeus ao lado dos
outros povos semitas e, portanto, consider-los como orientais. A maioria dos judeus alemes
respondeu a isso tentando mais drasticamente expurgar todos os traos do Leste  que tanto pode
indicar a Europa de Leste quanto o Oriente Mdio  e influenciando os outros a fazerem o mesmo.
Mas os sionistas tomaram a noo anti-semita de que os judeus nunca podem se adaptar a outras
naes e a transformaram numa meta real da moderna federao judaica. Os orientalistas judeus
alemes assimilaram a calnia antisemita e a transformaram num lema: Com os judeus vive a
fora do esprito asitico: a unidade da alma  como o filsofo Martin Buber escreveu  a sia
sem fronteiras da unidade sagrada. O sionismo de Buber baseava-se na idia de que todo judeu
tem um oriental dentro de si  seu eu eterno e verdadeiro  e isso deve ser um motivo de orgulho
e no de vergonha. O orientalismo judaico sionista tambm foi inspirado pela teoria de Buber, e a
intensificao da atmosfera anti-semita fez com que mais judeus sentissem necessidade de se voltar
para o Leste, para o caso de terem de correr para l.
Alm de Essad Bey, a personagem mais combativa de toda essa cultura talvez seja a poetisa Else
Lasker-Schuler, que diz saber falar asitico, uma linguagem que se aproxima da linguagem
original dos judeus, os quais ela chama de judeus primitivos. Seu conceito de judeu primitivo 
depois dos efeitos debilitantes de dois milnios de dispora  tornou-se bastante popular.
Diferentemente dos outros judeus orientalistas, entretanto, o homem que s vezes se chamava
Kurban Said vinha realmente do Leste  o Leste selvagem, fronteira da Europa, estendendo-se at
o mar Cspio. Em 1900, Baku, a cidade da infncia de Lev, era o lugar mais movimentado do
mundo, a capital internacional do petrleo, uma regio onde se faziam e se perdiam grandes
fortunas. Os bares do petrleo podiam ser tanto agricultores locais quanto aristocratas, isto ,
qualquer um que abrisse um buraco no solo e tivesse sorte. Por causa da cultura islmica, que
aceitava os judeus como um dos povos do Coro, o Azerbaijo era a parte menos anti-semita do
velho imprio czarista. Nos vales do norte da cidade viviam as tribos primitivas dos judeus da
montanha, que falavam um dialeto medieval do persa e praticavam uma antiga forma de judasmo,
misturada a ritos pagos.
Porm as tenses tnicas estavam prestes a fazer esse mundo de conto de fadas na extremidade da
Europa entrar em ebulio, prenunciando, nesse microcosmo, todos os horrores que se seguiram e o
ressurgimento do islamismo em nossos dias.  o romantismo, o perigo e a violncia desse mundo
que Lev Nussimbaum, alis Kurban Said, retrata em sua inesquecvel histria de amor, Ali e Nino.
Captulo 1
 A NORTE, A SUL E A OESTE, a Europa  cercada por mares. As fronteiras naturais do
continente so o oceano Polar, o Mediterrneo e o oceano Atlntico. A cincia considera a ilha
Magerd como sendo o extremo norte da Europa, a ilha de Creta como sua extremidade sul, e como
seu ponto mximo ocidental o arquiplago de Dunmore Head. A fronteira oriental da Europa corre
pelo imprio russo, ao longo dos Urais, atravessando o mar Cspio e a Transcaucsia. A esse
respeito, porm, a cincia ainda no disse a ltima palavra. Alguns estudiosos acreditam que a
regio ao sul das montanhas do Cucaso pertence  sia, mas outros afirmam, sobretudo tendo em
vista a evoluo cultural da Transcaucsia, que este pas tambm deve ser considerado parte da
Europa. Portanto, meus filhos, compete a vocs, de certa forma, decidir se nossa cidade pertencer
 Europa progressista ou  sia reacionria.
O professor abriu um sorriso presunoso. Os quarenta alunos da terceira srie do Ginsio Clssico
Imperial Russo de Baku, na Transcaucsia, sentiram a respirao presa diante dos abismos da
cincia e do peso de tal responsabilidade.
Por um momento, nos calamos todos, trinta muulmanos, quatro armnios, dois poloneses, trs
sectrios e um
KurbctH Said
russo. Ento, no banco de trs, Mehmed Haidar ergueu a mo e disse:
 Professor, se o senhcr no se incomoda, preferimos a sia.
Ouviu-se uma gargalhada geral. Mehmed Haidar j se sentava pelo segundo ano seguido nos
bancos da terceira srie. Se Baku continuasse a pertencer  sia, ele tinha todas as possibilidades
de continuar naquela classe pelo terceiro ano consecutivo, sem passar. Um decreto ministerial
permitia aos nascidos na Rssia asitica repetir de ano indefinidamente.
O professor Sanin franziu a testa, no uniforme bordado a ouro de professor russo de ginsio:
 Pois ento, Mehmed Haidar, quer continuar asitico? Venha aqui  frente. Pode explicar-se?
Mehmed Haidar avanou pela classe, ficou rubro e calou-se. Com a boca aberta e a testa franzida,
olhava diante de si como um estpido. Ele continuou calado. E, enquanto quatro armnios, dois
poloneses, trs sectrios e um russo caoavam de sua estupidez, levantei a mo e declarei:
 Senhor professor, eu tambm prefiro a sia.
 Ali Khan Chirvanchir! Voc tambm! timo, ento venha at aqui.
O professor Sanin deixou pender o lbio inferior e maldisse em seu ntimo o destino que o banira
para as margens do mar Cspio. Em seguida, pigarreou e disse com gravidade:
 Ser que ao menos voc saberia explicar essa preferncia?
 Sim. Eu me sinto bastante bem na sia.
 Ora, ora. Pois ento alguma vez j esteve nas regies realmente selvagens da sia, por exemplo,
em Teer?
 Ah, sim. No vero passado.
 Pois muito bem. Encontrou ali as grandes conquistas da cultura europia, os automveis, por
exemplo?
Ai e Nino
 Mas  claro. E dos grandes, at. Para trinta pessoas ou mais. Eles no circulam dentro da cidade,
mas apenas de uma cidade para outra.
 Esses so nibus, utilizados porque no h estrada de ferro. Isso  o que se chama de atraso.
Sente-se, Chirvanchir!
Exultantes, os trinta asiticos olharam-me com aprovao.
O professor Sanin calou-se, enfastiado. Era seu dever educar os alunos para que se tornassem bons
europeus.
 Algum de vocs j esteve em Berlim, por exemplo? Aquele era o dia de azar do professor: o
sectrio Mai-
kov levantou-se. Ele contou que j estivera em Berlim quando bem pequeno. Lembrava-se com
muita nitidez do metr bolorento e lgubre, de um trem barulhento e de um sanduche de presunto
que a me lhe fizera.
Ns, os trinta muulmanos, reagimos com indignao. Seid Mustafa at pediu licena para sair,
pois a palavra presunto lhe dava enjo. Com isso, se encerrou a discusso sobre a situao
geogrfica da cidade.
Soou a campainha. Aliviado, o professor Sanin deixou a classe. Os quarenta alunos se precipitaram
para fora. Aquele era o intervalo longo. Havia trs possibilidades: sair para o ptio e pegar-se aos
tapas com os alunos do ginsio vizinho, porque eles usavam botes e distintivos dourados enquanto
ns tnhamos de nos contentar com botes e distintivos pratados; conversar entre ns em voz alta,
em idioma trtaro para que os russos no nos compreendessem e porque era proibido; ou atravessar
a rua em disparada at o Colgio para Moas da Rainha Santa Tamar. Escolhi a terceira
possibilidade.
No Colgio de Santa Tamar, as moas caminhavam pelo jardim, uniformizadas em vestidos azuis e
recatados, com aventais brancos. Minha prima Aiche acenou para mim. Esgueirei-me pelo porto.
Aiche andava de mos dadas com
   Kurean Said
Nino Kipiani, e Nino Kipiani era a moa mais linda do mundo. Quando lhes contei sobre minhas
disputas geogrficas, a moa mais linda do mundo torceu o nariz mais lindo do mundo e disse:
 Ali Khan, voc  um bobo. Graas a Deus vivemos na Europa. Se vivssemos na sia, eu estaria
usando um vu h anos e voc no poderia me ver.
Dei-me por vencido. A duvidosa localizao geogrfica da cidade de Baku me permitia contemplar
o olhar mais lindo do mundo.
Desolado, afastei-me dali e resolvi no voltar  escola naquele dia. Vagueei pela ruelas da cidade,
admirando os camelos e o mar, pensando na Europa, na sia, nos belos olhos de Nino. Sentia
tristeza. Um mendigo de rosto apodrecido pela doena veio at mim. Quando lhe dei dinheiro, ele
tentou beijar minha mo. Assustado, retirei-a. Depois disso, percorri a cidade por duas horas
procurando o mendigo, para que ele pudesse beijar minha mo  pois compreendi que o tinha
ofendido. Mas no o achei em parte alguma, e senti a conscincia pesada.
Tudo isso aconteceu h cinco anos.
Muitas coisas se passaram nesses cinco anos. Chegou um novo diretor, que costumava levantar-nos
pelo colarinho e sacudir-nos, pois era severamente proibido esbofetear os alunos. O professor de
religio nos explicou em detalhes a misericrdia de Al, que nos fez vir ao mundo na condio de
muulmanos. Dois armnios e um russo foram aceitos na escola, e dois muulmanos saram dela: o
primeiro porque se casou aos dezesseis anos, o segundo porque foi morto num conflito de sangue
durante as frias. Eu, Ali Khan Chirvanchir, estive trs vezes no Daguesto, duas vezes em Tbilisi,
uma em Kislovodsk, outra na Prsia, na casa de meu tio, e em certa ocasio quase fui reprovado
porque no sabia distinguir o gerndio do gerundivo. Meu pai foi aconselhar-se com o imame da
mesquita, o qual explicou que estudar la-
Afi e Nino
tim no passava de um disparat. Ento, meu pai vestiu todas as suas insgnias turcas, persas e
russas, procurou o diretor da escola, fez doao de um equipamento de qumica qualquer, e fui
aprovado. Depois disso, penduraram na escola um cartaz que proibia a entrada de alunos armados
de revlveres, na cidade surgiram os primeiros telefones e foram inaugurados dois cinemas, e Nino
Kipiani ainda era a moa mais linda do mundo.
Tudo aquilo chegava ao fim agora, pois apenas uma semana me separava do exame final. Eu estava
sentado em casa e pensava com meus botes sobre a inutilidade das aulas de latim s margens do
mar Cspio.
Era um belo quarto no segundo andar de nossa casa. Escuros tapetes de Bukhara, Isfahan e Kochan
cobriam as paredes. Os arabescos dos tapetes reproduziam jardins e lagos, bosques e rios tal como
se apresentavam  fantasia do tecelo  irreconhecveis para o leigo mas de beleza arrebatadora
para o perito. Mulheres nmades de desertos distantes colhiam em meio aos espinheiros selvagens
as ervas que serviam para fabricar aquelas tintas. Dedos alongados e finos espremiam o suco das
ervas. O segredo daquelas cores delicadas data de sculos; muitas vezes, o tecelo leva uma dcada
para terminar sua obra de arte. Ento, ela  pendurada na parede, cheia de smbolos misteriosos,
aluses a cenas de caa ou combats de cavaleiros, tendo na borda uma inscrio em letras ornadas,
um verso de Firdausi ou uma mxima de Saadi. Os vrios tapetes ensombrecem o quarto. Um div
baixo, dois escabelos revestidos de madreprola, muitas almofadas macias... e em meio a tudo isso,
como uma intromisso sem sentido, os livros do saber ocidental: qumica, latim, fsica,
trigonometria  assuntos fteis inventados por brbaros para disfarar sua barbrie.
Fechei os livros e sa do quarto. A estreita varanda envidraada dava para o ptio e conduzia at a
laje plana em cima da casa. Subi. L do alto eu abraava meu mundo
 Kurban Said
com o olhar: a espessa muralha da Cidade Velha e as runas do palcio, cuja entrada ostentava uma
inscrio rabe. Os camelos avanavam pelo burburinho das ruas com uma graa to especial que
dava vontade de afag-los. Com suas formas macias e arredondadas, erguia-se diante de mim a
Torre da Donzela, circundada por lendas e por guias tursticos. O mar principiava para alm da
torre, bem ao longe  o mar Cspio sem fisionomia, plmbeo e impenetrvel. s minhas costas,
jazia o deserto  penhascos denteados, areia e saras; tranqilo, silente, intransponvel, a mais
bela paisagem do mundo.
Calado, eu me sentava no telhado. Pouco me importava que houvesse outras cidades, outros
telhados e outras paisagens. Eu amava o mar sem ondas e o deserto plano, e no espao entre os dois
aquela velha cidade, o palcio em runas e a multido ruidosa que chegava, procurava petrleo,
enriquecia e ia embora, pois no amava o deserto.
O criado trouxe ch. Bebi e pensei no exame final. Aquilo no me preocupava muito. Decerto iria
passar. E uma reprovao tampouco seria uma desgraa. Os camponeses das nossas propriedades
diriam que, por dedicao, eu no quisera afastar-me da Casa do Saber. Com efeito, ter de deixar a
escola era uma pena. Agradava-me o uniforme cinza com seus botes, dragonas e distintivos
pratados. Em roupas civis, eu me sentiria desprezvel. Mas no teria de us-las por muito tempo.
Mais um vero somente, e ento... ento eu partiria para Moscou, para o Instituto Lazarev de
Lnguas Orientais. Tomara aquela deciso porque sabia que em Moscou teria boa vantagem sobre
os russos. Conheo desde criana tudo aquilo que eles tm de aprender com dificuldade. Alm
disso, no existe uniforme mais bonito que o do Instituto Lazarev: casaco vermelho, colarinho
dourado, uma espada estreita folheada a ouro e luvas de pelica mesmo em dias de semana. Uma
pessoa tem de usar uniforme para que os russos a considerem, e sem a considerao dos russos
Ai e Nino
Nino no se casar comigo. Tenho de me casar com ela, mesmo sendo crist. As mulheres da
Gergia so as mais belas deste mundo. E se ela no quiser? Pois bem... ento trago um punhado de
rapazes valentes, ponho Nino sobre a sela do cavalo, e depressa partimos para Teer, para alm da
fronteira persa. Depois ela ter de ceder, pois o que lhe restaria?
A vida era simples e bela, vista do alto de nossa casa em Baku.
Kerim, o criado, tocou em meus ombros.
 Est na hora  disse ele.
Levantei-me. Estava realmente na hora. No horizonte, por trs da ilha Nargin, via-se um barco a
vapor. Se  que se podia confiar num pedao de papel impresso, entregue em casa por funcionrios
cristos dos telgrafos, meu tio deveria encontrar-se naquele barco, com trs mulheres e dois
eunucos. Eu estaria ali para receb-lo. Desci a escada e entrei no automvel que me esperava.
Seguimos depressa para o porto barulhento.
Meu tio era um homem distinto. O x Nassr ed-Din lhe conferira o ttulo de Assad ed Davleh
Leo do Imprio. No se podia cham-lo de outra maneira. Ele tinha quatro mulheres, muitos
criados, um palcio em Teer e grandes propriedades em Mazendaran. Estava a caminho de Baku
por causa de uma de suas esposas. Era a pequena Zeinab. Tinha apenas dezoito anos, e o tio
gostava mais dela que das outras. Estava doente e no concebia filhos, e justamente com ela o tio
queria ter filhos. Por esse motivo, ela j tinha estado em Hamadan. Ali, em meio ao deserto,
erguese a esttua de um leo, esculpida em pedra avermelhada e de olhar misterioso. Fora colocada
ali por velhos reis cujos nomes se perderam no tempo. H sculos, mulheres seguem em
peregrinao at a esttua e beijam seu membro enorme, esperando assim a bno da matrnidade
e a alegria junto aos filhos. Mas  pobre Zeinab o leo no ajudara. Tampouco
 Kurban Saic
ajudaram o amuleto do dervixe de Kerbela, as frmulas mgicas dos sbios de Meched e as artes
secretas das velhas de Teer, entendidas em coisas do amor. Agora ela viajava para Baku, pois
esperava encontrar na arte dos mdicos ocidentais o que era recusado  sabedoria local. Pobre tio!
Quanto s duas outras mulheres, velhas e desamadas, ele tivera de lev-las tambm. Pois assim
exigia o costume: Podes ter uma, duas, trs e quatro mulheres, contanto que as trats da mesma
maneira. Tratar da mesma maneira significava, porm, oferecer o mesmo a todas elas, por
exemplo, uma viagem at Baku.
A rigor, tudo aquilo no me dizia respeito. O lugar das mulheres  o anderun, o interior da casa.
Um homem bem-educado no as menciona na conversa, no pergunta por elas e no lhes manda
lembranas. So como sombras de seus maridos, embora eles muitas vezes s se sintam bem 
sombra de suas mulheres. Tudo isso  bom e certo. Uma mulher no tem mais sensatz do que um
ovo tem plos, diz um provrbio de meu pas. E criaturas insensatas precisam ser vigiadas, caso
contrrio provocam sua prpria desdita e a dos outros. Em minha opinio, essa  uma regra sbia.
O pequeno vapor se aproximava do cais. Marinheiros de peito largo e peludo baixaram a passarela
e os passageiros se precipitaram para baixo: russos, armnios, judeus, em grande azfama, como se
contassem cada minuto para pisar enfim em terra firme. Meu tio no aparecia. A pressa  amiga
do Diabo, costumava dizer. S quando todos os passageiros tinham deixado o navio mostrou-se o
vulto imponente do Leo do Imprio.
Ele vestia uma sobrecasaca forrada de seda. Cobrialhe a cabea um gorro de pele pequeno, redondo
e preto, e usava pantufas nos ps. Sua vasta barba era tingida com hena, e assim tambm suas
unhas, em lembrana do sangue que o mrtir Hussein derramou h mil anos em prol da verdadeira
f. Tinha olhos pequenos e fatigados e movia-se com
Ai e Nino
vagar. Atrs dele, visivelmente agitadas, seguiam trs figuras cobertas de vus negros, da cabea
aos tornozelos: as esposas. Por ltimo vinham dois eunucos  um deles com a expresso estudiosa
de um lagarto ressecado, o outro baixo, balofo e presunoso  os guardies da honra de Sua
Excelncia.
Lentamente, o tio atravessou a passarela. Eu o abracei e em sinal de respeito beijei seu ombro
esquerdo, embora no fosse estritamente necessrio faz-lo em pblico. No me dignei de olhar
para as esposas. Entramos no carro. Mulheres e eunucos seguiram atrs, em carruagens fechadas.
Era um cortejo to imponente que ordenei ao cocheiro que fizesse um desvio pelo passeio  beira-
mar, para que a cidade pudesse admirar meu tio da maneira devida.
De p no passeio  beira-mar, Nino olhava para mim, sorridente.
O tio cofiou a barba com dignidade e perguntou o que havia de novo na cidade.
 No muito  disse eu, consciente do meu dever de comear com assuntos menores para s
depois passar ao que importava.  Dadach Beg apunhalou Achund Sad na semana passada,
porque Achund Sad voltou  cidade embora tenha raptado a mulher de Dadach Beg h oito anos.
Dadach Beg o apunhalou no mesmo dia de sua chegada. Agora est sendo procurado pela polcia.
Claro que no o encontraro, embora todo mundo saiba que Dadach Beg vive na aldeia de
Mardakiani. As pessoas sensatas acham que Dadach Beg agiu bem.
O tio meneou a cabea, aprovando.
 Mais alguma novidade?
 Sim, em Bibi-Eibat os russos descobriram muito petrleo. Nobel trouxe uma grande mquina
alem, para atrrar uma parte do mar e fazer escavaes.
O tio ficou muito espantado.  Al, Al  disse, comprimindo os lbios em sinal de preocupao.
-10
Kurban Said
 L em casa est tudo bem, e, se Deus quiser, na prxima semana deixarei a Casa do Saber.
Assim, continuei falando sem parar, enquanto o velho me ouvia, pensativo. Somente quando o
automvel j se aproximava de casa, olhei para o lado e disse com indiferena:
 Um famoso mdico russo chegou recentemente  cidade. Dizem que ele tem muitos
conhecimentos. Sabe ler o passado e o presente no rosto das pessoas, e com isso tambm  capaz de
predizer o futuro.
O tio semicerrara os olhos, numa atitude de nobre fastio. Sem trair seus sentimentos, perguntou
pelo nome do mdico, e percebi que estava muito satisfeito comigo.
Afinal de contas, entre ns se aprendem cortesia e boas maneiras.
PROTEGIDOS DO VENTO, MEU PAI, meu tio e eu estvamos sentados na laje plana que cobria
nossa casa. Fazia muito calor. Tapetes de Karabagh macios e coloridos, com estampas de arabescos
brbaros estavam dispostos no cho, e sobre eles nos sentvamos com as pernas cruzadas. Por trs
de ns, criados seguravam lampies. No tapete  nossa frente via-se um mostrurio completo das
iguarias orientais  pes de mel, frutas cristalizadas, carneiro assado no espeto e arroz com fran go e uvas passas.
Como sempre, eu admirava a elegncia de meu pai e de meu tio. Sem mover a mo esquerda, eles
pegavam pedaos largos de po rabe, formavam um cone com eles, enchiam-nos de carne e
levavam-nos  boca. Com graa exemplar, o tio ps trs dedos da mo direita no prato de arroz
gorduroso e fumegante, pegou uma pequena poro, amassou-a em forma de bolota e levou-a 
boca, sem deixar cair nem um grozinho.
Meu Deus, os russos se vangloriam tanto de sua habilidade em comer com garfo e faca, embora a
pessoa mais estpida seja capaz de aprender isso em um ms! Uso garfo e faca sem dificuldade e
sei me comportar  mesa dos europeus. Porm, embora j esteja com dezoito anos, no saberia
imitar a extrema distino de meu pai ou de meu tio, que
12 (, Kurban Saicf
com apenas trs dedos da mo direita devoram uma grande poro de quitutes orientais, sem sujar
nem ao menos a palma da mo. Nino diz que nossa maneira de comer  brbara. Na casa dos
Kipianis come-se  mesa, no estilo europeu. Em minha casa, somente quando h convidados russos.
Nino se arrepia com a lembrana de que me sento num tapete e como com as mos. Ela esquece
que seu prprio pai s experimentou um garfo aos vinte anos de idade.
A refeio terminara. Lavamos as mos e meu tio pronunciou uma curta orao. Ento, os pratos
foram retirados. Serviu-se um ch pesado e escuro em pequenas xcaras, e o tio comeou a falar
como todos os velhos costumam fazer depois de uma boa refeio  com muitos rodeios e de
modo quase loquaz. Meu pai dizia apenas uma ou outra palavra, e enquanto isso eu me calava, pois
assim o exigiam os costumes. S meu tio falava. Como sempre fazia por ocasio de suas visitas a
Baku, relembrava os tempos do grande x Nassr ed-Din, em cuja corte ele desempenhara um papel
importante, que para mim permanecia um pouco obscuro.
 Por trinta anos  disse o tio  , gozei da benevolncia do Rei dos Reis. Sua Majestade levou-
me em suas viagens para o estrangeiro em trs ocasies. Nessas viagens, conheci o mundo dos
infiis melhor do que qualquer outra pessoa. Visitamos palcios de reis e imperadores, e
conhecemos os cristos mais eminentes daquele tempo.  um mundo estranho, e mais estranha
ainda  a maneira como tratam as mulheres. As mulheres, at mesmo as esposas de reis e
imperadores, andam nuas pelos palcios, e ningum mostra indignao. Talvez isso acontea
porque os cristos no so homens de verdade, ou por algum outro motivo. S Deus sabe. Por outro
lado, os infiis se assustam com ninharias. Certa vez, o czar convidou Sua Majestade para jantar. A
seu lado estava sentada a czarina. No prato de Sua Majestade fora servido um belo pedao de
galinha. Para mostrar cortesia, Sua Majestade pegou esse rico pedao, cheio de gordura,
AfieNmo
13
com os trs dedos da mo direita, e com toda a elegncia o depositou no prato da czarina. Ela
ficou terrivelmente plida e comeou a tossir, apavorada. Mais tarde soubemos que vrios cortesos
e prncipes do czar se escandalizaram com a amabilidade do x. To pouca estima tm os europeus
por suas mulheres! Eles as exibem nuas diante de todo mundo, mas no se do o incmodo de tratlas
cortesmente. Depois da refeio, o embaixador francs at mesmo abraou a esposa do czar e
rodopiou com ela pela sala, ao som de uma msica horrorosa. O prprio czar e vrios oficiais de
sua guarda ficaram olhando, mas ningum se lembrou de defender a honra do imperador russo.
Em Berlim, aconteceu-nos um episdio ainda mais estranho. Fomos conduzidos at a pera. No
palco, uma mulher gordssima cantava de maneira atroz. A pera se chamava A africana. A voz da
cantora era desagradvel ao extremo. O imperador Guilherme deu-se conta disso e castigou a
mulher sem demora. No ltimo ato, vrios negros armaram uma grande fogueira no palco. A
mulher foi amarrada e queimada lentamente at morrer. Claro que isso nos agradou bastante. Mais
tarde, algum explicou que o fogo era simblico. Porm, no acreditamos nisso, pois os gritos da
mulher eram to medonhos quanto os da herege Hurriet ul Ain, que em Teer, alguns dias antes
disso, o x condenara  morte pelo fogo.
O tio calou-se absorto em seus pensamentos e lembranas. Por fim, suspirou fundo e prosseguiu:
 Mas h uma coisa a respeito dos cristos que no consigo entender. Eles tm as melhores armas,
os melhores soldados e as melhores fbricas, onde se produz tudo o que  necessrio para vencer
um inimigo. Grandes honras so devidas quele que inventa novas formas de matar pessoas em
grande nmero, de maneira fcil e rpida. O inventor recebe muito dinheiro e  condecorado. Isso 
bom e certo, pois a guerra  necessria. Por outro lado, os europeus constrem
14
Kurean Said
hospitais, e aquele que inventa um recurso para salvar vidas, ou aquele que durante a guerra socorre
e alimenta soldados inimigos, tambm recebe todas as honras e  condecorado. O x, meu amo
supremo, sempre se admirou com isso. Pessoas que praticam, ou procuram praticar, atos em total
contradio um com o outro recebem a mesma recompensa. Certa vez, ele abordou o assunto com o
imperador em Viena, mas este tampouco soube dar uma explicao. Quanto a ns, os europeus nos
desprezam profundamente, pois para ns os inimigos so inimigos, e os matamos sem piedade. Eles
nos desprezam porque podemos ter quatro esposas, embora muitas vezes eles prprios tenham mais
de quatro, e porque vivemos e governamos de acordo com os mandamentos de Deus.
O tio se calou. J escurecera. Seu vulto lembrava o de um pssaro velho e descarnado. Ele se
endireitou, tossiu levemente como os velhos costumam fazer e disse com fervor:  Porm, apesar
de fazermos tudo o que o nosso Deus ordena, enquanto os europeus ignoram os mandamentos de
seu Deus, o fato  que o poder e a fora deles aumentam sempre, enquanto os nossos diminuem.
Quem poderia explicar-me isso?
No soubemos o que dizer. Aquele velho cansado le-
vantou-se e, com passos pouco firmes, desceu para o quarto.
Meu pai o seguiu. Os criados levaram as xcaras de
ch. Fiquei sozinho na laje sobre a casa. No sentia vontade
de dormir.
A escurido se abatra sobre nossa cidade, que parecia um animal  espreita, prestes a dar o bote.
Na verdade, eu via diante de mim duas cidades, uma dentro da outra, como uma noz dentro da
casca.
A casca eram os arredores da cidade, para alm da velha muralha. Ali, as ruas eram largas, as casas
eram amplas, as pessoas eram ruidosas e vidas por dinheiro. Essa outra cidade fora erguida em
funo do petrleo, que jorra
Ai e Nino
15
em nosso deserto e traz riqueza. Ali havia teatros, escolas, hospitais, bibliotecas, policiais e belas
mulheres de ombros nus. Quando se ouviam tiros, o motivo era sempre o dinheiro. Nos arredores
da cidade comeava a fronteira geogrfica da Europa. Nino vivia nesse lado.
Do lado de c da muralha, as casas eram estreitas e tortas como lminas de cimitarras. Os minaretes
das mesquitas se recortavam contra a lua suave, muito diferentes das torres de perfurao da
Refinaria Nobel. A Torre da Donzela erguia-se junto ao muro oriental da Cidade Velha. Mehmed
lussuf Khan, o soberano de Baku, mandara constru-la em homenagem a sua filha, que ele desejava
desposar. O casamento no se consumou. A filha se jogou da torre quando o pai, louco de amor,
subia precipitadamente as escadas at seu quarto. A pedra onde se espatifou a cabea da moa
chama-se Pedra da Donzela. s vezes, algumas noivas levam flores at essa pedra antes do
casamento.
Muito sangue foi derramado nas ruelas de nossa cidade  sangue humano. E esse sangue nos
fortalece e nos enche de bravura.
Logo  frente de nossa casa ergue-se o Portal do Prncipe Zizianachvili, e tambm ali jorrou sangue
humano, sangue belo e nobre. Foi h muitos anos, quando nosso pas ainda pertencia  Prsia e era
tributrio do governador do Azerbaijo. O prncipe Zizianachvili, que era um general do exrcito
do czar, sitiou nossa cidade, comandada por Hassan Kuli Khan. Este abriu os portes da cidade,
deixou entrar o prncipe e anunciou que se rendia ao Grande Czar Branco. O prncipe avanou
cidade adentro, montado em seu cavalo e acompanhado por uns poucos oficiais. O portal conduz a
uma praa, onde fora preparado um banquete. Ardiam fogueiras, sobre as quais bois inteiros eram
assados em espetos. A certa altura, o prncipe Zizianachvili j bebera demais e recostou a cabea
cansada no peito de Hassan Kuli Khan. Ento, meu antepassado Ibrahim Khan Chir-
16
Kurban Saia
vanchir desembainhou um grande punhal curvo e estendeuo ao soberano. Hassan Kuli Khan pegou
o punhal e talhou lentamente a garganta do prncipe. O sangue espirrou em seus trajes, mas ele
continuou talhando at ter a cabea do prncipe nas mos. A cabea foi deposta num saco cheio de
sal, e meu antepassado a levou para o Rei dos Reis em Teer. Porm, o czar decidiu vingar o
assassinato. Ele enviou muitos soldados. Hassan Kuli Khan encerrou-se no palcio, rezou e
meditou sobre a manh seguinte. Quando os soldados do czar transpuseram a muralha, ele fugiu
para o mar por uma passagem subterrnea, hoje obstruda. Dali, seguiu para a Prsia. Antes de
entrar na passagem subterrnea, ele escreveu no umbral uma frase curta, porm muito sbia: No
pode agir com bravura quem se preocupa com o amanh. Ao voltar da escola para casa, muitas
vezes eu vagueava pelo palcio em runas. Com suas imensas colunatas mouriscas, o Tribunal de
Justia se erguia ali, vazio e desolado. Quando nossos cidados tm contendas com a justia,
dirigem-se ao juiz russo nos arredores da cidade. Mas poucos queixosos fazem isso. No porque os
juizes russos sejam incompetentes ou injustos. Pelo contrrio, so brandos e justos, mas nosso povo
no concorda com sua maneira de agir. Um ladro vai preso. Fica sentado numa cela limpa e recebe
ch, at mesmo acar para pr no ch. Ningum ganha nada com isso, muito menos a vtima do
roubo. O povo d de ombros e prefere fazer justia com as prprias mos.  tarde, os queixosos se
renem na mesquita, os velhos sbios sentam-se em crculo e pronunciam a sentena segundo as
leis da charia, as leis de Al: Olho por olho, dente por dente. s vezes, durante a noite, vultos
encapuzados deslizam furtivos pelas ruelas da cidade. Um punhal rebrilha, ouve-se um grito
abafado e, pronto, fez-se justia. Conflitos de sangue proliferam em meio s famlias. Mas
raramente um queixoso se dirige ao juiz russo. E, quando o faz, os sbios o desprezam e as crianas
mostram-lhe a lngua na rua.
Afie Nino
17
Por vezes, quando a noite  mais escura, um saco  carregado pelas travessas da cidade. De dentro
do saco ouvem-se gemidos abafados. Um chapinhar leve, e o saco desaparece no fundo do mar. No
dia seguinte, um homem est sentado no cho de seu quarto, suas roupas esto rasgadas, seus olhos,
cheios de lgrimas, ele cumpriu o mandamento de Al  morte s mulheres adlteras.
Nossa cidade encerra muitos segredos. Suas esquinas so cheias de mistrios inauditos. Eu amo
estes mistrios, estas esquinas, a escurido sussurrante da noite e a longa meditao no ptio da
mesquita, no entardecer taciturno e ardente. Deus me fez vir ao mundo neste lugar, na condio de
muulmano de f xiita, a religio do imame Djafar. E, pela misericrdia de Deus, hei de morrer
aqui, na mesma rua e na mesma casa em que vim ao mundo. Eu e Nino, uma crist da Gergia que
come com garfo e faca, tem olhos sorridentes e usa meias de seda justas e perfumadas.
Captuo 3
O UNIFORME Dh GALA dos formandos tinha um colarinho agaloado de prata. A fivela do cinto e
os botes pratados rebrilhavam de to limpos. O tecido recm-engomado ainda estava morno. Na
grande sala do ginsio, permanecamos de p, em silncio e com a cabea descoberta. A sesso
solene do exame foi aberta com uma prece para que o Deus da Igreja Ortodoxa nos ajudasse. Dos
quarenta rapazes que ali estavam, apenas dois pertenciam  religio do Estado.
O pope comeou a orao, no ouro pesado das vestimentas cerimoniais, com cabelos longos e
perfumados e uma cruz grande e dourada nas mos. A sala se encheu de incenso, os professores e
os dois alunos cristos da religio oficial se ajoelharam.
As palavras do pope, pronunciadas na cadncia meldica da Igreja Ortodoxa, soavam indistintas
aos nossos ouvidos. Quantas vezes tnhamos escutado aquilo, ao longo de oito anos, com tdio e
indiferena!
 ...a bno de Deus para o nosso soberano, o czar Nicolau II Aleksandrovitch, dentre todos o
mais devoto, o mais poderoso e o mais cristo... e a bno de Deus para todos os marinheiros e
viajantes, todos os estudantes e sofredores, e todos os guerreiros que sacrificaram a vida no
Ai e Nino
campo de honra em nome da f, do czar e da ptria, e para todos os cristos ortodoxos...
Entediado, eu olhava para a parede. Ali, envolto numa grossa moldura dourada, via-se o retrato do
soberano e czar, dentre todos o mais devoto e o mais poderoso, em tamanho natural, semelhante a
um cone bizantino, sob a grande guia dupla. O rosto do czar era alongado, seus cabelos eram
loiros, e ele mirava diante de si com olhos claros e frios. Era impressionante a quantidade de
condecoraes em seu peito. Ao longo de oito anos eu tentara cont-las, mas sempre me
atrapalhava com aquele monte de insgnias.
Antigamente, ao lado do retrato do czar pendia o da czarina. Mas depois o retrato dela foi
removido. O vestido decotado escandalizava os muulmanos da regio, que se recusavam a mandar
os filhos para a escola por causa disso.
Enquanto o pope rezava, a solenidade daquele momento nos comoveu. Apesar de tudo, era um dia
de grande emoo. Desde as primeiras horas da manh, eu fizera tudo para estar  altura daquele
dia. De madrugada, prometi a mim mesmo que seria gentil com as pessoas de casa. Mas quase
todas elas estavam dormindo, de modo que no havia como cumprir a promessa. A caminho da
escola, dei dinheiro para todos os mendigos que encontrei. Melhor no arriscar. Em minha
excitao, ofereci um rublo inteiro a um dos mendigos, ao invs de cinco copeques. Quando ele se
ps a agradecer efusivamente, eu disse com dignidade:
 No agradea a mim; agradea a Al, que usou minha mo para fazer a caridade.
Impossvel ser reprovado depois de um pensamento to piedoso.
A orao terminara. Em fila indiana, dirigimo-nos  mesa do exame. A banca examinadora
lembrou-me a goela de um monstro antediluviano: rostos barbudos, olhares sombrios, uniformes de
gala dourados. O efeito era solene e assustador. No entanto, os russos no gostam de reprovar
20
KuiJan Sau
muulmanos. Todos nos temos muitos amigos, e nossos amigos so rapazes fortes com punhais e
revlveres. Os professores sabem disso e temem os selvagens bandidos que so seus alunos, tanto
quanto os alunos temem os professores. Uma transferncia para Baku e considerada um castigo de
Deus. No so raros os casos em que professores so atacados de surpresa e espancados em ruelas
escuras. O que acontece depois e que os autores desses ataques continuam soltos, enquanto os
professores terminam por ser transferidos. Por isso, eles fingiram nada ver quando o aluno Ah
Khan Chirvanchir, de maneira bastante atrevida, se ps a copiar as questes de matmtica do
vizinho Metalmkov Apenas uma vez um dos professores aproximou-se de mim e sibilou
em desespero
 Seja mais discreto, Chirvanchir, no estamos so-
zinhos.
A prova de matmtica terminara sem dificuldades. Felizes, fomos vadiar pela rua Nikolai. Quase
no nos sentamos mais como alunos. A prova escrita de russo estava marcada para o dia seguinte
Como sempre, o tema da dissertao chegou de Tbihsi num envelope lacrado. O diretor abriu o
envelope e leu solenemente:
 As personagens femininas de Turguenev como encarnao ideal da alma das mulheres russas.
Um tema fcil. Podia escrever o que quisesse, contanto que elogiasse as mulheres russas. A partida
estava ganha. J a prova escrita de fsica era mais difcil. Porem, onde falhava o saber, a arte j
tradicional da cola me socorreria. E, assim, tambm me dei bem em fsica. Depois disso, a banca
concedeu aos delinqentes um dia de folga
Chegou a vez das provas orais. Nelas, nenhum truque servia. Era preciso dar respostas complicadas
para perguntas simples A primeira prova foi a de religio O imame do ginsio, envolto numa manta
longa e flutuante e cingido pela faixa verde usada pelos descendentes do Profeta, du-
Ai t Nino
21
rante as outras provas sempre em segundo plano, de sbito estava sentado a frente da mesa. Ele
costumava tratar os alunos com benevolncia. A mim, s perguntou sobre o artigo de f, e
despachou-me com a nota mxima depois que recitei exemplarmente a declarao de f xnta:
 Ala e o nico Deus, Maome e seu profeta, e Ah e o lugar-tenente de Ala
A ultima parte da declarao era muito importante, pois e ela que distingue os devotos xutas dos
desencaminhados irmos sumtas, aos quais a misericrdia de Ala, porem, no foi totalmente
negada. Assim nos ensinara o imame, que era um homem liberal
J o professor de historia no tinha nada de liberal Retirei o papelzmho com a pergunta, h-a em voz
alta e no me senti bem. Ah estava escrito: A \itoria de Madatov em Gandia. O prprio professor
no parecia muito a vontade Na batalha de Gandja, os russos ha\iam derrotado de modo traioeiro o
celebre Ibrahim Khan Chirvanchir, que outrora ajudara Hassan Kuh a decepar a cabea do prncipe
Zizianachvih
 Chirvanchir, se quiser tem o direito de escolher outra pergunta
O professor dissera aquilo com suavidade. Olhei desconfiado para o pote de vidro onde se
conservavam os papeizmhos com as perguntas da prova Pareciam bilhetes de loteria Todo aluno
podia trocar de pergunta uma vez. Com isso, ele apenas perdia o direito a nota mxima Mas eu no
queria desafiar o destino. Pelo menos quanto a morte de meu antepassado, sentia-me a vontade No
pote de vidro aguardavam-me incontveis perguntas misteriosas sobre a sucesso dos Fredencos,
dos Guilhermes e dos Fredencos Guilhermes da Prssia, ou sobre as causas da guerra de
independncia norte-americana. Quem poderia saber tudo isso? Meneei a cabea
 Obrigado, fico com esta
Kiifian Saui
Ento, com toda a gentileza possvel, contei a historia do prncipe Abas Mirza da Prsia, que partiu
de Tabnz com um exercito de quarenta mil soldados para expulsar os russos do Azerbaijo. Em
Gandja, defrontou-se com o general Madatov, da Armnia, que trazia cinco mil soldados. Madatov
atacou os persas com canhes, o prncipe Abas Mirza caiu do cavalo e arrastou-se para uma vala
Todo o exercito persa fugiu em debandada. Ao tentar a fuga atravessando um no, juntamente com
um squito de cavaleiros, Ibrahim Khan Chirvanchir foi capturado e condenado a morte
 A vitoria foi devida no tanto a bravura das tropas, mas a superioridade tcnica dos canhes de
Madatov. Em conseqncia da vitoria russa, assinou-se o Tratado de Paz de Turkmentchai, pelo
qual os persas tiveram de pagar um tributo cuja cobrana levou cinco provncias a runa.
Esta concluso custou-me a nota Bom. Eu deveria ter dito-
 A vitoria foi devida a coragem exemplar dos russos, que puseram em fuga um inimigo oito
vezes mais numeroso Em conseqncia da vitoria russa, assinou-se o Tratado de Paz de
Turkmentchai, que proporcionou aos persas sua adeso a cultura e aos mercados ocidentais.
Seja como for, a honra de meu antepassado era to importante para mim quanto a diferena entre
Bom e Satisfatrio
Agora, tudo terminara. O diretor fez uma alocuo solene. Cheio de dignidade e rigor tico,
declarou que framos aprovados. Como prisioneiros postos em liberdade, descemos a escada aos
saltos. O sol nos cegou. A areia amarela do deserto cobrira o asfalto da rua com grozinhos
minsculos O policial da esquina, que nos protegera amavelmente ao longo de oito anos, veio at
nos, felicitou-nos e recebeu cinqenta copeques de cada um. Como uma horda de bandidos,
espalhamo-nos aos gritos pela cidade
Ai e iitw
23
Corri para casa e fui recebido como Alexandre depois da vitoria sobre os persas. Os criados me
encaravam com receio. Meu pai cobriu-me de beijos e concedeu-me a realizao de trs desejos,
que eu poderia escolher livremente. Meu tio opinou que um homem to sbio deveria ser admitido
na corte de Teer, onde certamente um brilhante futuro o aguardava.
Depois que a primeira excitao passou, esgueirei-me furtivo at o aparelho disforme chamado
telefone. No falara com Nino por duas semanas. Uma regra sabia aconselha aos homens que no
conversem com mulheres quando tm de resolver assuntos importantes Tirei o fone do gancho,
girei a manivela e gritei no bocal-
 Trinta e trs, oitenta e um! A voz de Nino atndeu:
 Passou no exame, Ah?
 Sim, Nino.
 Parabns, Ah!
 Quando e onde, Nmo?
 As cinco, perto do lago do Jardim do Governador. Eu no podia continuar falando  As minhas
costas
pressentia os ouvidos curiosos dos parentes, criados e eunucos. E, as costas de Nino, sua
aristocrtica mame. Portanto, desliguei. De qualquer forma, falar com outra pessoa sem v-la e
algo to estranho que chega a ser desagradvel. Subi at os grandes aposentos de meu pai. Ele
estava sentado no div e bebia ch. O tio estava com ele. Postados de p junto as paredes, os
criados fitavam-me. O exame ainda no chegara ao fim. No limiar da vida adulta, o pai tinha de
transmitir ao filho sua lio de sabedoria, de maneira formal e em publico Era uma cena comovente
e um pouco antiquada
 Meu filho, agora que sua vida adulta tem inicio, cabe a mim lembrar-lhe mais uma vez os
deveres de um muulmano Vivemos no pais da impiedade. Para no su-
24
Kiofcm S?i(i
cumbirmos, temos de nos atr aos velhos usos e costumes. Reze com freqncia, meu filho, no
beba, no beije mulheres estranhas ao nosso povo, seja bom para com os pobres e os fracos e esteja
sempre pronto a sacar a espada para defender a f. Se acaso voc tombar no campo de batalha, eu,
seu velho pai, sentirei grande pesar. Mas, se souber que meu filho sobreviveu desonrado, estarei
coberto de vergonha. Nunca perdoe seus inimigos, meu filho, no somos cristos. No pense no dia
de amanh, pois isso nos torna covardes, e nunca esquea a f de Maom, na interpretao xiita da
seita do imame Djafar.
O tio e os criados tinham no rosto uma expresso solene e transfigurada. Ouviam as palavras de
meu pai como se fossem uma revelao. Ento, meu pai ergueu-se, pegou minha mo e disse com
voz subitamente trmula e opressa:
 E suplico-lhe mais uma coisa: no se envolva em poltica! Faa o que quiser, mas fique longe
disso.
Jurei que sim, de corao leve. A poltica estava longe de minhas preocupaes. E, at onde eu
sabia, Nino no era um problema poltico. Meu pai abraou-me mais uma vez. Agora, eu era
homem feito.
s quatro e meia, desci sem pressa pela alameda da fortaleza at o passeio  beira-mar, ainda
vestido no resplandecente uniforme de gala. Entrei  direita e segui pelo Palcio do Governador
rumo ao jardim, cujas rvores haviam sido plantadas no solo deserto de Baku com incrvel esforo.
Era uma estranha sensao de liberdade. O governador passou diante de mim em sua carruagem, e
no precisei perfilar-me nem batr continncia como tivera de fazer ao longo de oito anos.
Solenemente, arranquei do meu gorro o distintivo pratado com as iniciais do ginsio de Baku.
Desfilei pelo jardim como um cidado especial. Por um instante, senti vontade de acender um
cigarro em pblico. Minha averso pelo tabaco, porem, era mais forte que as tentaes da
liberdade. Desisti de fumar e entrei no parque.
A/i e Nino
25
Era um jardim amplo e empoeirado, com escassas rvores de aspecto triste e alamedas asfaltadas. 
direita erguia-se o velho muro da fortaleza. No centro, em mrmore branco, rebrilhavam as colunas
dricas do Clube Municipal. Inmeros bancos preenchiam os espaos entre as rvores. Algumas
palmeiras poeirentas serviam de abrigo para trs flamingos, que miravam fixamente a esfera
vermelha do sol poente. Perto do clube via-se o lago, que era na verdade um tanque enorme,
redondo e fundo, revestido com lajes de pedra. A prefeitura da cidade tivera a inteno de ench-lo
de gua e providenciar cisnes. Mas tudo no passara da inteno. A gua era cara e no havia
cisnes em parte alguma do pas. Voltado para o cu, o tanque permanecia vazio como a cavidade
ocular de um ciclope morto.
Sentei-me num banco. O sol brilhava por trs do emaranhado confuso de casas cinzentas e
quadradas com seus tetos planos. A sombra da rvore por trs de mim alongouse. Vi passar uma
mulher com um vu de listras azuis e tamancos ruidosos. Por trs do vu, seu nariz comprido e
curvo lembrou-me uma ave de rapina. O nariz farejou-me. Olhei para o outro lado. Um estranho
cansao se apossou de mim. Ainda bem que Nino no usava vu nem tinha nariz comprido e curvo.
No, eu no iria esconder Nino por trs de um vu. Ou iria? No sabia ao certo. Vi o rosto de Nino
 luz do sol que se punha. Nino Kipiani  belo nome da Gergia, pais respeitveis com tendncias
europias. E o que tinha eu com isso? A pele de Nino era clara. Seus olhos eram grandes, risonhos,
faiscantes, escuros e caucasianos. Os clios eram longos e delicados. S a mulher da Gergia tem
esses olhos cheios de doce alegria. Nenhuma outra. Nem as europias, nem as asiticas. As
sobrancelhas eram finas e arqueadas, e seu perfil era o de uma madona. Entristeci-me. A
comparao me encheu de melancolia. H tantas comparaes para um homem do Oriente! Mas
essas mulheres da Gergia s
Kwfian Smd
podem ser comparadas a Minam crista, smbolo de um mundo estranho e incompreensvel.
Baixei a cabea. Diante de mim estendia-se a alameda asfaltada do Jardim do Governador,
recoberta com o p do grande deserto. A areia me ofuscava. Fechei os olhos. Ento, ouvi a meu
lado uma risada desimbida e alegre.
 Valha-me, so Jorge! Vejam s o Romeu que pegou no sono a espera de sua Julieta!
Levantei-me de um salto Nino me encarava Ainda usava o uniforme azul e recatado do Colgio de
Santa Tamar. Era muito magra, magra demais para o gosto oriental Mas justamente esse defeito me
inspirava simpatia e carinho Tinha dezessete anos de idade, e eu a conhecia desde o primeiro dia
em que ela subira a rua Nikolai em direo ao colgio.
Nino sentou-se Seus olhos brilharam por trs da fina rede dos clios arqueados tpicos da Gergia-
 Ento, passou no exame? Eu estava um pouco preocupada.
Passei o brao sobre os seus ombros:
 Bem, o meu corao quase parou de batr. Mas, voc sabe, Deus ajuda aos que O temem
Nino sorriu.
 Daqui a um ano, ser voc quem vai fazer o papel de Deus. S vou passar no exame se voc se
sentar embaixo do banco e me assoprar as respostas de matmtica.
Isso havia sido combinado muitos anos antes, quando Nino tinha doze anos de idade. Certo dia, no
intervalo longo, ela acorreu at nos em prantos e arrastou-me para sua classe, onde fiquei sentado
uma hora inteira sob o banco dela, sussurrando-lhe as respostas de matmtica. Desde aquele dia,
tornei-me um heri aos olhos de Nino
 Como vo seu tio e as mulheres do harem?
Fiz uma expresso seria Na verdade, os assuntos do harem eram segredo Mas, diante da
curiosidade inofensiva
Ali t Nwo
de Nino, todas as regras da modstia oriental se esvaiam. Minha mo se enredou em seus cabelos
negros e macios:
 O harem de meu tio esta prestes a voltar para casa. A medicina ocidental parece que deu certo,
para surpresa de todos nos. No entanto, ainda no temos provas. at agora, s o tio tem esperanas.
Tia Zemab continua descrente.
Nino franziu a testa infantil.
 Tudo isso no e nada bonito. Meu pai e minha me desaprovam. Ter um harem e uma infmia.
Ela falava como uma aluna que declama a lio de casa. Toquei sua orelha com os lbios:
 Eu no vou montar um harem, Nino, pode ficar sossegada
 Mas com certeza vai obrigar sua esposa a usar vu1
 Talvez sim, talvez no  O vu tem sua utilidade Protege do sol, da poeira e dos olhares alheios.
Nino enrubesceu
 Voc sempre ser um asitico, Ali. Por que se incomoda com os olhares alheios? Uma mulher
gosta de agradar.
 Mas s deve agradar ao marido. Um rosto aberto, um ombro nu, um busto visvel pela metade,
meias transparentes em pernas esbeltas .. tudo isso so promessas que uma mulher tem de cumprir.
Se um homem v tudo isso numa mulher, e claro que vai desejar ver mais. E o vu serve para
proteger o homem de tais desejos.
Nino olhou para mim, admirada.
 Voc acha que na Europa as moas de dezessete anos e os rapazes de dezenove conversam sobre
isso?
 Provavelmente no.
 Pois ento vamos mudar de assunto  disse Nino com severidade, comprimindo os lbios.
Minha mo deslizou em seus cabelos. Ela ergueu a cabea. O ultimo raio do sol poente iluminou
seus olhos. Inclinei-me sobre ela . Seus lbios se abriram, suaves e inertes. Beijei-a por muito
tempo, sem o menor recato Sua respira-
28  ( Kwdan Saui
co era pesada. Seus olhos se fecharam e a sombra dos clios recobriu-lhe o rosto. Ento, ela se
desvencilhou de mim. Continuamos em silncio, contemplando o crepsculo. Depois de um
instante nos levantamos, um pouco envergonhados. Deixamos o jardim de mos dadas.
 Pensando bem, eu deveria usar vu  disse ela quando saamos.
 Ou deveria cumprir sua promessa.
Ela sorriu, acanhada. De novo, tudo era bom e simples. Acompanhei-a at sua casa. Ao despedir-se,
ela disse:
 Vou ao baile de vocs, naturalmente! Segurei sua mo:
 O que voc vai fazer no vero, Nino?
 No vero? Vamos viajar para Chucha, em Karabagh. Mas no imagine coisas. Isso no quer
dizer que voc tem que ir para Chucha tambm.
 timo, ento neste vero nos vemos em Chucha.
 Ali, voc  terrvel. No sei por que gosto de voc.
A porta se fechou por trs dela. Fui para casa. O eunuco do tio, aquele com a expresso estudiosa
de um lagarto ressecado, recebeu-me com um sorriso irnico:
 As mulheres da Gergia so muito bonitas, Khan. No se deve beij-las tantas vezes num jardim
por onde passa tanta gente.
Belisquei sua bochecha descorada. Um eunuco pode se permitir qualquer atrevimento.  um ser
neutro, nem homem, nem mulher.
Fui ao encontro de meu pai.
 O senhor me concedeu trs desejos. J decidi o primeiro. Quero passar o prximo vero sozinho
em Karabagh.
Meu pai olhou-me longamente e por fim meneou a cabea, sorrindo.
Captuo 4
SEINU Ac, A ERA UM SIMPLES CAMPONS da aldeia de Binigadi, perto de Baku. Ele possua
uma gleba de terra rida e poeirenta, que escavara muitas vezes. Certo dia, um pequeno terremoto
abriu uma fenda em sua miservel propriedade, e daquela fenda jorrou petrleo. A partir de ento,
Seinal Ag no mais precisou de sua habilidade e destreza. Simplesmente no conseguia mais
livrar-se do dinheiro. Ele o esbanjava em grande quantidade, mas o dinheiro aumentava sempre e
tornava-se um fardo para ele, ameaando esmag-lo. Cedo ou tarde aquela felicidade seria punida, e
Seinal Ag vivia na expectativa dessa punio, como um condenado  morte  espera do suplcio.
Construiu mesquitas, hospitais e prises. Fez uma peregrinao at Meca e fundou asilos para
crianas carentes. Mas a desgraa no aceita gorjetas. Foi trado por sua mulher de dezoito anos de
idade, que ele desposara quando j tinha setenta. Seinal Ag vingou sua honra da maneira devida,
com crueldade e dureza, mas isso fez dele um homem cansado. Sua famlia se desintegrou, um filho
o abandonou, outro lhe trouxe vergonha indizvel ao suicidar-se.
Agora, cinzento, triste e encurvado, ele vivia nos quarenta aposentos de seu palcio em Baku. Ilias
Beg, o nico filho que lhe restara, era nosso colega de classe, e por isso o baile dos formandos foi
organizado no grande salo daquele palcio, cujo teto gigantesco era de cristal de rocha opaco.
30
Kuifian Said
Ah e Nmo
31
s oito horas, subi pela ampla escadaria de mrmore. No alto, Ilias Beg recebia os convidados.
Assim como eu, estava vestido  moda tcherkess, com um punhal estreito e elegante preso ao cinto.
E, assim como eu, no precisava tirar o gorro de pele de cordeiro, pois esse era um de nossos novos
privilgios.
 Saliam aleikum, Ilias Beg!  gritei, levando a mo direita ao gorro.
Demo-nos as mos segundo um velho costume local: minha mo direita em sua mo direita, e sua
esquerda em minha esquerda.
 Hoje vamos fechar o leprosrio  sussurrou Ilias Beg.
Acenei alegremente com a cabea.
O leprosrio era um segredo inventado pelos alunos de nossa classe. Os professores russos, mesmo
aqueles que lecionavam na cidade havia anos, no conheciam absolutamente a regio. Por isso, ns
os tnhamos convencido de que havia um leprosrio nos arredores de Baku. Quando alguns de ns
queriam faltar s aulas, o mais velho da classe apresentava-se ao diretor e anunciava, batndo o
queixo, que doentes do leprosrio tinham fugido. A polcia estaria  procura deles. Supunha-se que
teriam se escondido naquela parte da cidade onde moravam os alunos gazeteiros. O diretor
empalidecia e dispensava os alunos at que os doentes fossem apanhados. Isso podia durar uma
semana ou mais, conforme o caso. No passava pela cabea de nenhum professor perguntar no
Servio de Sade Pblica se havia de fato um leprosrio nos arredores da cidade. Aparentemente,
os professores acreditavam que tudo era possvel naquele pas sinistro. Mas, nesse dia, amos
fechar solenemente o leprosrio.
Adentrei o salo, que j estava lotado. Num dos cantos, com expresso solene e distinta e cercado
de professores, estava sentado nosso diretor, o conselheiro titular autnti-
co Vassili Grigorievitch Chrapko. Aproximei-me dele e inclinei-me numa reverncia. Eu era o
porta-voz dos alunos muulmanos perante o diretor, pois tinha um instinto infalvel para lnguas e
dialetos. Quase todos os alunos j traam a origem no-russa ao pronunciar a primeira frase, mas eu
falava com facilidade at mesmo os diferentes dialetos russos. Nosso diretor vinha de So
Petersburgo, por isso era preciso falar petersburgus com ele, ceceando as consoantes e
engolindo as vogais. No soa nada bem, mas  muito chique. O diretor nunca percebia a gozao, e
elogiava satisfeito a russificao progressiva desta distante provncia.
 Boa noite, senhor diretor  disse eu, com modstia.
 Boa noite, Chirvanchir, j se recuperou do susto do exame final?
 Ah, sim, senhor diretor. Mas nesse meio tempo me aconteceu uma coisa terrvel.
 O que foi?
 Essa histria do leprosrio. Meu primo Suleiman tomou parte nela. O senhor sabe que ele 
capito do Regimento Salian. Ficou muito doente, e tive de cuidar dele.
 Mas o que aconteceu com o leprosrio?
 Como? No est a par, senhor diretor? Ontem, todos os doentes fugiram para a cidade. Dois
destacamentos do Regimento Salian foram enviados para det-los. Os doentes tinham ocupado dois
vilarejos. Os soldados cercaram esses vilarejos e abatram todas as pessoas a tiros, doentes ou no.
Agora as casas esto sendo incendiadas. No  horrvel, senhor diretor? O leprosrio no existe
mais. Os doentes, muitos deles sem os membros, com pedaos de carne podre pendurados no corpo,
alguns agonizantes, esto diante dos portes da cidade. Aos poucos, eles esto sendo queimados
com petrleo.
A testa do diretor cobriu-se de suor. Provavelmente refletia se j no era tempo de pedir ao ministro
uma transferncia para outra regio mais civilizada.
32
Kutba
 Pais terrvel, povo terrvel  disse ele, pesaroso  Mas agora vocs esto vendo, meus filhos,
como so importantes uma administrao ordeira e reparties publicas eficientes.
A classe se reuniu ao redor do diretor e ouviu sorridente suas reflexes sobre a ordem abenoada. O
leprosano fora enterrado Nossos sucessores teriam de inventar outra mentira.
 Sabia, senhor diretor, que o filho de Mehmed Haidar j freqenta o nosso ginsio, e este e o
segundo ano dele aqui?  perguntei, com cara de inocente.
 O queee?
Os olhos do diretor saltaram das orbitas Mehmed Haidar era a vergonha do ginsio Ficava pelo
menos trs anos em cada serie, at passar para a serie seguinte Ele continuou indo a escola depois
de casar-se, aos dezesseis anos Seu filho tinha agora nove anos e frequentava a mesma escola
Primeiro, o pai felizardo tentara ocultar o fato. Mas certa vez, durante o intervalo longo, o menino
baixinho e gorducho aproximou-se do pai e disse em idioma trtaro, com olhos grandes e inocentes.
Papai, se no me der cinco copeques para comprar chocolat, vou contar para a mame que voc
copiou a lio de matmtica de outro aluno 
Mehmed Haidar ficou terrivelmente envergonhado, encheu de sopapos o moleque atrevido e pediu-
nos que, numa ocasio apropriada, explicssemos ao diretor aquele parentesco.
 Quer dizer ento que o aluno da sexta serie Mehmed Haidar tem um filho que j frequenta aprimeira?  perguntou o diretor.
 Sim, senhor. Ele lhe pede perdo por isso. Mas quer que o filho seja to estudioso quanto o pai.
E tocante observar como o saber ocidental ganha cada vez mais adeptos
entre nos.
O diretor enrubesceu Conjeturou em silncio se o fato de pai e filho frequentarem a mesma escola
no estaria con-
A/i e Nino
33
tranando algum regulamento. Mas no chegou a uma concluso E assim, papai e filhinho puderam
continuar sitiando a fortaleza do saber ocidental.
No salo, abriu-se uma pequena porta latral. O pesado reposteiro foi afastado. Um menino de dez
anos de idade conduzia pela mo quatro cegos de pele morena, msicos da Prsia. Os homens se
sentaram no tapete em um dos cantos da sala. Exibiam instrumentos curiosos, fabricados na Prsia
havia sculos. Ouviu-se um som plangente. Um dos msicos levou a mo ao ouvido  a pose
clssica dos cantores orientais.
Todos fizeram silncio. Outro musico se ps a tocar um pandeiro com animao. O cantor entoou
num tom alto, em falsete-
 Teu perfil e como uma espada persa,
Tua boca e um rubi incandescente
Fosse eu o sulto turco, faria de ti minha esposa
Enfeitaria com prolas tuas trancas,
Beijaria teus calcanhares
Traria para ti, num pote de ouro,
Meu prprio corao
O cantor calou-se. Ressoou a voz de seu vizinho a esquerda, forte e brutal, que, cheio de dio,
gritou.
 E, toda noite,
Como unia ratazana te esgueiras
Pelo ptio at a casa do vizinho
Agora o pandeiro ressoava selvagemente A rabeca de uma s corda soluava O terceiro cantor
gritou com uma voz anasalada e cheia de paixo
 Ele e um chacal, um infiel
Oh, desdita Oh, infortnio Oh, ultraje
34
Por um momento, todos se calaram. Ento, depois de trs ou quatro compassos curtos, o quarto
cantor comeou em voz baixa, comovida, quase carinhosa:
 Por trs dias amolarei meu punhal No quarto dia esfaquearei meu inimigo Hei de corta-lo em pedacinhos.
Jogo-te sobre a sela, minha amada, Cubro meu rosto com o xale de guerra E disparo contigo para as
montanhas.
Eu ouvia de p, diante de uma das cortinas adamascadas do salo. A meu lado estavam sentados o
diretor da escola e o professor de geografia.
 Que musica horrorosa  disse o diretor baixinho.  Parecem os bramidos noturnos de um asno
do Caucaso. O que ser que dizem as palavras?
 Devem ser to absurdas quanto a melodia  respondeu o professor.
Tentei esquivar-me dali na ponta dos ps.
Ento, reparei que o pesado damasco se movia. Olhei para aquele lado, cauteloso. Um velho de
cabelos cor de neve e olhos estranhamente claros estava de p por trs da cortina, escutando a
musica e chorando. Era Sua Excelncia Semal Ag, o pai de lhas Beg. Suas mos flcidas, de veias
azuis e grossas, tremiam. Aquelas mos, que mal seriam capazes de escrever o nome do dono,
reinavam sobre setenta milhes de rublos.
Desviei o olhar para o outro lado. Era um simples campons aquele Semal Ag, mas compreendia a
arte dos cantores melhor do que os professores que nos tinham aprovado no exame final.
A cano terminou. Os msicos entoaram uma ria de dana caucasiana. Atravessei o salo. Os
alunos conversavam em grupos e bebiam vinho. at mesmo os muulmanos Eu no bebia.
Ali e hino
35
Moas, amigas e irms de nossos colegas tagarelavam pelos cantos do salo Entre elas havia muitas
russas, com tranas loiras, olhos azuis ou cinzentos e coraes empoados, cheios de vaidade.
Conversavam somente com os jovens russos, na melhor das hipteses com armnios ou georgianos.
Quando um muulmano vinha ter com elas, davam nsmhos abafados e constrangidos, respondiam
algumas palavras e afastavam-se.
Algum abriu o piano. Uma valsa. O diretor convidou a filha do governador para danar.
E ali estava ela finalmente! Ouvi sua voz na escada:
 Boa noite, lhas Beg. Desculpe pelo atraso. No foi culpa minha
Precipitei-me para fora do salo. No, Nino no usava um vestido de noite, nem o uniforme de gala
do Colgio de Santa Tamar. Laos firmes envolviam sua cintura, to estreita que achei que podia
envolve-la com uma s mo De seus ombros pendia um curto colete de veludo com botes
dourados. Sua saia preta e longa, igualmente de veludo, chegava-lhe at os ps. Eu via somente as
pontas douradas de seus pantufos de marroquim. Uma pequena boina redonda cobria-lhe os
cabelos, e duas fileiras de pesadas moedas de ouro pendiam sobre a testa. Ela usava o antiqussimo
traje de festa das princesas georgianas, embora seu rosto fosse o de uma madona bizantina.
A madona nu:
 No, Ali Khan. No se zangue comigo. Precisei de uma hora para amarrar os laos. A saia e da
minha av. S aceitei vesti-la em homenagem a vocs.
 A primeira dana e minha  exclamou lhas Beg. Nino encarou-me, como que a me pedir
autorizao.
Assenti com a cabea. No gosto de danar, e dano mal. E, no que diz respeito a Nino, posso
confiar em lhas Beg. Ele sabe se comportar.
 A Prece de ChamiP  gritou lhas Beg
36
Kurban Said
Imediatamente, os msicos cegos atacaram sem transio uma selvagem melodia...
Ilias saltou para o meio do salo e tirou o punhal da bainha. Os ps se moviam no ritmo fogoso da
dana das montanhas do Cucaso. A lmina brilhava em sua mo. Nino danava em volta dele.
Seus ps pulavam como brinquedos pequenos e singulares. Comeara o Mistrio de Chamil.
Batamos palmas no ritmo da msica. Nino era a noiva prestes a ser raptada... Ilias mordeu o punhal
com os dentes. Com os abraos abertos, movia-se ao redor da moa como uma ave de rapina. Os
ps de Nino rodopiavam pelo salo. Seus braos flexveis sugeriam todas as nuanas do medo, do
desespero e do abandono. A mo esquerda segurava um leno. Todo o seu corpo estremecia.
Apenas as moedas presas  boina mantinham-se quietas e em ordem. Era a maneira correta, e
tambm a parte mais difcil da dana. S uma georgiana consegue rodopiar to selvagemente pelo
salo sem deixar tinir nenhuma das moedas sob a boina. Ilias a perseguia. Incansavelmente,
danava em seu encalo, na ampla roda. Os gestos largos de seus braos eram cada vez mais
imperiosos, e cada vez mais ternos eram os movimentos defensivos de Nino. Por fim ela se deteve,
como uma cora assustada perseguida pelo caador. Ilias danava em crculos cada vez mais
estreitos. Os olhos de Nino eram suaves e submissos. Suas mos tremiam. No ltimo lamento curto
e selvagem da msica, ela abriu a mo esquerda. O leno foi ao cho. O punhal de Ilias voou at o
pedacinho de seda, pregando-o firmemente no assoalho.
O simbolismo da dana de amor terminara...
A propsito, acho que no mencionei que, antes da dana, enfiei meu punhal na bainha de Ilias Beg
e tomei o dele. A lmina que perfurara o leno de Nino era minha. Melhor no arriscar. Uma regra
de sabedoria ensina: Antes de confiar teu camelo  proteo de Al, deixa-o bem amarrado na tua
cerca.
Captufo 5
 QUANDO NOSSOS GLORIOSOS ANTEPASSADOS,  Khan, chegaram a estas terras para
construir sua grande e temvel fama, exclamaram: Kar bak!, que significa Vejam! Ali h
neve. Porm, quando se aproximaram das montanhas e avistaram a floresta, gritaram:
Karabagh!, que significa jardim escuro. Desde ento, este pas se chama Karabagh. Mas antes
se chamava Sunik, e, antes disso ainda, Agvar. Pois com certeza o senhor sabe,  Khan, que nosso
pas  muito antigo e famoso.
O velho Mustafa, dono da casa em Chucha onde eu alugara um quarto, calou-se com dignidade,
bebeu um copinho da aguardente de frutas de Karabagh, cortou um pedao daquele queijo estranho
feito de vrios fios entrelaados como uma trana de mulher, e continuou a tagarelar:
 Em nossas montanhas vivem os Karanlik, espritos da escurido que guardam enormes tesouros.
Todos sabem disso. Nos bosques, porm, h pedras sagradas e riachos sagrados. Aqui, temos de
tudo. V passear pela cidade e veja se algum trabalha... Quase ningum! Veja se algum est
triste... Ningum! Ou se algum est sbrio... Ningum! Ficar espantado, senhor!!
Espantava-me, com efeito, a facilidade com que aquele povo mentia. No deixavam de inventar
nenhuma hist-
ria para cantar as glrias de seu pequeno pas. No dia anterior, por exemplo, um armnio gordo
tentara me convencer de que a Igreja Maras, uma das igrejas crists de Chucha, tem cinco mil anos
de idade.
 O senhor no deve mentir assim  eu lhe disse ; o prprio cristianismo no tem dois mil
anos. Uma igreja crist no pode ter sido construda antes do cristianismo.
O gordo ficou muito ofendido e disse, em tom de acusao:
 Claro, o senhor  um homem instrudo. Mas deixe que um velho lhe diga: para outros povos,
pode ser que o cristianismo tenha dois mil anos. Mas para ns, povo de Karabagh, o Salvador
mostrou Sua luz trs mil anos antes. E tenho dito.
Cinco minutos mais tarde, o mesmo homem contoume, sereno, que o marechal francs Murat era
um armnio de Chucha. Quando criana, teria viajado para a Frana, para tambm ali engrandecer a
fama de Karabagh.
J na viagem para Chucha, o cocheiro dissera, quando atravessvamos uma pequena ponte de
pedra:
 Esta ponte foi construda por Alexandre, o Grande, a caminho de suas faanhas imortais na
Prsia.
No parapeito baixo, fora talhado em nmeros bem grandes o ano 1897. Mostrei-o ao cocheiro,
mas este meneou a cabea, contrariado:
 Ah, senhor, os russos puseram esse nmero depois, para diminuir nossa glria.
Chucha era uma cidade singular. A cinco mil metros de altura, habitada por armnios e
muulmanos, ela servia h sculos como ponte entre o Cucaso, a Prsia e a Turquia. Era uma bela
cidade, cercada por montanhas, bosques e rios. Nas montanhas e nos vales ao redor, erguiam-se
pequenas cabanas de barro que, com atrevimento infantil, o povo chamava de palcios. Ali viviam
os nobres da regio,
 armnios Meliks e Nacharars e os muulmanos Begs e
Ali e Nino   ((L/ .
Agalars. Por horas e horas, aqueles homens se sentavam nos umbrais de suas casas, fumavam seus
cachimbos e contavam uns para os outros quantas vezes a Rssia e o czar tinham sido salvos pelos
generais de Karabagh, e o que seria do grande imprio se Karabagh no existisse.
Depois de saltar na pequena estao de trem, seguimos numa carroa pelo caminho ngreme e
sinuoso at Chucha  ns dois, eu e meu kotchi. Por profisso, os kotchis so criados que portam
armas. Por inclinao, mais parecem bandidos. Eles vigiam as casas e as pessoas dentro delas. Tm
rostos marciais e andam armados at os dentes, envoltos num silncio sombrio. Talvez esse silncio
oculte as lembranas de pilhagens hericas, talvez no oculte coisa alguma. Meu pai decidira que o
kotchi iria comigo, para proteger-me dos estranhos ou proteg-los de mim. Eu no sabia ao certo.
Meu kotchi era um bom homem, tinha um parentesco qualquer com a casa Chirvanchir e era de
confiana como, no Oriente, s os parentes costumam ser.
Eu j estava em Chucha havia cinco dias, esperando pela chegada de Nino. O dia inteiro, o povo da
cidade vinha contar-me que todos os homens ricos, corajosos ou notveis do mundo tinham nascido
em Chucha. Tambm visitei o parque municipal e contei as cpulas das igrejas e os minaretes.
Aparentemente, Chucha era uma cidade muito devota. Dezessete igrejas e dez mesquitas eram mais
do que suficientes para os seus sessenta mil habitantes. Havia ainda vrios santurios nos arredores
da cidade, e sobretudo, naturalmente, o famoso tmulo do santo Sari Beg, com a capela e as duas
rvores ao redor, para onde aqueles fanfarres de Karabagh me arrastaram logo no primeiro dia.
O tmulo do santo fica a uma hora de Chucha. Uma vez por ano, a cidade inteira segue at l em
peregrinao, e todos tomam parte em banquetes no bosque sagrado. Os mais devotos fazem o
caminho de joelhos. Algo bastante incmodo, mas que aumenta muito a considerao pelo
40 (jv_/ KHIWI Said
peregrino. As arvores ao redor do tmulo do santo no podem ser tocadas. Quem toca numa s
folha daquelas arvores fica aleijado na hora To grande e o poder do santo San Beg Ningum sabia
explicar-me que milagres ele tinha realizado. Em compensao, contaram-me, nos mnimos
detalhes, aquele episdio em que o santo, perseguido por inimigos, cavalgou montanha acima at
chegar ao topo, onde hoje se ergue a cidade de Chucha Seus perseguidores estavam bem perto
Ento, o cavalo do santo tomou um impulso gigantesco e saltou por sobre a montanha, os
penhascos e a cidade de Chucha. Ah onde o cavalo pousou, o devoto pode ver ainda, impressa na
pedra, a marca funda dos cascos do nobre animal. Pelo menos, era o que as pessoas diziam Quando
arrisquei algumas conjeturas sobre a possibilidade daquele salto, responderam, indignados
 Mas senhor, era um cavalo de Karabagh1 Ento contaram-me a lenda do cavalo de Karabagh
Tudo em nosso pais e bonito, disseram-me. Porem, mais bonito e o cavalo de Karabagh, o
famoso cavalo pelo qual o x da Prsia Ag Mohammed ofereceu todo o seu harem. (Por acaso
meus amigos sabiam que Ag Mohammed foi um eunuco?) Este cavalo e quase sagrado. Ao longo
de sculos, os sbios ponderaram e acasalaram, at que nasceu esta maravilha da raa: o melhor
cavalo do mundo, o famoso e nobre animal de cor vermelho-dourada 
Toda aquela louvao me deixou curioso, e por isso pedi que mostrassem um daqueles animais
magnficos. Meus companheiros me disseram, com um olhar desolado.
 E mais fcil penetrar no harem do sulto do que na cocheira do cavalo de Karabagh  Em toda
Karabagh haver no mximo doze cavalos rubro-dourados autnticos. Basta olhar para eles para ser
considerado ladro de cavalos. S quando o pais esta em guerra e que o dono cavalga essa
maravilha que e um rubro-dourado.
Ai  Nino
41
Portanto, dei-me por feliz com o que me contaram sobre o cavalo lendrio. Voltei para Chucha. E
ali estava sentado agora, ouvindo o falatrio do velho Mustafa, esperando por Nino e sentindo-me
bem naquele Pais das Maravilhas.
 O Khan  disse Mustafa , seus antepassados fizeram a guerra, mas o senhor e um homem
instrudo, que frequentou a Casa do Saber. Com certeza ouviu falar nas belas-artes. Os persas se
orgulham de Saadi, Hafiz e Firdausi, os russos se orgulham de Puchkin, e Ia longe, no Ocidente,
houve um poeta chamado Goethe, que escreveu um poema sobre o Diabo
 Ser que todos esses poetas tambm nasceram em Karabagh?  perguntei, interrompendo-o
 Isso no, nobre hospede, mas nossos poetas so melhores, embora se recusem a aprisionar os
sons em letras mortas. Com seu orgulho, eles no anotam os poemas no papel, apenas os declamam.
 De que poetas esta falando? Os achuks
 Sim, os achuks  disse o velho com gravidade  Eles vivem nas aldeias perto de Chucha e
amanh se reuniro para um desafio. Quer ir at Ia para admira-los?
Concordei. No dia seguinte, nossa carroa desceu pela estrada sinuosa at a aldeia de Tach-Kenda,
capital da arte potica do Caucaso
Em quase todas as aldeias de Karabagh vivem cantores nativos que compem poemas ao longo do
inverno. Na primavera eles saem pelo mundo, cantando suas canes em cabanas e palcios Porem,
ha trs aldeias habitadas unicamente por poetas Como prova da grande considerao que o Oriente
tem pela poesia, ha sculos essas aldeias so dispensadas de todos os dzimos e impostos pagos aos
nobres locais Tach-Kenda e uma delas.
Logo a nossa chegada, percebi que os habitantes da aldeia no eram camponeses comuns Os
homens usavam
42
KutbciH Said
cabelos compridos e trajes de seda. Seu olhar era desconfiado. Acabrunhadas, as mulheres seguiam
atrs de seus maridos, carregando os instrumentos. A aldeia estava lotada de armnios e
muulmanos ricos, que acorriam de toda a regio para admirar os achuks. Na pequena praa central
da aldeia de poetas, reuniu-se a multido curiosa. No meio, viam-se os dois prncipes da poesia, que
iam defrontar-se num desafio potico sem trgua. Eles se olhavam com desdm. Os cabelos longos
flutuavam ao vento. O primeiro achuk exclamou:
 Tuas roupas tm cheiro de esterco, tens a cara de um porco, teu talento  escasso como os plos
na barriga de uma virgem, e por algumas moedas compes um poema de escrnio a respeito de ti
mesmo.
O outro respondeu com ganidos irritados:
 Usas o traje de um afeminado e tens a voz de um eunuco. No consegues vender teu talento,
pois nunca tiveste nenhum. Vives das migalhas que caem da mesa festiva de meu gnio.
E assim eles se insultaram por um bom tempo, com emoo e de maneira um pouco montona. O
povo aplaudia. Ento, um ancio grisalho com rosto de apstolo apareceu e anunciou dois temas
para o desafio, um tema lrico e outro pico: A lua sobre o rio Araxes e A morte do x Ag
Mohammed.
Os dois poetas olharam para o cu. Ento comearam a cantar. Narraram a histria do terrvel
eunuco Ag Mohammed, que viajou para Tbilisi a fim de recuperar sua virilidade nas fontes de
enxofre daquela cidade. Porm as fontes no o curaram. O eunuco destruiu a cidade e mandou
enforcar cruelmente todos os homens e mulheres. No caminho de volta para Karabagh, o destino o
puniu. Ao pernoitar em Chucha, foi apunhalado em sua tenda. O grande x nunca tivera muita sorte
na vida. Ele passara fome nas campanhas de guerra. Comia po preto e bebia leite azedo. Con-
Ali e Nino
43
quistara muitos pases, mas era mais pobre do que um mendigo do deserto. O eunuco Ag
Mohammed.
Tudo isso foi declamado em estrofes clssicas. Um dos poetas descreveu os sofrimentos do eunuco
num pas de belas mulheres, o outro narrou com todos os detalhes o enforcamento dessas mulheres.
Os ouvintes estavam satisfeitos. O suor pingava da testa dos poetas. Ento, o mais afvel dos dois
exclamou:
 Com que se parece a lua sobre o rio Araxes?
 Com o rosto de tua amada  interrompeu o zangado.
 Suave  o ouro dessa lua  exclamou o afvel.
 No,  como o escudo de um grande guerreiro cado  respondeu o zangado.
E assim, aos poucos, esgotaram seu estoque de comparaes. Depois, cada um deles entoou uma
cano sobre a beleza da lua, sobre o rio Araxes, que se estende na plancie como a trana de uma
moa, e sobre os apaixonados, que seguem at as margens e olham a lua espelhada nas guas do
Araxes...
O zangado foi declarado vencedor do desafio. Como prmio, recebeu com um sorriso maldoso o
alade do adversrio. Fui falar com ele. Seu olhar era turvo. Enquanto isso, seu pratinho de lato se
enchia de moedas.
 Ento, est contente com a vitria? Ele cuspiu com desprezo.
 No foi uma vitria, senhor. Antigamente havia vitrias. H cem anos. Naquele tempo, o
vencedor podia cortar a cabea do vencido. Era grande o respeito pela arte. Hoje em dia somos
mais fracos. Ningum d o sangue por uma poesia.
 O senhor  o maior poeta da regio.
 No  disse ele. Seus olhos ficaram muito tristes.  No  repetiu , sou apenas um arteso.
No sou um verdadeiro achuk.
44
Kutfan Sciid
 E o que  um verdadeiro achuk.
 No ms do ramad  disse o zangado , h uma noite misteriosa, chamada Noite de Kadir.
Nessa noite a natureza adormece por uma hora. Os rios param de correr e os maus espritos deixam
de vigiar os tesouros. Pode-se ouvir a grama crescer e as rvores falarem. As ninfas saem de dentro
dos rios, e crianas geradas na Noite de Kadir se tornam sbios e poetas. Na Noite de Kadir, o
achuk tem de invocar o profeta Elias, que  o santo protetor de todos os poetas. No momento certo,
o profeta surge, estende uma taa ao poeta para matar sua sede e diz: A partir de agora s um
verdadeiro achuk, e vers tudo no mundo com meus olhos. Aquele que recebe essa bno reina
sobre os elementos, os animais e as pessoas. Sua voz comanda os ventos e os mares, pois em sua
palavra est a fora do Altssimo.
O zangado sentou-se no cho e apoiou o rosto nas mos. Ento, choramingou com raiva e depressa:
 Mas ningum sabe qual  a Noite de Kadir, e que hora dessa noite  a Hora do Sono. Por isso
no h verdadeiros achuks.
Levantou-se e foi embora dali. Solitrio, sombrio, retrado. Um lobo das estepes no paraso verde
de Karabagh.
Captuo 6
PERTO LM foisih DF PECHAPLR, as rvores voltavam-se para o cu como santos cansados. A
fonte murmurava em seu estreito leito de pedra. Pequenas colinas tapavam a vista para Chucha. A
oeste, os campos de Karabagh iam perder-se nas estepes poeirentas do Azerbaijo. Dali para a
frente, soprava o hlito esbraseado do grande deserto, o fogo de Zaratustra. Como a terra dos
pastores da Bblia, as plancies armnias estendiam-se ao sul com suas promessas. A mata ao nosso
redor permanecia quieta e imvel. Era como se os ltimos deuses da Antigidade houvessem
acabado de deix-la. A eles ainda podia ter sido consagrado o fogo aceso diante de ns. Estvamos
reunidos sobre esteiras de cores berrantes ao redor das chamas, eu e um grupo de georgianos que
bebiam copiosamente. Clices de vinho, frutas, pilhas de legumes e queijos estavam dispostos em
volta da fogueira. A carne era assada em espetos. Perto da fonte estavam sentados os sasandans,
um conjunto de msicos ambulantes. Em suas mos viam-se instrumentos cujos nomes eram
musica por si mesmos: datrah, tchmnun, tara, diplipito. Agora eles cantavam um dos bamts,
canes de amor em ritmo persa que os georgianos das grandes cidades quiseram ouvir para realar
o encanto do ambiente extico. Essa disposio para adaptar-se aos costumes do pais, nosso
professor de latim a ch-
46
Kni(nn Saui
maria de humor dionisaco. A famlia Kipiani, que finalmente chegara, tinha convidado aqueles
hspedes joviais para a festa noturna no bosque perto de Chucha.
Diante de mim estava sentado o tamada, que conduzia os festejos segundo as regras estritas do
cerimonial da regio. Tinha olhos brilhantes e um bigode farto e negro no rosto corado. Ele
segurava um clice e dirigiu-me um brinde. Provei a bebida em meu copo, embora nunca beba. Mas
o tamada era pai de Nino, e seria grosseiro recusar a bebida quando o tamada assim o exige.
Os criados trouxeram gua da fonte. Quem bebia dela podia comer a vontade sem empanzinar-se,
pois a gua de Pechapur tambm est entre as incontveis maravilhas de Karabagh.
Bebemos a gua, e a pilha de alimentos foi ficando menor. Eu admirava o perfil da me de Nino,
severo e iluminado pelas chamas bruxuleantes. Ela estava sentada ao lado do marido e seus olhos
sorriam. Aqueles olhos provinham da Mingrlia, na plancie do Rion, onde outrora a feiticeira
Media conhecera o argonauta Jaso. O tamada ergueu o clice:  Um brinde ao Serenssimo
Dadiani! Com expresso infantil no olhar, um ancio agradeceu. Assim comeava a terceira rodada.
Esvaziaram-se os copos. A legendria gua de Pechapur tambm surtia efeito. Ningum se
embriagava, pois  o enlevo do corao o que anima os georgianos nos banquetes. A cabea
continua fria como a gua de Pechapur.
A luz de inmeras fogueiras clareava o bosque. Outras pessoas ali gostavam de beber. Toda a
cidade de Chucha peregrinava at as fontes uma vez por semana. As festas continuavam at os
albores da manh. Cristos e muulmanos festejavam juntos  sombra pag do bosque sagrado.
Eu encarava Nino, que estava sentada diante de mim. Ela olhava para o lado. Conversava com o
grisalho Dadiani.
Ali e Xnio
4/
Era assim que convinha. Considerao pelos mais velhos. E amor para os mais jovens.
 A senhorita tem de visitar-me em meu castelo de Zugdidi  disse o ancio , s margens do
Rion, onde escravos outrora envolveram o ouro de Media em peles de carneiro. Venha tambm,
Ali Khan. Ir conhecer a floresta tropical da Mingrlia, com suas rvores antiqussimas.
 Vou de bom grado, Serenssimo. Mas por sua causa, no pelas rvores.
 O que tem contra as rvores? Para mim so a encarnao de uma vida perfeita.
 Ali Khan teme as rvores como uma criana teme os fantasmas.
 Nada grave. Mas o que as rvores so para o senhor, para mim  o deserto.
Dadiani piscou com os olhos infantis:
 O deserto  disse ele , arbustos plidos e areia quente.
 O mundo das rvores me apavora, Serenssimo.  cheio de sustos e enigmas, cheio de espectros
e demnios. O olhar se tolda. No h luz. Os raios de sol se perdem  sombra das rvores. Tudo 
irreal na penumbra. No, no gosto de rvores. As sombras do bosque me oprimem e fico triste
quando ouo o farfalhar dos ramos. Gosto das coisas simples: vento, areia, pedra. O deserto  como
o golpe de uma espada. O bosque nos confunde como um n grdio. No me sinto bem na floresta,
Serenssimo.
Dadiani se voltou para mim, pensativo:
 O senhor tem a alma de um homem do deserto  disse ele.  Talvez s haja uma maneira de
definir os homens: h os da floresta e os do deserto. A embriaguez sem lcool do Oriente vem do
deserto, onde o vento quente e a areia quente excitam as pessoas, onde a vida  simples e sem
problemas. A floresta  cheia de perguntas. J o deserto no pergunta nada, nada oferece e nada
promete. Mas o
48  (jL./ Kurfian Said
fogo da alma vem da floresta. O homem do deserto (vejo isso agora) s tem um sentimento e s
conhece uma verdade que o preencha. Mas o homem da floresta tem muitas faces. O fantico
provm do deserto, o criador provm da floresta. E talvez seja essa a principal diferena entre
Oriente e Ocidente.
 Por isso amamos a floresta, ns, os armnios e os georgianos  intrometeu-se Melik
Nachararian, um homem gordo da mais nobre estirpe armnia. Tinha olhos saltados e sobrancelhas
fartas, e uma queda pela filosofia e pela bebedeira. Ns nos dvamos bem. Ele ergueu o copo para
mim e saudou:
 Ali Khan! As guias vm da montanha e os tigres, da floresta. O que  que vem do deserto?
 Lees e guerreiros  respondi, e Nino ps-se a batr palmas, divertida.
Espetos de carneiro assado foram servidos. Os copos eram enchidos sempre de novo. A alegria de
viver da Gergia espraiava-se pelo bosque. Dadiani discutia com Nachararian e Nino olhava para
mim com malcia, indagadora.
Eu abanei a cabea. J escurecera.  luz do fogo, os outros convivas pareciam fantasmas ou
bandidos. Ningum nos observava. Levantei-me e caminhei lentamente at a fonte. Inclinei-me
sobre a gua e bebi aparando com as mos. Aquilo me fez bem. Admirei longamente as estrelas
espelhadas na superfcie da gua. Ouvi passos atrs de mim. Um galho seco estalou sob um
pequeno p... Estendi a mo e Nino segurou-a. Continuamos bosque adentro. As rvores nos
encaravam com uma ameaa ou uma reprovao. No era muito conveniente afastar-se do fogo, e
Nino sentava-se agora  beira do pequeno prado, atraindo-me para perto dela. Na Karabagh cheia
de alegria de viver, os costumes eram rgidos. O velho Mustafa contara-me com terror que um
adultrio acontecera naquela regio havia dezoito anos. Desde ento, a colheita de frutas
escasseara.
Ali e Nino
49
Ns nos encaramos, e o rosto de Nino era plido e misterioso  luz da lua.
 Princesa  disse eu, e Nino olhou-me de lado. Vinte e quatro horas antes, ela se tornara
princesa. O pai dela tivera de esperar vinte e quatro anos para fazer valer seu direito ao ttulo em
Petersburgo. Naquela manh chegara de l um telegrama. O velho se alegrara como uma criana ao
rever a prpria me, e nos convidara a todos para o banquete.
 Princesa  repeti, tomando o seu rosto entre as mos. Ela no se ops. Talvez tivesse abusado
do vinho. Talvez o bosque e a lua a deixassem tonta. Eu a beijei. As palmas das mos eram macias
e quentes. O corpo cedeu. Os ramos secos das rvores estalaram. Estvamos deitados sobre o
musgo macio, e Nino fitava meu rosto. Toquei nas pequenas curvas do busto firme e aspirei o odor
e o gosto levemente salgado da pele. Algo de estranho se passava com Nino, e essa estranheza se
apoderava de mim. O ser dela era um nico sentido, que era como a fora indomvel do solo e o
sopro da terra. As delcias da vida carnal a penetravam. Seus olhos estavam velados. O rosto ficou
estreito e muito srio. Abri seu vestido. A pele rebrilhava ao luar, plida como uma opala. Eu ouvia
seu corao batr, e ela dizia palavras cheias de carinho sensual e saudade. Meu rosto se afundou
entre aqueles seios pequenos. Os joelhos dela tremiam. Lgrimas escorriamlhe pelo rosto, e eu as
beijava para secar a face molhada. Ela se ergueu em silncio, perturbada com as prprias dvidas e
sentimentos. A minha Nino tinha apenas dezessete anos e freqentava o Colgio da Rainha Santa
Tamar. Ento, ela disse:
 Acho que amo voc, Ali Khan, mesmo sendo uma princesa agora.
 Talvez venha a ser princesa por pouco tempo...  disse eu, e Nino fez uma expresso de
espanto.
 Como assim? O czar nos recusar o ttulo?
 Voc vai perd-lo ao se casar. Mas Khan tambm  um belo ttulo.
50
Nino cruzou as mos por trs da nuca, deixou pender a cabea e riu:
 Khan, pode ser... mas o feminino, Khanin? No tem cabimento. E, alis,  um pouco estranha
essa maneira de pedir as pessoas em casamento... se  que  essa a sua inteno.
 Essa  a minha inteno.
Os dedos de Nino deslizaram em meu rosto, indo perder-se nos cabelos.
 Se eu disser sim, voc guardar o bosque perto de Chucha em boa lembrana e far as pazes
com as rvores, no  mesmo?
 Assim creio.
 Mas na viagem de npcias iremos visitar seu tio em Teer, e sob proteo especial poderei
frequentar o harm imperial, tomar ch com muitas mulheres gordas e praticar a conversao.
 Sim, e da?
 E poderei olhar para o deserto, pois l no existe ningum para olhar-me de volta.
 No, Nino, voc no deve olhar para o deserto. No vai gostar dele.
Nino envolveu meu pescoo com as mos e apoiou o nariz em minha testa:
 Talvez eu me case com voc, Ali Khan. Mas j refletiu sobre tudo o que teremos de enfrentar,
alm de bosque e deserto?
 O qu, por exemplo?
 Primeiro, meu pai e minha me morrero de desgosto porque vou me casar com um muulmano.
Ento, seu pai vai amaldioar voc e exigir minha converso ao islamismo. E, se eu fizer isso, serei
banida para a Sibria pelo santo czar, por ter renegado a f crist. E voc tambm, por ter me
levado a isso.
 Ento iremos parar num bloco de gelo sobre o mar do Norte e os grandes ursos-brancos nos
devoraro  disse Ali e Nino
51
eu, rindo.  No, Nino, nada ser como voc est dizendo. No precisa converter-se ao islamismo,
seus pais no morrero de desgosto, e faremos a viagem de npcias para Paris e Berlim. Voc
poder olhar para as rvores do Bois de Boulogne e do zoolgico. Ento, o que me diz?
 Bondade sua  disse ela, surpresa.  Minha resposta no  um no, mas o sim ter de
esperar. Porm, no me esconderei. Quando eu terminar a escola, falaremos com nossos pais. Voc
s no deve  raptar-me. Isso, nunca. Eu sei como costumam fazer: montam na sela, disparam para
as montanhas, e depois haver um conflito de sangue com a famlia Kipiani.
De repente, ela parecia presa de uma alegria incontrolvel. Tudo nela parecia rir: o rosto, as mos,
os ps, a pele. Encostou-se num tronco de rvore com a cabea baixa, fitando-me. Eu estava de p
diante dela.  sombra da rvore ela parecia um animal extico, escondido no bosque com medo do
caador.
 Vamos embora  disse Nino, e pusemo-nos a caminhar pelo bosque at a grande fogueira. No
caminho, um pensamento lhe ocorreu. Ela se deteve e piscou, fitando a lua:
 Mas nossos filhos, que f havero de ter?
 Uma f muito boa e simptica, no se preocupe  disse eu, esquivando-me.
Olhando-me com desconfiana, ela se calou por uns minutos. Ento disse, aflita:
 E no sou velha demais para voc? Eu vou fazer dezessete anos agora. Sua futura esposa deveria
ter doze.
Eu a tranqilizei. No, com certeza ela no era velha demais para mim. No mximo seria
inteligente demais, pois ningum garante que inteligncia  sempre uma vantagem. No Oriente,
todos so maduros e inteligentes antes do tempo. Ou, talvez, estpidos e simplrios sem exceo.
Eu no tinha certeza. As arvores me confundiam, Nino me confun-
52
Kur&an Said
dia, e sobretudo havia confuso em mim mesmo, pois tambm bebericara muito vinho e, como um
salteador do deserto, procurara abrigo no tranqilo jardim do amor.
Nino, porm, no parecia vtima de um salteador do deserto. Olhava diante de si de modo sereno,
confiante e aberto. Todas as lgrimas, os risos e a nostalgia terna j no deixavam traos nela
quando alcanamos de novo a fonte de Pechapur. Ningum se inquietara com nosso
desaparecimento. Sentei-me perto do fogo e de repente senti os lbios em brasa. Enchi meu copo
com a gua de Pechapur e bebi apressadamente. Quando baixei o copo, defrontei-me com os
olhares de Melik Nachararian, que me encarava com expresso amigvel, atnta e ligeiramente
protetora.
Captufo 7
No ALPENDRE DA PEQUENA CASA, eu estava estirado num div e sonhava com o amor.
Aquele amor era muito diferente do que deveria ser. Diferente desde o incio. Eu no conhecera
Nino tirando gua  beira do poo, e sim na rua Nikolai, a caminho da escola. Por esse motivo o
nosso amor se tornara algo muito distinto do amor de meu pai, meu av ou meu tio.  beira do
poo tem incio o amor dos orientais: o poo da aldeia, pequeno com seus murmrios sossegados,
ou a fonte da cidade, que  grande e canta ao abastecer muita gente. Ao cair da tarde, as moas
seguem para l com pcaros altos de barro nos ombros, e os rapazes ficam sentados em crculo, no
muito longe, sem atntar absolutamente para as moas que passam. Eles conversam
interminavelmente sobre guerras e pilhagens. Devagar as moas enchem os pcaros, e devagar
voltam para casa. Um dos pcaros  pesado. Est cheio de gua at a borda. Para no tropear, as
moas levantam os vus para trs e baixam o olhar com decoro.
Ao cair da tarde, as moas seguem para o poo. Ao cair da tarde, os rapazes se sentam do outro
lado da praa, e assim tem incio o amor no Oriente.
De maneira absolutamente casual, uma moa dirige o olhar na direo dos rapazes. Eles no se do
conta disso.
54
Kman Said
Quando ela retorna, um deles se volta e ergue os olhos para o cu. As vezes, nesse movimento seu
olhar cruza com o da moa. Mas as vezes isso no acontece; ento, no dia seguinte, outro rapaz
estar sentado em seu lugar. Porem, quando os olhares de duas pessoas se cruzaram varias vezes a
beira do poo, todos sabem que nasceu um amor
Tudo o mais acontece por si mesmo O noivo se muda para perto da cidade e se mete a cantar
baladas, seus parentes negociam o dote da noiva, sbios fazem clculos sobre os novos guerreiros
que o jovem par ha de gerar. Tudo e simples, todo acontecimento e decidido e ajustado de antemo
E como se passa tudo isso comigo? Onde esta meu poo? Onde o vu no rosto de Nmo? E estranho
A mulher por trs do vu no pode ser vista Mas todos a conhecemseus hbitos, seus pensamentos,
seus desejos O vu oculta os olhos, o nariz, a boca. Mas no oculta a alma A alma de uma oriental
no abriga mistrios. J uma mulher que no usa vu e outra coisa Podem-se ver os olhos, o nariz, a
boca, as vezes muito mais que isso. Mas ningum sabe quem se oculta por trs daqueles olhos
Eu amo Nino, mas esse amor me desconcerta. Ela se alegra quando outros homens se voltam na rua
e olham para ela Uma boa orientai ficaria indignada. Ela me beija. Deixame apalpar seus seios e
acariciar suas coxas. No entanto, sequer somos noivos. Ela l livros nos quais se trata das coisas do
amor, e seus olhos ficam sonhadores e nostlgicos. Se pergunto qual o motivo desse devaneio,
aparentemente ela prpria no sabe, pois abana a cabea com espanto Nunca sinto saudades de
outra pessoa alem dela Quando Nino esta comigo, absolutamente nada me faz falta. Acho que a
razo de tudo isso e que Nino j esteve varias vezes na Rssia O pai dela costumava leva-la para
Petersburgo, e todos concordam em que as mulheres russas so malucas Todas tm os mesmos
olhos sonhadores, costumam trair os mandos, e no entanto raras vezes geram mais de dois filhos E
a punio de Deus
Ali i Nino
55
Porem, eu amo Nino. Seus olhos, sua voz, sua risada, seu jeito de falar e pensar. Vou casar-me com
ela e ela se tornara boa esposa como todas as georgianas, por mais que se mostrem alegres, folgazs
ou sonhadoras. Ala seja louvado.
Virei-me para o outro lado. Aquelas reflexes me fatigavam. Dava muito mais prazer fechar os
olhos e sonhar com o futuro, ou seja. com Nino. Pois o futuro ha de ser nosso casamento, o futuro
tem inicio no dia em que Nino se tornar minha esposa, o nosso dia de npcias.
Ser um dia cheio de excitao Nesse dia no poderei v-la. Pois nada e mais prejudicial para a
noite de npcias do que os noivos se olharem ao longo do dia Meus amigos iro busca-la, armados
e a cavalo Ela estar envolta em vus pesados. Ao menos nesse dia ela ter de ostentar os trajes
orientais. O imame pronunciara as perguntas e meus amigos estaro postados nos quatro cantos da
sala, sussurrando rezas para esconjurar a impotncia. E esse o costume. Todo homem tem inimigos
que no dia de npcias soerguem o punhal a meio da bainha, voltam-se para o oeste e murmuram:
 Anisam, bamsam, mamaverh, kamam, ele no consegue, no consegue, no consegue.
Mas graas a Deus tenho bons amigos, e lhas Beg sabe de cor todas as formulas de esconjuro.
Imediatamente aps a cerimnia, nos nos separamos. Nino vai ter com suas amigas, e eu com meus
amigos. Ambos celebramos em separado o adeus a juventude.
Mas e depois? Sim, e depois?
Por um instante abro os olhos, vejo o alpendre de madeira e as arvores no jardim e volto a fecha-los
para enxergar melhor o que sucede depois. O dia de npcias e o mais importante, talvez mesmo o
nico dia importante da vida, e alem disso um dia muito difcil.
Na noite de npcias e difcil chegar at os aposentos da noiva. Vultos mascarados se interpem
diante de cada
Kutfan Sait
porta do longo corredor, s permitindo a passagem quando uma moeda lhes escorrega nas mos.
Amigos bem-intencionados escondero um galo, um gato ou algo assim inesperado nos aposentos
da noiva. Terei de espiar com atno por toda parte Pois, as vezes, ouvem-se na cama as nsadmhas
de uma velha, que tambm exige dinheiro para desocupar o leito de npcias .
Por fim, vejo-me s. A porta se abre e Nino entra no quarto. Agora comea a parte mais difcil da
cerimonia de npcias. Nino sorri e olha para mim em expectativa: um espartilho de marroquim
oprime seu corpo. O espartilho e atado com laos que na parte da frente terminam em nos. Estes
so os mais complicados possveis, e e essa sua nica razo de ser. Tenho de desata-los sozinho.
Nino no pode me ajudar na tarefa. Ou ser que pode? Pois os nos so de fato complicados ao
extremo, e seria uma grande ignomnia simplesmente corta-los com a faca Um homem tem de
provar seu sangue-frio, pois na manh seguinte acorrem os amigos querendo ver os nos desatados.
Pobre do infeliz que no puder mostra-los Toda a cidade zombara dele
A casa parece um formigueiro na noite de npcias. Amigos, parentes dos amigos e amigos dos
parentes dos amigos se acotovelam nos corredores, no telhado e at na rua Eles esperam e mostram-
se impacientes quando a demora e grande. Batm a porta, miam e ladram at ouvir-se o disparo de
um revolver, longamente esperado. Imediatamente, os amigos se pem a atirar para o alto com
estardalhao, correm para fora e formam uma espcie de guarda de honra, que a seu bel-prazer
decidira o momento em que eu e Nino poderemos sair
Sim, ha de ser uma bela cerimonia de npcias, conforme os velhos e bons costumes ensinados por
nossos pais
Acho que adormeci no diva, pois ao abrir os olhos vi meu kotchi acocorado no cho, limpando as
unhas com o longo punhal. No o tinha omido chegar
A/i e Nino
57
 O que ha de novo, rapaz?  perguntei com um bocejo de preguia.
 Nada em especial, patrozinho  respondeu ele com voz entediada ; na casa do vizinho duas
mulheres brigaram e um jumento se espantou, correu para o riacho e continua deitado Ia.
O kotchi calou-se por um instante, voltou a enfiar o punhal na bainha e prosseguiu com razovel
indiferena:
 O czar declarou guerra contra vrios monarcas europeus.
 O qu? De que guerra esta falando? Levantei-me de um salto e encarei-o, transtornado.
 Uma guerra qualquer.
 Mas do que esta falando? Guerra contra quem?
 Contra vrios monarcas europeus. No guardei os nomes. Eram muitos. Mas Mustafa tomou
nota de tudo.
 Pois ento v chama-lo!
O kotchi meneou a cabea diante de tanta curiosidade indecorosa, desapareceu por trs da porta e
retornou em breve, em companhia do dono da casa.
Mustafa deu um sorriso satisfeito, consciente de sua superioridade e radiante por estar a par de
tudo. E claro que o czar declarara guerra. Toda a cidade j sabia disso. S eu, deitado na varanda,
no sabia. Porem, os motivos da declarao de guerra no eram assim to bem conhecidos. Em sua
sabedoria, o czar assim decidira.
 Mas guerra contra quem?  gritei, contrariado. Mustafa levou a mo ao bolso e retirou um
pedao de
papel onde havia rabiscado algo. Pigarreou e leu com dignidade, mas a muito custo:
 Contra o imperador alemo e o csar austraco, contra o rei da Baviera, o rei da Prssia, o rei da
Saxnia, o rei de Wurttemberg, o rei da Hungria e varias outras realezas
 Como eu lhe disse, patrozinho, no e fcil lembrar tudo isso  disse o kotchi, com modstia.
KM (mi Said
Entrementes, Mustafa dobrou seu papel e disse:  Por outro lado, Sua Majestade Imperial Memed
Rachid, califa e sulto do Supremo Imprio Otomano, assim como Sua Majestade Imperial o sulto
e x Ahmed, Rei dos Reis do Ir, declaram que se recusam de antemo a tomar parte na guerra E
portanto uma guerra entre mpios, que no nos diz respeito. O imame da mesquita Mehmed Ah
acredita que os alemes vencero
Mustafa no pde terminar. Vindo da cidade, o estrondo de dezessete sinos tomou conta de tudo
Corri para fora. Um esbraseado cu de agosto se arqueava por sobre a cidade, ameaador e inerte
Ao longe, montanhas azuis pareciam testemunhas impassveis. O som dos sinos ia espatifar-se
contra os penhascos cinzentos As ruas estavam cheias de gente. Acalorados de excitao, os rostos
se voltavam para as cpulas dos templos. O p rodopiava no ar Todos estavam roucos Os muros
das mesquitas nos fitavam com os olhos da eternidade, mudos e rodos pelo tempo Suas torres se
projetavam diante de nos como ameaas veladas Calou-se o estrondo dos sinos Um imame gordo,
em trajes flutuantes e coloridos, subiu no minarete da mesquita ao lado, levou as mos em funil at
a boca, e gritou com altivez e melancolia.
 Levantem-se para a prece, levantem-se para a prece, orar e melhor que dormir
Corri para a estrebaria O kotchi selou o cavalo. Montei nele e disparei pelas ruas, indiferente aos
olhares assustados da multido As orelhas do cavalo se empinaram em alegre alvoroo. Cavalguei
at a sada da cidade. Diante de mim serpenteava o longo caminho Continuei a galope diante das
residncias da nobreza de Karabagh, e os nobres simples e rsticos acenavam para mim
 J se vai para a batalha, Ah Khan? Contemplei o vale abaixo  La estava a pequena casa
com seu telhado plano em meio ao lardim  Quando a vi,
A/i t Nino
esqueci todas as regras de equitao. Num galope selvagem, continuei a descer pelas colinas
ngremes. A casa ficava sempre maior, e por trs dela desapareciam as montanhas, o cu, a cidade,
o czar e o mundo inteiro. Afastei-me do caminho e entrei no jardim. Um criado de rosto impassvel
saiu pela porta. Ele me encarou com os olhos de um morto:
 A famlia real partiu ha trs horas.
Num gesto mecnico, minha mo tocou o cabo do punhal.
O criado deu um passo para trs.
 A princesa Nino deixou uma carta para o insigne Ah Khan Chirvanchir.
Ele ps a mo na algibeira. Apeei do cavalo e senteime nos degraus do alpendre. O envelope era
macio, branco e perfumado Rasguei-o, impaciente. Ela escrevera, em letras grandes e infantis:
Querido Ali Khan1 A guerra chegou de repente e temos de voltar para Baku. No pude avisa-lo
No se irrite. Choro porque o amo. O vero j estava no fim. Venha encontrar-me depressa Estou a
sua espera e sinto saudades. Durante a viagem, este ser meu nico pensamento. Papai acha que a
guerra logo vai terminar. Toda essa confuso vai me deixar maluca. Por favor, v ao mercado de
Chucha e compre um tapete. No tive tempo de resolver isso. Procure um estampado, com
cabecinhas de cavalo coloridas. Mando-lhe beijos. Em Baku o calor ainda estar medonho. Da sua
Nino.
Dobrei a carta. Na verdade, tudo estava em ordem. S que eu, Ah Khan Chirvanchir, como um
rapaz estpido, montei na sela, destrambelhado, e cavalguei em direo ao vale, ao invs de agir
como convinha e dirigir-me ao capito da cidade, felicitando-o pela guerra, ou pelo menos rezar
numa das mesquitas de Chucha pedindo a beno de Deus para os exrcitos do czar. Sentado no
degrau do alpendre, eu olhava fixamente diante de mim. Era um tolo O que mais
60
Kiirbtm Saicf
Nino havia de fazer, alm de seguir obediente para casa com papai e mame, exigindo que eu fosse
encontr-la o mais breve possvel?  claro: quando h guerra no pas, a amante tem de ir ao
encontro do amado, e no escrever cartas perfumadas. Mas no era nosso pas que estava em
guerra, era a Rssia, e no tnhamos nada com isso. No entanto, eu me sentia furioso: com o velho
Kipiani, que tivera tanta pressa em voltar para casa, com a guerra, com o Colgio de Santa Tamar,
onde no se ensina bom comportamento s moas, e principalmente com Nino, que simplesmente
se fora, enquanto eu, esquecendo o dever e a dignidade, no me apressara o suficiente para det-la.
Reli a carta mais uma vez, e outra ainda. De repente saquei o punhal, ergui a mo, num relampejar
rpido, e a lmina foi cravar-se na casca da rvore diante de mim com um soluo.
O criado veio at mim, tirou o punhal da rvore, examinou-o com olhar de entendido e devolveu-o
a mim:
 Legtimo ao de Kubatchin, e o senhor tem mo firme  disse ele, um pouco intimidado.
Montei no cavalo. Lentamente, voltei para casa. Na lonjura se erguiam as cpulas da cidade. J no
me sentia irritado. A fria ficara impressa na casca da rvore. Nino agira com toda a razo. Era boa
filha e daria boa esposa. Fiquei com vergonha e cavalguei cabisbaixo. A estrada era poeirenta. O
sol se tingira de rubro e declinava a oeste.
Os relinchos de um cavalo me sobressaltaram. Ergui a cabea e espantei-me. Por um instante,
esqueci Nino e o mundo. Vi diante de mim um cavalo de cabea afilada e pequena, de olhos
altivos, tronco esbelto e pernas de bailarina. Sua pele de tom rubro e dourado rebrilhava aos raios
oblquos do sol. Na sela estava sentado um velho de bigodes cados e nariz torto: o prncipe
Melikov, um proprietrio de terras da regio. Incrdulo e maravilhado, detive-me e examinei o
cavalo. Pois, quando me mudara para Chucha, as pessoas no me haviam contado sobre a famosa
raa de ca-
Ali e Nino
valos do santo Sari Beg?  de um dourado forte, e s h doze deles em toda Karabagh. Eles so
vigiados como mulheres no harm de um sulto. Agora, a maravilha de um rubro-dourado estava
ali, diante de mim.
 Aonde vai, prncipe?
 Para a guerra, meu filho.
  um cavalo e tanto, prncipe!
 Sim, e voc se admira! Pouca gente possui um desses, um rubro-dourado...
Os olhos do prncipe se enterneceram.
 Seu corao pesa seis libras exatas. Quando o corpo do cavalo  banhado, brilha como um anel
de ouro. Este nunca tinha visto a luz do dia. Quando o trouxe para fora hoje cedo, os raios de sol
lhe caram nos olhos e eles cintilaram como uma fonte que acabasse de brotar. Decerto brilharam
assim os olhos do inventor do fogo. Ele descende do cavalo de Sari Beg. Nunca o mostrei a
ningum. Mas, quando o czar chama para a guerra, o prncipe Melikov monta a sua maravilha.
Ele me saudou com orgulho e continuou o caminho. Seu sabre tinia. A guerra realmente chegara ao
pas.
Escurecera quando regressei a casa. A cidade fora tomada pela vertigem e pelo entusiasmo da
guerra. brios e barulhentos, os nobres da regio perambulavam pelas ruas, atirando para o alto:
 O sangue vai correr  gritavam.  O sangue vai correr.  Karabagh,  grande o teu nome!
Um telegrama me esperava: Volte depressa para casa. Seu pai.
 Faa as malas  disse eu ao kotchi.  Amanh partiremos.
Sa para a rua e contemplei o torvelinho em redor. Algo me inquietava, mas eu no sabia o qu.
Levantei o olhar em direo s estrelas e meditei longamente, com esforo.
Cajftuo 8
 DIGA-ME, ALI KHAN, quem so nossos amigos?
Descamos pela estrada ngreme e serpeante de Chucha Meu kotchi, rapaz simplrio da aldeia,
inventava incansavelmente as perguntas mais esquisitas sobre todos os aspectos da guerra e da
poltica Entre nos, a maioria das pessoas s tem trs assuntos de conversa: religio, poltica e
negcios. Uma guerra abrange todos esses temas. Pode-se falar de guerra a vontade e seja onde for
em casa ou no caf, sem nunca esgotar o assunto.
 Nossos amigos, kotchi, so o imperador do Japo, o imperador da ndia, o rei da Inglatrra, o rei
da Servia, o rei da Blgica e o presidente da Republica da Frana.
O kotchi comprimiu os lbios em desaprovao.
 Se o presidente da Republica da Frana e um civil, como pode entrar em campo e lutar?
 No sei. Talvez seja representado por um general
 Mas cada um deve fazer a prpria guerra, e no mandar outros em seu lugar Seno, nada de bom
resultar
Fitou preocupado as costas de nosso cocheiro e disse ento, com ar de entendido:
 O czar tem porte pequeno e e magro. O imperador Giljom, porem, tem ombros largos e e forte.
Ele derrotara o czar j na primeira batalha.
Ali e Nino
O pobre rapaz estava convencido de que, na guerra, os monarcas inimigos cavalgam um de
encontro ao outro, e assim a batalha tem inicio. Intil tentar convence-lo do contrario.
 Quando Giljom tiver derrotado o czar, o czareviche ter de entrar no campo de batalha. Mas ele
e jovem e doente. Giljom, no entanto, tem seis filhos fortes e saudveis.
Eu tentava dissipar seu pessimismo:
 Giljom s consegue lutar com a mo direita; sua mo esquerda e aleijada.
 Ora essa, da esquerda ele s precisa para segurar as rdeas do cavalo. Lutar e com a mo direita.
Franziu a testa, pensativo, e perguntou de sbito:
 E verdade que o imperador Francisco Jos tem cem anos de idade?
 Bem, no sei. Mas ele e bem velho.
 E terrvel  opinou o kotchi  que um homem to velho tenha de por-se a cavalo com uma
espada na mo.
 Mas nada o obriga a isso.
 Claro que sim. Ha sangue entre ele e o kralt. Agora so inimigos de morte, e o csar tem de
exigir vingana pelo sangue de seu herdeiro ao trono. Se fosse um peo de nossa aldeia, podia
negociar uma compensao. Talvez cem vacas e uma casa. Mas um csar no pode perdoar uma
divida de sangue. Caso contrario, todos o fariam, e em breve no haveria mais vingana de morte.
O pais estaria arrumado.
O kotchi tinha razo. Vingana de morte e o principal fundamento da ordem publica e dos bons
costumes, por mais que os europeus se escandalizem com isso. Decerto, so louvveis os velhos e
sbios que propem, com toda a decncia, perdoar o sangue derramado em troca de gorda
recompensa Mas o principio da vingana de morte tem de permanecer. Seno, onde iramos parar?
A humanidade se divide em famlias, no em povos. Entre as famlias rema um equilbrio que foi
decidido por Deus, e que repousa sobre a capa-
64
Kuiean Saiif
cidade de procriao dos homens. Quando esse equilbrio e rompido pela fora bruta, quer dizer,
pelo assassinato, a famlia que atntou contra a vontade de Deus deve pagar na mesma moeda, com
a vida de um de seus filhos. Ento, o equilbrio se restaura. E claro que uma vingana de morte
podia ser complicada, balas podiam perder-se e as vezes se matava mais gente do que o necessrio.
Nesse caso, a vingana de morte continuava. Mas o principio era claro e benigno. Meu kotchi
entendia isso perfeitamente, meneando contente a cabea Sim, o csar de cem anos de idade que se
punha a cavalo para vingar o sangue derramado era um homem justo e prudente
 Ali Khan, se o csar e o krali tm uma rixa de sangue, por que os outros monarcas deveriam se
importar
Era uma pergunta difcil, para a qual eu prprio no tinha resposta.
 Oua  disse eu.  Nosso czar venera o mesmo Deus que o krah servio, por isso Ele o
favorece. O imperador Giljom e outros monarcas inimigos so parentes do csar, acho eu. O rei da
Inglatrra e parente do czar, e assim uma coisa provem da outra.
O kotchi no parecia nem um pouco satisfeito com a resposta. Com certeza, o czar e o imperador do
Japo veneravam deuses muito diferentes, e o misterioso paisano que governava a Frana no podia
ser parente de um monarca. Alem disso, na opinio do kotchi, na Frana no podia haver deus
algum. No era por esse motivo que o pais se chamava Republica?
Tambm eu me sentia intrigado. Murmurei respostas vagas e retruquei com outra pergunta: ser
que meu valente kotchi pretendia se alistar?
Ele examinou suas armas, absorto.
 Sim  respondeu , claro que vou me alistar.
 Mas com certeza sabe que no e obrigado O dever de guerra no nos afeta, a nos,
muulmanos.
A/1 e Nino
 Sim, mas vou, apesar de tudo.  Aquele rapaz to bronco falava agora sem parar.  A guerra e
bela. Quero correr o mundo, bem longe. Quero ouvir o vento assobiar a ocidente, e quero ver
lagrimas nos olhos dos inimigos. Receberei um cavalo e um fuzil e desfilarei com amigos pelas
aldeias conquistadas. Quando voltar para casa, trarei muito dinheiro, e todos festejaro meu
herosmo. Se eu tombar, terei a morte de um homem justo Todos falaro bem de mim, e meu filho
ou meu pai sero tidos em grande estima. No, a guerra e bela, no importa contra quem. Um
homem tem de guerrear uma vez na vida.
Ele falava longamente e com entusiasmo. Contava as feridas que pretendia infligir a seus inimigos,
j enxergava em pensamento as presas de guerra diante dele, seus olhos brilhavam com disposio
para a luta e seu rosto moreno lembrava a fisionomia de um velho heri do divino x Nameh.
Eu o invejava porque era um rapaz simplrio que sabia exatamente o que fazer, enquanto eu mirava
o horizonte perdido em minhas cismas, indeciso. Eu frequentara o ginsio imperial por muito
tempo. O espirito cismador dos russos tomara conta de mim
Chegamos a estao de trem. Mulheres, crianas, ancios, camponeses da Gergia, nmades de
Sakatah ocupavam o edifcio. Ningum sabia para onde e por que desejavam partir. E tampouco
eles mesmos. Sentavam-se ali como torres achatados nos campos, precipitando-se para os trens
que passavam sem perguntar em que direo seguiam. Um velho, numa pele de ovelha esfarrapada
e com olhos que escorriam pus, estava sentado a porta da sala de espera, soluando. Vinha de
Lenkoram, na fronteira com a Prsia. Estava convencido de que sua casa fora destruda e seus
filhos estavam mortos. Eu lhe disse que no estvamos em guerra contra a Prsia Seu olhar
permaneceu absorto e inconsolvel:
66
Kuiban Said
 No, meu senhor. A espada do Ira enferrujou por muito tempo. Agora ser amolada de novo. Os
nmades nos atacaro e os xassevos destruiro nossas casas, pois vivemos no reino dos infiis O
Leo do Ir devastara nossas terras. Nossas filhas se tornaro escravas, e nossos filhos se
prostituiro.
Suas lamentaes eram interminveis e sem sentido. Meu kotchi abria passagem pela multido
Com dificuldade chegamos at o cais. A locomotiva tinha o focinho achatado de um monstro
antediluviano. Negra e maligna, ela retalhava a face amarela de nosso deserto. Subimos no vago e
fechamos a porta do compartimento Uma gorjeta para o controlador de passagens foi suficiente
para garantir nosso sossego. O kotchi sentou-se com as pernas curvadas no div estofado de pelcia
vermelha, no qual haviam sido tecidas trs letras douradas e entrelaadas: S.Z.D , as iniciais da
estrada de ferro transcaucasiana, orgulho da poltica colonial russa O trem se ps em movimento.
A janela estava fechada. A areia amarela Ia fora se dava a ver, em paz sonhadora. Macias e
redondas, pequenas colinas calvas rebrilhavam no mar de areia Abri a janela e olhei para fora Um
vento fresco, vindo de mares distantes e invisveis, soprava por sobre as dunas quentes. Penhascos
gastos tinham um fulgor avermelhado. Gros faiscantes deslizavam na pedra. Ervas escassas
serpeavam em direo aos cumes baixos. Na areia, desfilava uma caravana. Cem camelos ou mais,
de uma ou duas corcovas, grandes e pequenos, miravam o trem, assustados. Cada animal trazia uma
campainha ao pescoo. Aquele som ritmava seu passo indolente e os meneios de suas cabeas.
Todos os animais se moviam de maneira regular, como um corpo nico no compasso da sinfonia
nmade da alma inconstante da sia . Um tropeo, um passo em falso, e uma das campainhas
quebra o ritmo. O camelo sente a dissonncia e se volta, inquieto. A volpia do deserto gerara
aquela criatura singular, filha
bastarda de besta e pssaro, ao mesmo tempo graciosa, atraente e repulsiva. Todo o deserto se
espelha no camelo, sua distncia, seus cuidados, sua respirao, seu sono.
A areia macia, cinzenta e montona sugeria algo eterno. Imersa num sonho, a alma da sia
vagueava pela eternidade. O trem com as trs letras douradas S.Z.D. viajava na direo errada. Meu
lugar era ali, junto aos camelos e aos homens que os conduziam, junto a areia. Por que no puxei o
freio de emergncia? Para trs! Para trs! No quero seguir adiante! Ouo alguma coisa que destoa
no ritmo uniforme das campainhas da eterna caravana.
O que eu tinha a ver com aquele mundo para alem dos macios montanhosos Suas guerras, suas
cidades, seus czares, suas preocupaes e alegrias, sua limpeza e sua sujeira? Somos limpos ou
pecadores de outra maneira, temos outro ritmo e outra fisionomia. O trem pode continuar sua
marcha veloz para oeste. Fico por aqui.
Pus a cabea totalmente para fora da janela. A caravana se perdera Ia atras. Virei-me para v-la
Uma grande paz tomou conta de mim. Em minha terra no havia inimigos. Ningum ameaava as
estepes transcaucasicas E meu kotchi que fosse guerrear, se quisesse. Ele tinha razo. No iria lutar
pelo czar ou pelo Ocidente. Sena mercenrio de sua prpria sede de aventura, ansioso por derramar
sangue e ver o inimigo chorar. Como todo asitico. Tambm eu desejo a guerra, todo o meu ser
anseia pelo ar livre de um combat sangrento, pelo fumo crepuscular de um grande campo de
batalha. Guerra  palavra sonora e forte como um golpe de lana. Mas, apesar de tudo, nasci
velho, minha mente viveu sculos. No tenho nada a ver com esta guerra Nela no existe vitoria
que me faa lutar. Devo permanecer aqui, at o dia em que o inimigo invadir nossas terras, nossa
cidade, nosso continente. Que os mais ousados se lancem a guerra. E preciso que fiquem por aqui
homens suficientes para enfrentar os inimigos futuros. Pois eu sentia surdamente:
68
Kureean Saui
no importa quem vencer a guerra, um perigo se aproxima, um perigo maior que todos os pelotes
do czar. Um ser invisvel toma as rdeas da caravana, tentando lev-la para outras pastagens e
outros caminhos. S podem ser caminhos do Ocidente, que no quero seguir. Por isso, ficarei em
casa. Quando o ser invisvel avanar contra meu mundo, s ento usarei a espada.
Recostei-me para trs no div estofado. Era agradvel pensar um pensamento at o fim. Talvez
digam que fico em casa para no me afastar dos olhos escuros de Nino. E pode ser que tenham
razo. Pois aqueles olhos escuros so para mim a terra natal, o lar que chama o filho de volta,
enquanto um estranho tenta desvi-lo por outros caminhos. Continuo aqui, para proteger os olhos
escuros do lar contra aquele ser invisvel.
Olhei para o kotchi diante de mim. Ele dormia, fazendo ouvir um ronco forte e belicoso.
Captufo 9
SOB A ARDNCIA DO SOL de agosto da Transcaucsia, a cidade parecia pesada e indolente. Sua
face antiga e enrugada era sempre a mesma. Muitos russos tinham desaparecido. Tinham ido lutar
pelo czar e pela ptria. A polcia revistava os apartamentos  procura de alemes e austracos. O
preo do petrleo subiu, e dos dois lados da grande muralha todos se alegraram. S os
freqentadores habituais dos cafs liam os relatos de guerra. Esta se passava muito longe, em outro
planeta. Os nomes das cidades conquistadas ou libertadas parecia estranho e distante. Na primeira
pgina dos jornais viam-se retratos dos generais com olhar sorridente e cheios de confiana na
vitria. No viajei at o instituto em Moscou. No queria me separar do lar por causa da guerra. O
instituto podia esperar. Muitas pessoas me desprezariam porque ainda no tinha me alistado. Mas
quando, da laje, eu olhava para baixo, para o turbilho colorido da Cidade Velha, sabia que uma
ordem do czar jamais me separaria da terra natal e do muro em volta de
nossa casa.
Meu pai perguntou, com espanto e preocupao:
 Ento no vai mesmo se alistar? Voc, Ali Khan Chirvanchir?
 No, pai, no vou.
70 (v-_/ Kurdan Said
 A maioria de nossos antepassados morreu no campo de batalha.  a morte natural em nossa
famlia.
 Sei disso, pai. Tambm vou morrer no campo de batalha, mas no agora, e no to longe.
 Antes morrer honrado do que viver sem honra.
 No levo uma vida indigna. Essa guerra no me diz respeito.
O pai me olhou desconfiado. Ser que seu filho era covarde?
Pela centsima vez, ele me contou a histria de nossa famlia. J no tempo do x Nadir, cinco
Chirvanchir haviam lutado pelo Reino do Leo Dourado. Quatro caram nas batalhas contra a ndia.
Apenas um deles voltou de Deli com um rico butim. Comprou terras, construiu palcios e
sobreviveu ao soberano mal-humorado. Quando o x Rukh declarou guerra contra Hussein Khan,
aquele antepassado aliou-se a Ag Mohammed, o selvagem prncipe Kadjar. Com oito filhos, ele o
seguiu por Send, pelo Khorassan e pela Gergia. Apenas trs dos filhos sobreviveram, e
continuaram no squito do grande eunuco depois que ele se tornou x. Suas tendas se erguiam no
acampamento de Ag Mohammed em Chucha, na noite em que o x foi assassinado. Com o sangue
de nove de seus membros, a famlia Chirvanchir pagou as herdades em Chirvan, Mazendaran,
Giljan e no Azerbaijo que lhe foram atribudas por Feth Ali, o suave herdeiro de Ag Mohammed.
Os trs irmos reinaram sobre Chirvan como vassalos hereditrios do Rei dos Reis. Ento
chegaram os russos. Ibrahim Khan Chirvanchir defendeu Baku, e sua morte herica perto de
Gandja trouxe uma fama nova ao nome Chirvanchir. Foi s depois da Paz de Turkmentchai que os
bens, as bandeiras e os campos de batalha dos Chirvanchir se separaram. Os membros persas do cl
lutaram e morreram sob o x Mohammed e o x Nassr ed-Din, nas batalhas contra os turcomenos e
os afegos. Os familiares russos sangraram pelo czar na guerra
A/l e Nino
da Crimia, nas guerras contra os turcos e os japoneses. Quanto a ns, temos terras e
condecoraes, e nossos filhos passam no exame final mesmo quando no sabem distinguir o
gerndio do gerundivo.
 A guerra voltou ao pas  concluiu meu pai , mas voc, Ali Khan Chirvanchir, senta-se no
tapete da covardia, protegido pelas leis brandas do czar. De que servem as palavras, se a histria de
nossa famlia no est no seu sangue? No  nas pginas de um livro, mortas, amareladas e cheias
de poeira, no,  em suas veias,  em seu corao que deve ler os atos hericos dos antepassados.
Meu pai calou-se, contrariado. Ele me desprezava, pois no entendia minha recusa. E se o filho
fosse um covarde? O pas estava em guerra e o filho no corria para a luta, no ansiava pelo sangue
dos inimigos, no queria ver lgrimas em seus olhos. No, aquele era um filho degenerado!
Eu estava sentado no tapete, inclinado sobre almofadas macias, e disse em tom bem-humorado:
 O senhor me concedeu a realizao de trs desejos. O primeiro foi um vero em Karabagh.
Agora, aqui vai o segundo: usarei a espada quando quiser. Acho que nunca ser tarde demais. A
paz acabou... por muito tempo. Minha espada ainda prestar servios ao nosso pas.
 Est bem  disse meu pai.
Depois disso ele se calou, no mencionou mais a guerra, e somente me olhava de lado,
perscrutando. Talvez o filho no fosse um degenerado.
Conversei com o imame da mesquita Taza-Pir. O imame entendeu depressa o que eu queria. Ele foi
at nossa casa em trajes esvoaantes, espalhando um perfume de mbar. Reuniu-se com meu pai a
portas fechadas. Declarou que, segundo as palavras do Coro, aquele guerra no dizia respeito aos
muulmanos. Ilustrou suas palavras com muitos ditos do Profeta. Depois disso, todos em casa me
deixaram
em paz.
72
Kurban Saui
Mas somente em casa. O entusiasmo de guerra tomava conta dos jovens, e nem todos tinham
sensatz bastante para resistir. s vezes, eu visitava meus amigos. Ento, atravessava o Portal de
Zizianachvili, entrava  direita na travessa Achum, seguia pela rua de Santa Olga e caminhava sem
pressa at a casa do velho Seinal Ag.
Ilias Beg estava sentado  mesa, inclinado sobre tratados militares. A seu lado, de ccoras, com a
testa franzida e um olhar de espanto, estava Mehmed Haidar, o mais estpido de toda a escola. A
guerra o tinha abalado. Fugira da Casa do Saber e agora s tinha um desejo, o mesmo de Ilias Beg:
sentir nos ombros as dragonas douradas de oficial. Ambos se preparavam para o exame dos
oficiais. Quando eu entrava no quarto, geralmente ouvia o murmurar desesperado de Mehmed
Haidar:
 O dever do Exrcito e da Marinha  defender o czar e a ptria contra o inimigo externo e
interno.
Tirei-lhe o livro das mos e resolvi pr seus conhecimentos  prova.
 Quem, prezado Mehmed Haidar,  o inimigo externo?
Ele franziu a testa, refletiu com esforo e explodiu:
 Os alemes e os austracos.
 errou , meu caro  gritei, e li com satisfao:  Inimigo externo  toda formao militar que,
com inteno beligerante, ameaa ultrapassar nossas fronteiras.
Ento voltei-me para Ilias Beg:
 Qual  a definio de um tiro?
Ilias Beg respondeu como um autmato:
 Um tiro consiste na expulso da bala pelo orifcio do cano, devido  ao dos gases da plvora.
Aquele jogo de perguntas e respostas continuou por um bom tempo. A dificuldade de matar um
inimigo de acordo com as regras da cincia nos surpreendia bastante. Entre ns, ainda era uma arte
exercida por diletantes. Ento, os
Afi e Nino
73
dois  Mehmed Haidar e Ilias Beg  comearam a tagarelar sobre suas campanhas futuras.
Sonhavam principalmente com mulheres estrangeiras, recolhidas sem ferimentos sobre os
escombros de cidades conquistadas. Depois de uma hora de devaneio desenfreado, chegaram 
concluso de que todo soldado levava no alforje um basto de marechal, e olharam-me
condescendentes.
 Quando eu for oficial  disse-me Mehmed Haidar , voc me deixar passar primeiro, quando
me encontrar na rua, e me respeitar. Pois defenderei com meu sangue valente sua carne covarde.
 At voc ser nomeado oficial, a guerra j estar perdida h muito tempo, e os alemes tero
conquistado Moscou.
Os dois futuros heris no se mostraram nem um pouco indignados com essa perspectiva. Para eles,
dava no mesmo quem iria ganhar a guerra. E tampouco eu me importava. Um territrio equivalente
a um sexto do mundo nos separava da frente de batalha. Os alemes no seriam capazes de
conquistar tudo isso. Em vez de um monarca cristo, outro monarca cristo iria reinar sobre ns.
Era tudo. No, para Ilias Beg a guerra era uma aventura, para Mehmed Haidar era a oportunidade
abenoada de largar a escola de maneira digna, para dedicar-se a uma profisso natural e
masculina. Com certeza, ambos se tornariam bons oficiais combatntes. Nosso povo tinha coragem
de sobra. Mas para qu? Nem Ilias Beg nem Mehmed Haidar se perguntavam isso, e todas as
minhas advertncias seriam inteis, pois a sede de sangue prpria do Oriente havia despertado
neles.
Depois de eles me terem mostrado bastante desprezo, deixei a casa de Seinal Ag. Atravessando o
burburinho do bairro armnio, cheguei at o passeio  beira-mar. O mar Cspio, salgado e cor de
chumbo, batia no molhe de granito. Um navio de combat estava atracado no cais. Sentei-me num
banco e admirei os pequenos veleiros nativos, que lutavam bravamente contra as ondas. Num deles
eu poderia via-
74
jar com facilidade e conforto at o porto de Astara, na Prsia, em busca de um ninho pacifico e
decadente no pais grande e verde do x. La encontraria os melanclicos suspiros de amor dos
poetas clssicos, as lembranas dos feitos hericos do valente Rustem e os perfumados roseirais
dos palcios de Teer. Uma terra maravilhosa e de sonho.
Caminhei pelo passeio, indo e voltando varias vezes. Ainda no tinha me habituado a visitar Nino
em casa. Isso contrariava todas as regras de boas maneiras. Mas, como o pais estava em guerra, o
velho Kipiam achou que podia abrir uma exceo. Finalmente, tomei flego e subi as escadas da
casa de quatro andares. No segundo andar, via-se uma placa de lato com a breve inscrio:
Prncipe Kipiam.
Uma criada de avental branco abriu a porta e recebeu-me com uma mesura. Dei-lhe meu gorro,
embora no Oriente os costumes exijam que o hospede fique com a cabea coberta. Mas eu sabia me
comportar diante de europeus. A nobre famlia estava sentada no salo, tomando ch.
Era um aposento grande, com moveis cobertos de seda vermelha. Nos cantos viam-se palmeiras e
vasos de flores, e as paredes no eram pintadas nem cobertas de tapetes, e sim decoradas com papel
de parede. A ilustre famlia tomava ch ingls em grandes xcaras com belos enfeites Havia
torradas e biscoitos. Beijei a mo da princesa, que cheirava a torradas, biscoitos e gua de
alfazema. O prncipe deu-me um aperto de mo. Nino, constrangida, estendeu-me trs dedos,
olhando para dentro da xcara.
Sentei-me e recebi uma xcara de ch.
 E ento, Khan, decidiu no se alistar por enquanto?  perguntou o prncipe com afabilidade.
 No, Alteza, ainda no.
A princesa pousou a xcara na mesa:
 Em seu lugar, eu me inscreveria em algum comit de ajuda para o esforo de guerra. Ento, pelo
menos o senhor teria um uniforme.
Ai e Nino
 Pode ser, princesa E uma boa idia.
 E o que farei tambm  disse o prncipe , pois, embora os negcios me absorvam
completamente, tenho de sacrificar meu tempo livre pela ptria.
 Muito bem, prncipe. Infelizmente, quase no disponho de tempo livre. Acho que a ptria no
encontrara em mim muita utilidade
O prncipe ficou sinceramente espantado:
 Mas com o que se ocupa tanto?
 Com a administrao de meus bens, prncipe Aquela expresso surtiu efeito Eu a tinha lido em
algum romance ingls Quando um lorde distinto no tem nada a fazer, ocupa-se com a
administrao de seus bens Percebi que ganhara alguns pontos na estima dos nobres pais Mais
algumas frases graciosas, e eles me deixariam levar Nino a opera naquela noite Beijei novamente a
mo macia da princesa, curvei-me, pronunciei at mesmo os erres a moda de So Petersburgo, e
prometi que voltaria as sete e meia
Nino acompanhou-me at a porta. Quando a criada trouxe meu gorro, ela corou profundamente,
baixou a cabea e disse em idioma trtaro, que falava de maneira encantadora, com muitos erros1
 Fiquei muito feliz por voc no ter se alistado. De verdade, muito feliz. Mas diga, Ali, tem tanto
medo assim da guerra? Afinal de contas, os homens gostam de lutar. Eu tambm amaria suas
feridas
Eu no enrubesci. Peguei a mo dela e apertei-a
 No e medo o que sinto. Algum dia voc poder cuidar de minhas feridas. Mas, se lhe agrada,
pode me considerar um covarde enquanto isso.
Nino olhaa para mim sem compreender Fui para casa e rasguei um velho manual de qumica em
mil pedaos
Ento, bebi o legitimo ch da Prsia e reservei um camarote na opera.
Captufo 10
DEPRESSA, FECHEI os OIHOS, tapei os ouvidos com as mos e libertei os pensamentos. Ser
que eu me lembrava daquela noite em Teer?
Um saguo imenso, de pedras azuis, com a nobre inscrio do nome do x Nassr ed-Din na entrada.
No meio, um palco quadrado e, espalhados por todo o saguo, sentados, de p ou deitados, homens
respeitveis, crianas excitadas, jovens fanticos  espectadores devotos da paixo do santo
Hussein. H pouca luz no saguo. No palco, anjos barbudos consolam o jovem Hussein. O irritado
califa lesid manda seus cavaleiros para o deserto, com a misso de trazer a cabea do jovem santo.
As lamentaes so interrompidas pelo tilintar das espadas. Ali, Ftima e Eva, a primeira mulher,
desfilam no palco cantando rubaiats de vrias estrofes. Numa pesada travessa de ouro, a cabea do
jovem  oferecida ao califa mpio. Os espectadores estremecem e choram. Com um chumao de
algodo, um imame circula pelas fileiras, recolhendo as lgrimas dos espectadores numa
garrafinha. Essas lgrimas tm grandes poderes mgicos. Quanto mais profunda a f dos
espectadores, maior  o efeito da pea. Uma tbua faz as vezes de um deserto, um caixote  o trono
coberto de diamantes do califa, algumas estacas de madeira so o Jardim do den, e um homem
barbudo  a filha do Profeta.
A/i e Nino
77
Abri os olhos, deixei cair as mos e olhei em torno.
Luz cegante de muitas lmpadas eltricas. Camarotes de veludo vermelho, sustentados por deuses
de gesso dourado. Cabeas calvas brilham na platia como estrelas no cu noturno. As mulheres
exibem costas brancas e braos nus. Uma vala escura separa os espectadores do palco. Nessa vala
sentam-se homens de aspecto tmido com instrumentos de msica. O auditrio enche-se com o
rudo de conversas entremeadas em voz baixa, o ciciar dos programas ao serem folheados, o estalar
de leques femininos e lornhes. A pera Municipal de Baku prepara-se para a abertura da pera
Eugnio Oniegum.
Nino estava sentada a meu lado. Seu rosto afilado voltava-se em minha direo. Seus lbios
estavam midos, e os olhos, secos. Ela falava pouco. Quando se apagaram as luzes, enlacei seus
ombros. Nino inclinou a cabea para o lado e pareceu concentrar-se na msica de Tchaikovski.
Eugnio Onieguin desfilava pelo palco num traje estilo Regncia, e Tatiana cantava uma ria.
Prefiro a pera porque conheo o enredo de antemo e no preciso esforar-me, como no teatro,
para entender o que se passa no palco. Quase nunca a msica me incomoda, a no ser quando 
muito alta. A sala est escura, e quando fecho os olhos os vizinhos pensam que minha alma navega
no oceano sinfnico.
Dessa vez mantive os olhos abertos. Por trs do perfil delicado de Nino, que se inclinara um pouco,
avistei as primeiras fileiras do auditrio. No meio da terceira fileira estava sentado um homem
gordo, com olhos cndidos e testa filosfica  meu velho amigo Melik Nachararian, o armnio
mais nobre de Chucha. No compasso da ria, sua cabea movia-se entre o olho esquerdo e o nariz
de Nino.
 Veja, l est Nachararian  sussurrei-lhe.
 Olhe para o palco, seu brbaro  sussurrou ela de volta, mas apesar disso lanou um olhar para
o armnio.
78
Kurean Sait
Ele se voltou para ns e acenou alegremente com a cabea.
No intervalo, fui buscar chocolats para Nino e encontrei-o no buf. Ele veio at nosso camarote e
sentou-se ali, gordo, esperto e um pouco calvo.
 Quantos anos tem, Melik Nachararian?  perguntei.
 Trinta  respondeu ele. Nino olhou para ns:
 Trinta?  perguntou ela.  Ento no o veremos mais por muito tempo em nossa cidade.
 Como assim, princesa?
 J convocaram os homens de sua idade.
Com uma grande risada, seus olhos saltaram das rbitas e ele sacudiu o ventre gordo:
 Infelizmente, princesa, no posso alistar-me. O mdico descobriu em mim um empiema
incurvel nas cavidades acessrias. Tive de ficar.
O nome da doena parecia extico e sugeria algo semelhante a dores de barriga. Nino arregalou os
olhos.
  uma doena to perigosa assim?  perguntou, tentando mostrar empatia.
 Bem, depende. Com a ajuda de um mdico consciencioso, qualquer doena pode ser perigosa.
Nino fez uma expresso de espanto e revolta.
Melik Nachararian pertencia  mais nobre famlia armnia de Karabagh. Seu pai fora general. Ele
mesmo era forte como um urso, tinha sade de ferro e era solteiro. Quando se afastou do camarote,
convidei-o para jantar conosco depois da pera. Ele aceitou, agradecendo cortesmente.
A cortina subiu. Nino apoiou a cabea em meus ombros. Ao som da famosa valsa de Tchaikovski,
ergueu os olhos para mim e murmurou:
 Comparado com ele, voc  quase um heri. Pelo menos no tem cavidades acessrias.
A/i c Nino
79
 Os armnios tm mais imaginao que os muulmanos  disse eu, tentando desculpar
Nachararian.
A cabea de Nino continuou recostada em meus ombros quando o herico tenor Lenski se colocou
diante da pistola de Onieguin e foi abatido, conforme estava no libreto.
Era uma vitria fcil, elegante e definitiva, que precisava ser festejada.
Quando samos da pera, Nachararian estava  nossa espera. Seu automvel era extremamente
distinto e europeu, em comparao com o coche da casa Chirvanchir. Seguimos pelas travessas
escuras de nossa cidade, passando diante do ginsio e do Colgio de Santa Tamar.  noite, as duas
escolas tinham um aspecto quase acolhedor. Paramos diante da escadaria de mrmore do Clube
Municipal. Aquilo no era muito conveniente. Nino ainda freqentava o colgio. Mas, quando um
dos cavalheiros usa o nome Chirvanchir e o outro se chama Nachararian, uma princesa Kipiani
pode esquecer tranqilamente as regras do Colgio de Santa Tamar.
Fomos at o amplo terrao do clube, fortemente iluminado, que dava para o Jardim do Governador
imerso na escurido. Olhei para as estrelas, o mar que cintilava suavemente e os faris da ilha
Nargin.
Os copos tilintaram. Nino e Nachararian bebiam champanha. Quanto a mim, nada no mundo, nem
mesmo os olhos de Nino, me faria beber lcool em pblico, em minha cidade natal. Assim, como
sempre, eu bebericava uma laranjada. Quando a orquestra de dana de sessenta msicos finalmente
nos deu uma trgua, Nachararian disse, srio e pensativo:
 Aqui estamos ns, representantes de trs grandes povos do Cucaso: uma georgiana, um
muulmano, um armnio. Nascidos sob o mesmo cu e na mesma terra, diferentes e no entanto
iguais... como a Santssima Trindade. Ao mesmo tempo europeus e asiticos, recebendo as influn-
Kurban Sawf
cias do Ocidente e do Oriente, e dando nossa contribuio a ambos
 Sempre pensei  disse Nino  que o elemento natural dos homens do Caucaso fosse a luta. E
agora estou sentada entre dois caucasianos que no querem lutar.
Nacharanan olhou-a com indulgncia:
 Ambos queremos lutar, princesa, ambos, mas no um contra o outro. Um muro ngreme nos
separa dos russos. Esse muro so as montanhas do Caucaso. Se os russos vencerem, nosso pais ter
que se russificar completamente. Perderemos nossas igrejas, nosso idioma, nossa maneira de ser.
Seremos bastardos da Europa e da sia, ao invs de uma ponte entre os dois mundos. No, quem
luta pelo czar luta contra o Caucaso
Nino falou como uma aluna do Colgio de Santa Tamar recitando a lio:
 Persas e turcos destruram nosso pais. O x devastou o Leste, e o Sulto, o Oeste. Quantas
escravas georgianas foram arrastadas para o harem Os russos no ocuparam nosso pais por si
mesmos. Fomos nos que os chamamos Jorge XII abdicou voluntariamente em favor do czar:
Tomamos o reino da Gergia sob nossa proteo, mas no para expandir os territrios imperiais,
j de si imensos  No conhecem essas palavras
Claro que as conhecamos. Ao longo de oito anos, os professores da escola nos haviam obrigado a
repetir as palavras daquele manifesto que Alexandre I editara um sculo antes. Na avenida principal
de Tbilisi, as palavras tinham sido gravadas numa placa de bronze. Tomamos o reino da Gergia
sob nossa proteo.
At certo ponto, Nino tinha razo. Naquele tempo, os harns do Oriente estavam cheios de
prisioneiras caucasianas, e nas ruas das cidades do Caucaso se empilhavam cadveres cristos Eu
poderia ter respondido a mo- Sou muulmano, vocs so cristos Deus os enviou at nos para
A/i e Nino
81
serem nossa presa legitima. Porem, calei-me e esperei pela resposta de Nacharanan.
 Veja uma coisa, princesa  comeou ele , um homem que pensa em termos de poltica
precisa ter a coragem de agir sem objetividade, e at de maneira injusta. Admito que, com os
russos, a paz chegou ao pais. Mas nos, povos do Caucaso, podemos manter essa paz sem o auxilio
dos russos. Eles alegam que precisam nos proteger uns contra os outros. Para isso enviaram os
regimentos russos, os funcionrios e governadores russos. Mas julgue por si mesma, princesa: por
acaso precisa ser protegida contra mim? E eu, preciso de proteo contra Ali Khan? No estvamos
todos sentados pacificamente no mesmo tapete em Pechapur, perto de Chucha? Hoje, a Prsia no e
mais um inimigo temvel para os povos do Caucaso. O inimigo esta ao norte, e ele tenta nos
convencer de que somos crianas e precisamos de proteo uns contra os outros. Porem, deixamos
de ser crianas ha muito tempo.
 E por isso no quer se alistar? Nacharanan tinha abusado do champanha:
 No somente por isso  disse ele.  Sou preguioso e acomodado. Guardo ressentimento
contra os russos porque confiscaram os tesouros das igrejas armnias, e do terrao deste clube a
vida e mais bela do que nas trincheiras de guerra. Minha famlia conquistou fama suficiente. Sou
um hedonista.
 Sou de outra opinio  disse eu.  No sou hedonista, e amo a guerra. Mas no amo esta
guerra.
 Voc e jovem, meu amigo  disse Nacharanan, bebendo.
Ele continuou falando sem parar, e certamente argumentava bem. Quando samos dali, Nino estava
quase convencida de que ele tinha razo. Fomos para casa no carro de Nacharanan.
 Que cidade magnfica  disse ele durante o caminho , o portal da Europa Se a Rssia no
ficasse to longe, com certeza j seriamos um pais europeu.
82
Pensei nos bons tempos das minhas aulas de geografia e dei uma boa risada.
Aquela fora uma noite agradvel. Ao despedir-me, beijei os olhos e a mo de Nino, enquanto
Nachararian olhava para o mar. Depois, ele me levou at o Portal de Zizianachvili... pois o
automvel no podia seguir adiante. Por trs da muralha comeava a sia.
 Vai se casar com Nino?  foi sua ltima pergunta.
 Inxal, se Deus assim o permitir.
 Ter de superar algumas dificuldades, meu amigo. Se precisar de ajuda, pode contar comigo.
Acho que as principais famlias de nosso povo tm de se unir, apesar da origem diferente.
Precisamos viver juntos.
Apertei-lhe a mo calorosamente. Havia armnios realmente dignos. Aquela constatao me
desconcertou.
Fatigado, entrei em casa. Um criado lia um livro, acocorado no cho. Dei uma olhada. Sinuosa e
ornamentada, a escrita rabe do Coro enchia aquelas pginas. O criado levantou-se e saudou-me.
Tomei o livro sagrado e li:
  vs, os que credes, ouvi: o vinho, o jogo, as imagens so obras abominveis de Sat. Evitai-
os, e haveis de viver bem. Sat tenta afastar vossos pensamentos de Al e da prece.
As pginas do Coro exalavam um perfume doce. O papel fino e amarelado crepitava. A Palavra de
Deus, prensada entre duas capas de couro, era uma advertncia severa. Devolvi o livro e fui para o
quarto. O div amplo e baixo era macio. Fechei os olhos, como sempre fazia quando queria
enxergar direito. Vi o champanha, Eugnio Onieguin danando no baile, os olhos cndidos e claros
de Nachararian, os lbios suaves de Nino e o exrcito de inimigos que transpunha a muralha das
montanhas para sujeitar nossa cidade.
Vindo da rua, ouvi um canto montono. Era Hachim, o apaixonado. Era um homem muito velho, e
ningum sabia que amor perdido ele lamentava. Chamavam-no Madj-
A/i e Nino
nun, ou o Enamorado, um ttulo de honra rabe.  noite, ele se esgueirava pelas ruas vazias,
sentava-se em alguma esquina e chorava e cantava seu amor infeliz at o amanhecer.
O som montono daquelas melodias me embalava. Virei-me em direo  parede e afundei-me na
escurido e no sonho.
A vida era bela, apesar de tudo.
Captulo 11
UM PEDAO DE PAL tem duas pontas A de cima e a de baixo. Quando se inverte o pau, a ponta
de cima passa para baixo, e vice-versa. Mas o pau continua o mesmo.
E o que acontece comigo. Sou a mesma pessoa de um ms ou um ano atras. La fora segue a mesma
guerra, e os mesmos generais vencem ou so vencidos. Mas quem ha pouco tempo me chamava de
covarde agora baixa os olhos quando cruza comigo na rua. Amigos e parentes entoam loas a minha
sabedoria, e at meu pai me olha com um ar de respeito.
Apesar disso, o pedao de pau continua o mesmo.
Certa dia, uma noticia correu pela cidade: Sua Majestade Imperial, o sulto do Supremo Imprio
Otomano Memed V Rachid, decidira combatr o mundo da impiedade. Suas tropas vitoriosas
estariam em marcha, para leste e para oeste, a fim de libertar os fieis do jugo da Rssia e da
Inglatrra. Fora declarada a guerra santa, e a bandeira verde do Profeta tremulava sobre o palcio
do califa.
Foi assim que me tornei heri. Amigos vinham elogiar minha perspiccia. Eu tivera razo em me
recusar a combatr Um muulmano nunca deve lutar contra o sulto. Nossos irmos turcos
marcharo at Baku, e nosso povo se unira ao povo turco para formar uma grande nao de fieis
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Eu me calava, inclinando-me diante daquelas palavras. O louvor e a censura no devem afetar um
sbio. Meus amigos estendiam mapas no cho. Discutiam acaloradamente sobre qual seria o bairro
de Baku em que os turcos entrariam primeiro. Pus um ponto final a discusso dizendo que os
turcos, de onde quer que viessem, ocupariam primeiro Armemkend, que era o bairro dos armnios.
Os amigos me encararam com admirao e louvaram minha sabedoria.
Da noite para o dia, mudou a disposio das pessoas. Nenhum muulmano se dispunha a pegar em
armas. Seinal Ag teve de gastar muito dinheiro para trazer lhas Beg, que perdera subitamente o
interesse pela guerra, de volta para a guarnio de Baku. O coitado fora aprovado no exame dos
oficiais um pouco antes da declarao de guerra turca E o milagre aconteceu, at mesmo Mehmed
Haidar conseguiu passar Ambos eram tenentes. Sentados em suas casernas, eles me m\ejavam
porque eu no havia jurado aliana com o czar Mas era tarde demais para voltarem atras. Ningum
os obrigara aquele juramento. Eles o tinham prestado de livre e espontnea vontade, e eu seria o
primeiro a me afastar deles se o rompessem agora.
Eu me calava No conseguia pensar com clareza. S de vez em quando saia de casa a noite e
rumava apressado at a pequena mesquita ao lado da fortaleza Perto da mesquita se erguia uma
velha casa. Ali vivia Seid Mustafa, um colega de escola. Eu costumava visita-lo tarde da noite.
Seid Mustafa era um descendente do Profeta Tinha os olhos pequenos puxados e o rosto marcado
pela bexiga. Usava sempre a faixa verde de sua condio social. Seu pai era imame na pequena
mesquita, e o av era um erudito famoso no tmulo do imame Reza, na cidade sagrada de Meched.
Ele rezava cinco \ezes ao dia. Escrevia com giz, na sola dos sapatos, o nome do mpio califa lesid,
para pisotear constantemente o inimigo da f No dcimo dia do ms de muarra, o Dia do Luto
Sagrado, dilacerava o peito at que 
86
pele sangrasse. Nino o considerava carola demais, e por isso o desprezava. Eu gostava dele porque
seu olhar era lmpido. Como nenhum outro, sabia distinguir o bem do mal, a verdade da mentira.
Ele me recebeu com o alegre sorriso de um sbio.
 Voc sabia, Ali Khan? O rico lakub Oghli comprou doze caixas de champanha para beber com o
primeiro oficial turco que entrar na cidade. Champanha! Champanha para comemorar a guerra
santa muulmana!
Dei de ombros.
 E por que se admira,  Seid? As pessoas perderam o juzo.
 Al confunde aqueles que atraem a Sua ira  disse Seid, sombrio. Levantou-se de um salto,
com os lbios trmulos.  Oito homens fugiram ontem para se alistar no exrcito do sulto. Oito
homens!! Eu lhe pergunto, Khan, o que se passa na cabea deles?
 A cabea deles  vazia como o ventre de um asno faminto  respondi cautelosamente.
A fria obstinada de Seid no conhecia limites:
 Veja  gritou ele , os xiitas lutam pelo califa sunita. Mas lesid no derramou o sangue do
neto do Profeta? E Moavia no assassinou Ali, o Louvado? Quem  o herdeiro do Profeta? Ser o
califa, ou o Invisvel, o Imame da Eternidade, em cujas veias corre o sangue do Profeta? H sculos
o povo xiita est coberto de luto. O sangue correu entre ns e os renegados, que so ainda piores do
que os infiis. De um lado o xiismo, de outro a suna; no existe ponte entre ns. No faz muito
tempo que o sulto Selim mandou exterminar quarenta mil xiitas. E agora? Xiitas lutam pelo califa
que se apropriou da herana do Profeta. Tudo foi esquecido, o sangue dos justos e o mistrio dos
imames. Aqui, em nossa cidade xiita, h homens que esperam ansiosos pela chegada dos sunitas
que ho de destruir nossa f. O que querem os turcos? Enver Pax avanou at rmia. O Ir
Ali e Nino
ser dividido em dois. A verdadeira f ser destruda.  Ali, vem a ns com tua espada flamejante,
condena os renegados!  Ali, Ali...!
Lgrimas lhe escorriam pelo rosto, e ele golpeava o peito com os punhos. Abalado, olhei para ele.
Eu no sabia mais o que era certo e errado. Sim, os turcos eram sunitas. E, no entanto, meu corao
ansiava pela entrada de Enver Pax em nossa velha cidade. O que significava isso? Ento era
verdade que o sangue de nossos mrtires tinha sido derramado em vo?
 Seid  disse eu , os turcos tm a mesma ascendncia que ns. Seu idioma  o nosso idioma.
O mesmo sangue de Turan corre em nossas veias. Talvez por esse motivo seja mais fcil morrer
sob o crescente do califa do que sob a cruz do czar.
Seid Mustafa enxugou as lgrimas:
 Em minhas veias corre o sangue de Maom  disse ele, com frieza e orgulho.  Sangue de
Turan? Acho que voc esqueceu o pouco que aprendeu na escola. V at os montes Altai, ou ainda
mais longe, at a fronteira da Sibria. Quem vive l? Turcos semelhantes a ns, que falam nosso
idioma e tm nosso sangue. Deus os desencaminhou e eles continuam pagos. Idolatram o deus das
guas Su-Tengri e o deus do cu Teb-Tengri. Se esses iacutos ou altaicos fossem poderosos e
lutassem contra ns, que somos xiitas, deveramos nos alegrar com as vitrias dos pagos, s
porque tm o mesmo sangue que ns?
 Mas o que devemos fazer, Seid?  perguntei.  A espada do Ir enferrujou. Quem combat os
turcos ajuda o czar. Ser que, em nome de Maom, cabe a ns defender a cruz do czar contra o
crescente do califa? O que devemos fazer, Seid?
O rosto de Mustafa se cobriu de tristeza indizvel. Ele olhou para mim, e pareceu-me que todo o
desespero de um milnio agonizante falava atravs de seus olhos.
88
Kiiimn Saia
 O que devemos fazer, Ali Khan? Eu prprio no sei. Seid Mustafa era um homem sincero
Calei-me, perplexo. No quarto de Seid, a lamparina de petrleo fumegava. As cores da esteira de
orao rebrilhavam no estreito circulo de luz. A esteira parecia um jardim que se pode dobrar e
carregar numa viagem. Ele, Seid Mustafa, no hesitava em condenar os pecados das pessoas. Seu
caminho pelo mundo e uma viagem Dentro de dez ou vinte anos, ser imame no tmulo de Reza em
Meched, um daqueles sbios que, de forma invisvel e imperceptvel, conduzem o destino da
Prsia. Desde j, tem os olhos cansados de um ancio consciente de sua velhice e que no procura
escond-la. No cedera nenhuma polegada da Verdadeira Fe, mesmo que com isso a Prsia volte a
ser grande e poderosa. Antes a desgraa do que o fugaz esplendor terreno, se o preo a pagar por
ele for a imundcie do pecado. Por isso ele se cala, sem saber o que fazer E por isso gosto dele,
senti nela solitrio no limiar da Verdadeira Fe.
 Nosso destino esta nas mos de Ala, Seid Mustafa  disse eu, mudando de assunto.  Deus
nos por no bom caminho. Mas hoje eu queria conversar sobre outra coisa
Seid Mustata olhou para suas unhas tingidas de hena Um misbaha de mbar deslizava em seus
dedos. Ele abriu os olhos, e o rosto marcado pela bexiga abriu-se num sorriso
 J sei, Ali Khan, voc quer se casar. Levantei-me, atnito. Pretendia discutir com Seid
Mustafa a fundao de uma Organizao de Escoteiros Muulmanos Xntas. Porem, ele j assumia a
atitude de um pastor de almas.
 Como sabe que quero me casar, e o que voc tem com isso?
 Vejo em seus olhos E e claro que me diz respeito, pois somos amigos Quer se casar com Nino,
que no gosta de mim e e crista
 E verdade, Mustafa. Ento, o que acha?
Ali i Nino
89
O olhar de Mustafa era penetrante e sbio.
 Acho que sim, Ali Khan. Um homem deve se casar. Se possvel, com a mulher que ama. Mas
no e necessrio que ela retribua esse amor Um homem sbio no corteja mulheres. A mulher e
apenas um campo que o homem cultiva. Por acaso o campo tem de amar o campons? Basta que o
campons ame seu campo. Case-se. Mas nunca esquea que a mulher e apenas um campo a ser
cultivado
 Ento acha que uma mulher no tem alma nem inteligncia?
Ele me olhou, compassivo:
 Como pode fazer essa pergunta, Ali Khan? Claro que uma mulher no tem alma nem
inteligncia. E de que lhe serviriam7 Basta que ela seja virtuosa e conceba muitos filhos A Lei diz.
O testemunho de um homem vale mais que o testemunho de trs mulheres. No se esquea disso,
Ali Khan.
Eu estava preparado para ouvir as maldies do beato Seid quando lhe contasse que queria me
casar com uma crist que no gostava dele. Sua resposta me comoveu. Ele era realmente justo e
sbio. Perguntei com suavidade:
 E o que acha de ela ser crist? Ou ser que devia se converter a f islmica?
 Para qu?  perguntou ele  Uma criatura sem alma nem inteligncia tampouco e capaz de f.
Nem paraso nem inferno a esperam. Depois da morte, ela se dissolve no vazio Mas e claro que os
filhos tm de ser xutas.
Assenti com a cabea.
Ele se levantou e foi at a pratleira. Suas longas mos de macaco apanharam um livro empoeirado.
Olhei a encadernao de relance. O titulo persa era Djatnabt: Tevanchi Al-r-Seldjuk, que significa
Historia da casa dos seldjucidas. Ele abriu o livro
 Aqui  disse ele , pagina duzentos e sete.  Ento, leu:
Kmean Sani
No ano da hgira de 637, morreu no castelo Kabadia o sulto Al ed-Din Kaikobad. Chaiassedin
Keichorov o sucedeu no trono dos seldjcidas. Este esposou a filha de um prncipe georgiano, e to
grande era seu amor pela georgiana crist que ordenou que a imagem dela fosse cunhada nas
moedas, ao lado da sua prpria. Ento, os sbios e eruditos vieram ter com ele, dizendo: O sulto
no deve violar a Lei de Deus. Vossa deciso  um pecado. O Poderoso replicou, irado: Deus me
alou acima de vs. Vosso fado  a obedincia. Tristes, os sbios se afastaram dali. Mas Deus
iluminou o sulto. Este convocou os sbios e disse: No desejo violar as Santas Leis, pois Deus
me incumbiu de cumpri-las. Portanto, seja feito da seguinte maneira: o Leo de longa juba, com
uma espada em sua pata direita  esse serei eu. O sol que se levanta sobre minha cabea ser a
mulher que amo. E seja feita a Lei. Desde aquela poca, o leo e o sol so os smbolos da Prsia.
Mas os homens sbios afirmam: no h mulheres mais bonitas que as georgianas.
Mustafa fechou o livro e me dirigiu um sorriso irnico.
 Pois , voc quer fazer hoje com Nino o que Keichorov fez outrora com sua amada. E nenhuma
lei o probe. Mulheres da Gergia so parte da recompensa que o Profeta prometeu aos fiis: Vai,
e toma-as para ti. Assim reza o Livro.
De repente, seu rosto sombrio se suavizou. Os pequenos olhos zangados rebrilharam. Alegrava-se
por dissipar os escrpulos mesquinhos do sculo XX com base nas palavras do Livro Sagrado. Os
incrdulos tinham de aprender o que  o verdadeiro progresso.
Eu o abracei e beijei. Fui embora. Meus passos soavam seguros e firmes pelas ruelas escuras.
Agora, tinha a meu favor o Livro Sagrado, o velho sulto e o erudito Mustafa.
Captuo 12
O DtstRTO E COMO o PORTAI que conduz a um mundo misterioso e inexplicvel. O p e as
pedras rodopiam sob os cascos de meu cavalo. A sela  macia, como se tivesse sido estofada com
penugem.  uma sela dos cossacos de Terek. Sobre ela um cossaco pode dormir, ou ele pode us-la
como esteira ou acolchoado. Nos alforjes da sela, ele transporta seus bens. Um po rabe, uma
garrafa de vodca e moedas de ouro roubadas das aldeias dos cabardos. Porm, meus alforjes esto
vazios. Ouo zunir o vento do deserto. Sigo adiante em disparada, liberto na imensido da areia
cinzenta. Macia e protetora, a burka, ou manta de feltro dos cabardos, pende de meus ombros. Ela
protege dos raios de sol e gotas de chuva. Bandidos e cavaleiros inventaram essa roupa para roubar
e cavalgar. Sem grande dificuldade, o feltro escuro pode ser usado para montar uma barraca. Nas
dobras da burka pode-se esconder o lucro de vrios dias de pilhagem. Moas raptadas se sentam de
ccoras por trs de seus raptores, protegidas pela burka como papagaios numa gaiola.
Sigo em direo ao Portal do Lobo Cinzento. Tits pr-histricos o construram em pleno deserto,
no longe de Baku. So dois penhascos cinzentos, rodos pelo tempo, no oceano de areia. Diz uma
antiga lenda que o ancestral
Sai/
dos turcos Sari Kurt, o Lobo Cinzento, teria conduzido por essa estreita passagem de pedra a tribo
dos osmanlis at as verdes plancies da Anatlia.
Em noites de lua cheia, chacais e lobos do deserto se renem ao redor dos penhascos. Eles uivam
para a lua como ces diante de um cadver. Tm uma intuio csmica para reconhecer o cheiro de
morte. A lua  um cadver. Quando um homem agoniza numa casa, os ces uivam. Eles sentem o
cheiro da morte no corpo do agonizante. Sua raa  aparentada com a dos lobos do deserto. E da
mesma forma ns, sditos dos russos, somos aparentados com os lobos que Enver Pax enviou para
o Cucaso.
Continuo meu caminho pelo vazio do grande deserto. A meu lado segue meu pai. Ele parece um
centauro, montado no cavalo como uma extenso do animal.
 Safar Khan!  Minha voz est rouca, pois raramente chamo meu pai pelo prenome.  Safar Khan, precisamos conversar.
 Fale enquanto cavalgamos, meu filho.  mais fcil conversar quando cavaleiro e cavalo esto
unidos.
Ser que ele estava rindo? Afago com o chicote as estreitas ancas do cavalo. Meu pai ergue as
sobrancelhas. Com um leve movimento das coxas, ele me alcana.
 E ento, meu filho?  A pergunta soa quase zombeteira.
 Quero me casar, Safar Khan.
Longo silncio. O vento sibila. As patas do cavalo fazem voar pedrinhas. Por fim, uma voz ressoa:
 Construirei um sobrado para voc, no passeio  beira-mar. Conheo um belo terreno ali. Talvez
com um estbulo. No vero, voc pode morar em Mardakiani. O primeiro filho se chamar Ibrahim.
Em homenagem ao antepassado. Se quiser, eu lhe dou um carro de presente. S que um carro no
tem utilidade. No h ruas em nossa cidade. Com certeza ser melhor um estbulo.
Afi e Nino
93
Silncio de novo. O Portal do Lobo Cinzento j ficou para trs. Cavalgamos em direo ao
subrbio de Bailov, perto do mar. A voz de meu pai parece vir de muito longe:
 Devo procurar uma bela mulher para voc, ou j encontrou algum? Hoje em dia os jovens
escolhem suas futuras esposas sem a ajuda dos pais.
 Quero me casar com Nino Kipiani.
O rosto de meu pai no se altera. Sua mo direita afaga suavemente a crina do cavalo:
 Nino Kipiani...  diz ele.  Tem quadris estreitos demais. Mas acho que todas as georgianas
so assim. Apesar disso, geram filhos sadios.
 Mas, pai!
Estou indignado, embora no saiba por qu. Meu pai me olha de lado e sorri:
 Voc  muito jovem ainda, Ali Khan. Os quadris de uma mulher so mais importantes que seus
conhecimentos de idiomas.
Ele falava com indiferena deliberada.
 E quando gostaria de se casar?
 No outono, quando Nino terminar a escola.
 Muito bem. Ento a criana nascer em maio do ano que vem. Maio  um ms de boa sorte.
 Mas, pai!
De novo, uma irritao incompreensvel toma conta de mim. Tenho a sensao de que meu pai no
me leva a srio. No quero me casar com Nino por causa de seus quadris ou conhecimentos de
lnguas. Eu me caso com ela porque a amo. Meu pai sorri. Ento ele detm o cavalo e diz:
 O deserto  ermo e vazio. Tanto faz em que colina vamos parar para comer. Tenho fome. Vamos
descansar aqui.
Desmontamos. Meu pai retira do alforje um po rabe e um queijo de ovelha. Ele me oferece
metade da comida, mas no sinto fome. Ns nos deitamos na areia, ele come e
94   (v_y Kuifiail Slld
olha para longe. Ento, seu rosto fica seno e ele se senta com as pernas cruzadas, ereto como uma
vela. Diz:
 E muito bom que voc se case. Eu me casei trs vezes na vida. Mas minhas mulheres foram
morrendo como moscas no outono. Agora, como sabe, levo uma vida solitria. Mas, se voc se
casar, talvez eu me case tambm. Sua Nino e crist. No a deixe trazer essa f estranha para nossa
casa. Aos domingos, mande-a para a igreja. Mas nenhum pope deve visita-la. Uma mulher e uni
vaso frgil Isso e importante saber No bata nela quando estiver gravida. E sobretudo no esquea
nunca- voc e o senhor, ela vive a sua sombra. Voc sabe um muulmano pode ter at quatro
mulheres Mas e melhor se contentar com uma. A no ser que Nino no possa ter filhos. Nunca traia
sua mulher. Ela tem direito a cada gota de seu smen. O adltero esta condenado a perdio eterna
Seja paciente com ela. As mulheres so como crianas, apenas so capazes de mais malcia e
maldade, isso tambm e importante saber Se quiser, cubra-a de presentes, d-lhe seda e pedras
preciosas Mas se alguma vez precisar de um conselho, e ela o der a voc, faa exatamente o
contrario do que ela disser. Talvez seja esse o ponto mais importante
 Mas, pai, eu amo Nino. Ele abanou a cabea
 De maneira geral, no se deve amar uma mulher Pode-se amar o lar ou a guerra Muita gente ama
belos tapetes ou armas raras. Seja como for .. as vezes acontece que um homem ame sua mulher.
Com certeza voc j ouviu canes sobre o amor de Leila e Madiun, ou as Gazelas de amor de
Hafiz. Hafiz cantou o amor ao longo da vida. Mas muitos sbios afirmam que ele nunca dormiu
com uma mulher. Madiun, porem, era louco. Acredite em mim- um homem deve proteger sua
mulher, mas ela e que deve ter amor por ele. E a vontade de Deus.
Calei-me. E tambm meu pai ficou em silncio. Talvez ele tivesse razo O amor no e a coisa mais importante na
vida de um homem. Apenas eu ainda no atingira o alto grau de sua sabedoria. De repente, meu pai
nu e disse alegremente:
 Ento esta bem, amanh procuro o prncipe Kipiam para discutir o assunto. Ou ser que os
jovens de hoje pedem a mo de uma moa sem a ajuda dos pais?
 Eu prprio falo com os Kipianis  disse eu, depressa. Montamos a cavalo e seguimos at
Bailov. Logo se
mostraram as torres de petrleo de Bibi-Eibat. Os andaimes negros lembravam um bosque escuro e
mau. Sentamos o cheiro do petrleo Vamos operrios em volta dos buracos de perfurao. De
suas mos pingava leo O petrleo jorrava sobre a terra encharcada. Passamos diante da priso de
Bailov De repente, ouvimos tiros  Esto atirando em alguem?  perguntei.
No Daquela vez, ningum fora baleado Os tiros vinham da caserna da guarnio de Baku Ali, a
arte da guerra era ensinada com dedicao.
 Quer visitar seus amigos?  perguntou meu pai. Respondi que sim com um aceno Entramos no
imenso ptio de manobras lhas Beg e Mehmed Haidar treinavam com suas divises. Suas testas
estavam cobertas de suor.
 Direita, esquerda! Direita, esquerda Mehmed Haidar tinha uma expresso muito seria
lhas Beg lembrou-me uma marionete delicada, controlada pela vontade de outra pessoa. Ambos
vieram at ns e nos cumprimentaram.
 Ento, que tal o exercito  perguntei.
lhas Beg calou-se Mehmed Haidar voltou-me um olhar sombrio:
 E sempre melhor que a escola  resmungou.
 Vai chegar o novo comandante do regimento E o prncipe Mehkov, de Chucha  disse lhas
Beg.
 Mehkov? Conheo Mehkov. Ele no tem um cavalo rubro-dourado?
Kuran Saii
 Isso mesmo. Toda a guarnio j conta maravilhas sobre esse cavalo.
Ns nos calamos por um instante. O ptio da caserna estava coberto de poeira grossa. Ilias Beg
olhou para o porto, sonhador. Havia inveja e saudade em seus olhos. Meu pai lhe deu um tapinha
nos ombros:
 Sente inveja da liberdade de Ali Khan? Pois bem, no sinta. Ali Khan est prestes a perd-la.
Ilias Beg riu, constrangido:
 Sim, mas vai perd-la para Nino.
Mehmed Haidar ergueu a cabea com curiosidade:
 Uh, uh  disse ele , at que enfim, j era tempo.
Mehmed se casara havia muitos anos. Sua mulher usava vu. Nem eu nem Ilias sabamos o nome
dela. Ele me olhou com uma expresso de superioridade, franziu a testa estreita e disse:
 Agora voc vai saber como  a vida de verdade.  Dita por Mehmed Haidar, aquela frase soava
tola. Apertei a mo dos dois amigos e deixei a caserna. O que Mehmed Haidar e sua mulher,
coberta com um vu, podiam saber da vida?
Fui para casa e deitei-me no div. Um aposento asitico est sempre fresco. Ele se enche do frio da
noite, tal como uma fonte se abastece de gua. Durante o dia, uma pessoa mergulha em seu quarto
como se tomasse um banho frio.
De repente, o telefone tocou. A voz de Nino era queixosa:
 Ali Khan, o calor e a matmtica esto me matando. Venha me ajudar.
Dez minutos depois, Nino estende para mim os braos finos. Os dedos delicados esto manchados
de tinta. Beijo aquelas manchas em seus dedos.
 Nino, conversei com meu pai. Ele est de acordo. Nino estremece e ri ao mesmo tempo.
Intimidada, olha
em todas as direes do quarto. O rosto se tinge de rubor.
A/i e Nino
97
Chega bem perto de mim, e vejo suas pupilas dilatadas. Ela murmura:
 Ali Khan, sinto medo, sinto tanto medo!
 Medo do exame, Nino?
 No.  Ela volta o rosto. Seus olhos contemplam o mar. Desliza a mo pelos cabelos e diz:
Ali Khan, um trem viaja da cidade X  cidade Y a uma velocidade de cinqenta quilmetros por
hora...
Comovido, eu me inclino sobre a lio de matmtica.
Cajjtuo 13
ERA UMA FARDF ESCURA. O cu parecia uma redoma de vidro opaco. Uma nvoa cerrada
avanava, vindo do mar. Sombrios, os lampies fumegavam nas esquinas.
Eu caminhava pelo passeio  beira-mar. Rostos surgiam e desapareciam na neblina, indiferentes ou
assustados. Tropecei numa tbua larga que algum jogara na rua e ca sobre um ambal, um
carregador do porto, acocorado ali. Num gesto estpido dos lbios grossos, ele parecia mastigar
algo. Seu olhar velado se perdia ao longe. Ele havia mascado haxixe e estava perdido em vises
selvagens. Levantei-me, dei-lhe um soco nas costas e sa correndo. As janelas das casas perto do
porto me fitavam. Quebrei uma delas com os ps, ouvi o rudo do vidro se partindo e vi um rosto
persa numa careta de susto.
Na neblina, uma barriga avanou diante de mim. Aquela imagem da obesidade humana me
enfureceu. Investi de cabea contra a barriga. Era macia e gorda. Uma voz espontnea e cordial
disse:
 Boa noite, Ali Khan!
Ergui o rosto e vi Nachararian, que sorria para mim.
 Para o diabo!  gritei, e j ia seguir, apressado. Ele me deteve:
 Meu amigo, por que tanta raiva? No quer conversar um pouco?
Afi e Nino
Sua voz era compreensiva. De repente, eu me senti muito cansado. Parei, transtornado e pingando
suor.
 Vamos ao Filiposianz  disse ele. Concordei com um aceno de cabea. Para mim, dava no
mesmo. Nachararian me conduziu pela mo, ao longo da rua Bariatinski, at o grande caf. Quando
nos acomodamos nas poltronas fundas, ele disse, compassivo:
  o amok, o amok do Cucaso. Provavelmente a culpa  desse mormao. Ou ser que voc tem
algum motivo especial, Khan, para sair correndo como um louco?
O estabelecimento tinha mveis de estofo macio e tapetes de tecido vermelho. Pus-me a bebericar o
ch quente e contei-lhe que, naquele dia, eu telefonara para a casa de Nino, a fim de marcar visita.
Quando cheguei, Nino se esgueirou para fora de casa, constrangida. Beijei a mo da princesa e
apertei a do prncipe. Falei sobre a antiguidade e as posses de minha famlia. Pedi a princesa Nino
Kipiani em casamento num russo que o prprio czar invejaria.
 E o que aconteceu ento, meu amigo?  Nachararian parecia muito interessado.
 O que aconteceu? Escute.
Imitando a atitude do prncipe, falei com um leve sotaque georgiano:
 Meu querido filho, estimado Khan! Acredite que eu no poderia desejar um marido melhor
para minha filha. Um homem com seu carter saberia fazer uma mulher feliz. Mas pense bem...
Nino  to jovem ainda. O que sabe ela do amor? Nem terminou a escola. No vamos agora imitar
os indianos, que casam suas filhas ainda crianas. E depois, pense nas diferenas entre vocs, em
termos de religio, educao, origem. Digo isso tambm em seu interesse. Com certeza seu pai ser
da mesma opinio. E os tempos atuais, esta guerra terrvel, quem sabe o que vai ser de ns todos?
Eu tambm me preocupo com a felicidade de Nino. Sei que ela ama voc, ou pelo menos acredita
amar. No serei um estorvo para a
100
Kurmn Sauf
felicidade de minha filha. Mas digo-lhe apenas isto: vamos esperar que a guerra acabe. Vocs dois
estaro mais velhos. Se o seu sentimento ainda for to forte como agora, voltamos a discutir o
assunto.
 E o que pretende fazer, Khan?  perguntou Nachararian.
 Vou raptar Nino e lev-la at a Prsia.  impossvel engolir essa desfeita. Dizer no a um
Chirvanchir! Quem ele pensa que ? Sinto-me desonrado, Nachararian. A casa Chirvanchir  mais
antiga que a dos Kipianis. No reino do x Ag Mohammed, devastamos toda a Gergia. Naquele
tempo, qualquer Kipiani ficaria feliz em dar a mo de sua filha a um Chirvanchir. E o que ele quer
dizer com diferena de religio? Por acaso cristos so melhores que muulmanos? E minha honra?
Meu prprio pai vai rir de mim. Um cristo me recusou sua filha. Ns, muulmanos, somos lobos
que perderam os dentes. H cem anos...
Calei-me, sufocado pela fria. Na verdade, eu falara demais. O prprio Nachararian era cristo.
Tinha todos os motivos para estar ofendido. Mas no estava:
 Compreendo sua raiva. Mas o pai de Nino no recusou a mo da filha.  claro que esperar pelo
fim da guerra seria ridculo. Ele no consegue aceitar o fato de que a filha j est bem crescida.
No sou contra a idia de rapt-la.  um recurso antigo e comprovado para acertar as coisas, bem
de acordo com as tradies. Mas s deve ser usado em caso de extrema necessidade. Se algum
explicar ao prncipe a importncia cultural e poltica desse casamento, tenho certeza de que ele vai
ceder.
 Mas quem vai falar com o prncipe?
Com a mo larga, Nachararian golpeou o peito e exclamou:
 Eu falo com ele! Pode confiar em mim, Khan. Encarei-o, espantado. O que pretendia aquele
armnio?
Pela segunda vez ele interferia em minha vida. Talvez procurasse a simpatia
Ati e Nino   ( 101

dos muulmanos, sabendo que os turcos entrariam na cidade. Ou talvez planejasse
seriamente uma Aliana dos Povos do Cucaso. Para mim, dava no mesmo. Obviamente,
Nachararian era um aliado. Estendi-lhe a mo. Ele a apertou:
 Deixe comigo. Vou mant-lo informado. E nada de rapto. S em ltimo caso.
Levantei-me. De repente, tive a sensao de que podia confiar naquele homem gordo. Abracei-o e
sa do caf. Quando comecei a andar pela rua, algum me alcanou. Volteime. Era Suleiman Ag,
um velho amigo de meu pai. Ele tambm estivera sentado no caf. Ps a mo pesada em meu
ombro e disse:
 Que vergonha, um Chirvanchir abraando um armnio!
Estremeci, sem reagir. Mas ele j tinha desaparecido na noite enevoada.
Segui meu caminho. Que bom, pensei, no ter contado a meu pai o motivo da visita aos Kipianis.
Direi apenas que ainda no conversei com eles.
Quando, ao voltar para casa, pus a chave na fechadura, abanei a cabea, pensando: Como 
estpido esse dio cego contra os armnios.
Nas semanas seguintes, minha vida girou em torno da caixa preta do telefone. Aquele objeto
informe com a grande manivela ganhou de repente uma importncia de que eu no suspeitava.
Sentado em casa, eu resmungava algo incompreensvel quando meu pai perguntava por que ainda
no pedira a mo de Nino. s vezes, o monstrinho preto fazia soar a campainha. Eu atndia e a voz
de Nino me transmitia as ltimas notcias do campo de batalha:
  voc, Ali? Escute: Nachararian est sentado na sala com mame, conversando sobre os
poemas do av dela, o poeta Iliko Tchavtchavadze.
102
Kutean Snict
E um pouco mais tarde:
 Ali, est ouvindo? Nachararian diz que Rustaveli e a poca de Tamar sofreram forte influncia
da cultura persa.
E depois:
 Ali Khan! Nachararian est tomando ch com papai. Ele acaba de dizer: A magia desta cidade
reside na comunho mstica entre suas raas e povos.
E meia hora mais tarde:
  impressionante como esse homem tem sabedoria. Agora ele disse: Na bigorna de Baku ser
forjada a raa do Cucaso pacificado.
Dei uma risada e pus o fone no gancho. E assim acontecia todos os dias. Nachararian visitava os
Kipianis, comia e bebia com eles. Nas excurses que faziam juntos, ele dava conselhos sobre
assuntos ora msticos, ora prticos. Abismado, eu acompanhava pelo fio do telefone aquela
demonstrao de esperteza armnia:
 Nachararian disse que a lua foi a primeira forma de dinheiro. As moedas de ouro e seu poder
sobre os homens foram conseqncia do antigo culto da lua praticado pelos povos do Cucaso e do
Ir. No consigo mais ouvir tanta besteira, Ali Khan! Venha at o jardim.
Fui at o jardim. Encontrei Nino junto ao velho muro da fortaleza. Ela apoiou o corpo esguio na
pedra roda pelo tempo. Contou que a me a fizera jurar que nunca se entregaria a um selvagem
muulmano. O pai lhe dissera, num tom ao mesmo tempo de ameaa e brincadeira, que eu a
trancaria no harm. E a pequena Nino teria respondido, rindo mas tambm com leve tom de
ameaa: Cuidado, ele  capaz de me raptar. E o que ser ento?
Afaguei-lhe os cabelos. Eu conhecia minha Nino. Ela sempre consegue o que quer, mesmo quando
no sabe exatamente o que quer.
 A guerra pode durar mais dez anos  resmungou ela.   terrvel essa indeciso de meu pai!
Ai e Nino
103
 Voc me ama tanto assim, Nino? Os lbios dela brilhavam.
 Somos um do outro. Mas meus pais esto entre ns. Eu teria que ser to velha e gasta quanto
essa muralha, para ceder a eles. Alis... amo voc de verdade. Apenas tome cuidado. Nem pense em
me raptar!
Ela se calou, pois no era possvel beijar e falar ao mesmo tempo. Constrangida, esgueirou-se para
casa, e a brincadeira do telefone recomeou:
 Ali Khan, Nachararian diz que um primo lhe escreveu uma carta de Tbilisi. Segundo a carta, o
governador teria afirmado que casamentos mistos so a integrao fsica entre Oriente e
Ocidente. Voc entende alguma coisa disso?
No, eu no entendia. Andando pela casa como um vadio, no dizia nada. Minha prima Aiche, que
estudava na mesma classe de Nino, procurou-me para contar que Nino levara cinco notas
Insuficiente em trs dias. Todos concordaram em que eu era responsvel por aquelas notas. Por
isso, devia esquecer o futuro de Nino, para pensar em suas lies. No disse nada, envergonhado, e
fui jogar nardi com a prima. Ela ganhou e prometeu ajudar Nino na escola. De novo tocou o
telefone:
  voc? Esto conversando sobre poltica e economia h horas. Nachararian diz que sente inveja
dos muulmanos, que podem investir seu dinheiro comprando terras na Prsia. Quem sabe o
destino da Rssia? Talvez tudo isso desmorone. Mas s muulmanos tm permisso para comprar
terras na Prsia. E ele sabe, de fonte segura, que metade de Gilian j pertence  casa Chirvanchir.
Propriedades no exterior so a melhor forma de se proteger contra a incerteza poltica na Rssia.
Meus pais parecem impressionados. Mame disse que tambm existem muulmanos com uma
cultura espiritual.
Dois dias depois, a partida de xadrez jogada pelo armnio estava ganha. Nino soluava e ria ao
telefone:
 Meus pais concordam em nos dar a bno. Amm!
104
Kurban Said
 Mas seu pai tem de telefonar para mim. Afinal, ele me ofendeu.
 Deixe que eu cuido disso.
E assim aconteceu. A voz do prncipe era suave e conciliadora:
 Examinei o corao de minha filha. Os sentimentos dela so sinceros e puros. Seria um pecado
se opor a eles. Venha nos visitar, Ali Khan.
Fui at l. A princesa me beijou, chorando. O prncipe me recebeu com uma pose solene. Sua
concepo do casamento era bem diferente da de meu pai. Para ele, o casamento consistia na
confiana e no respeito mtuos. Homem e mulher deviam ajudar-se com palavras e atos. E nunca
deviam esquecer que so pessoas de direitos iguais, com uma alma livre. Jurei solenemente que no
obrigaria Nino a usar vu e que no manteria um harm. Nino entrou no salo e eu lhe beijei a
testa. Ela afundou a cabea nos ombros, como um passarinho em busca de proteo.
 Mas essa unio ainda no deve ser tornada pblica  disse o prncipe.  Primeiro Nino tem de
terminar a escola. Estude bastante, minha filha. Se voc no passar, ter de esperar mais um ano.
Nino ergueu as sobrancelhas finas, que pareciam desenhadas a bico de pena:
 No se preocupe, pai, serei aprovada. Ali Khan vai me ajudar na escola e no casamento.
Quando sa da casa, vi o carro de Nachararian diante da porta... Seus olhos saltados brilhavam.
 Nachararian  exclamei  , devo lhe dar um haras de presente ou uma aldeia no Daguesto?
Ser que prefere uma condecorao persa ou uma plantao de laranjas em Enseli?
Ele me deu um tapinha nos ombros:
 Nem uma coisa nem outra  disse ele.  Para mim basta a sensao de ter corrigido o destino.
Ai e Nino
105
Eu o olhei, sentindo gratido. Seguimos para fora da cidade, at a baa de Bibi-Eibat. Ali, mquinas
escuras torturavam a terra encharcada de leo. Assim como Nachararian interferia em meu destino,
a casa Nobel modificava as formas eternas da paisagem. Um enorme pedao de mar tinha sido
atrrado a partir da margem. Aquela superfcie j no pertencia ao mar, mas ainda no era terra
firme. Apesar disso, um taberneiro empreendedor j tinha instalado uma casa de ch na
extremidade do terreno recm-surgido. Ali nos sentamos e tomamos ch kiachta, que  o mais
saboroso do mundo, pesado como lcool. Excitado pela bebida aromtica, Nachararian falou
bastante dos turcos, que talvez invadissem Karabagh, e das matanas de armnios na sia Menor.
Eu mal o ouvia:
 No tenha medo  disse eu.  Se os turcos chegarem at Baku, eu o escondo em casa.
 No tenho medo  disse Nachararian.
As estrelas brilhavam longnquas por sobre o mar, alm da ilha Nargin. Um silncio tranqilo se
abatu sobre a margem:  O mar e a costa so como homem e mulher, unidos numa eterna disputa
um com o outro.  Quem dissera isso? Eu ou Nachararian? Eu j no sabia. Ele me levou para
casa. Fui ter com meu pai:
 Kipiani agradece pela honra que a casa Chirvanchir concede  sua famlia. Nino  minha noiva.
V amanh at l para discutir os detalhes.
Sentia-me muito cansado... e muito feliz.
Captufo 14
Os DIAS CORRIAM, viravam semanas e meses. Muita coisa acontecia no mundo, em meu pas e
em minha casa. As noites ficavam mais longas, folhas amarelas e tristes se espalhavam nas
alamedas do Jardim do Governador. Chuvas de outono escureciam o horizonte. Blocos de gelo
flutuavam no mar e eram esmagados de encontro aos penhascos da margem. Certa manh, uma
neve muito fina cobriu as ruas, e por um momento o inverno reinou em nossa cidade.
Depois, as noites voltaram a ser mais curtas.
Camelos chegaram do deserto, a passos tristes. Havia areia em seus plos amarelos, e seus olhos,
que tinham visto a eternidade, se voltavam para a distncia. Nas corcovas, carregavam canhes
cujos canos, amarrados de lado, pendiam com a ponta para baixo. Traziam tambm caixas com
munio e armas. Eram os despojos das grandes batalhas. Esfarrapados e feridos, prisioneiros
turcos desfilavam pela cidade em uniformes cinzentos. Marchavam em direo ao mar, e pequenos
vapores costeiros os transportavam at a ilha Nargin. Ali, eles morriam de disenteria, fome ou
saudade. Alguns fugiam e pereciam nos desertos salgados da Prsia ou nas guas plmbeas do mar
Cspio.
Bem longe daqui, a guerra bramia. Mas, de repente, estava cada vez mais prxima e palpvel. Trens
cheios de sol-
Afi e Nino
107
dados chegavam do norte. Os trens de feridos vinham do oeste. O czar destitura seu tio. Agora,
comandava sozinho um exrcito de dez milhes de soldados. O tio do czar passou a reinar no
Cucaso, e sua sombra escura e poderosa se estendeu sobre nosso pas. O gro-duque Nikolai
Nikolaievitch! Sua mo longa e ossuda penetrava at o corao da Anatlia. Seu ressentimento
contra o czar se traduzia nos ataques selvagens de seus batalhes. Atravessando montanhas de gelo
e desertos de areia, o ressentimento do gro-duque se estendeu at Bagd, Trebizonda e Istambul.
O Longo Nikolai, era como o chamavam as pessoas, comentando assustadas a fria de sua alma,
a loucura sombria do guerreiro impiedoso.
Pases sem conta aderiram ao conflito. A frente de guerra se estendia do Afeganisto at o mar do
Norte. Os nomes dos monarcas, pases e generais aliados cobria as colunas dos jornais como
moscas venenosas sobre o cadver dos heris.
E era vero de novo. Um calor trrido se derramava na cidade, o asfalto afundava sob os passos dos
pedestres. As vitrias eram comemoradas a Oriente e Ocidente. Enquanto isso, Nino estava de p
na sala de exames do Colgio de Santa Tamar. Os professores testavam seus conhecimentos de
equaes matmticas, citaes clssicas e fatos histricos. Nos momentos de desespero, ela
arregalava os grandes olhos georgianos numa splica.
Eu vivia pelas casas de ch, nos cafs, nas casas dos amigos e em minha prpria casa. Muitas
pessoas me criticavam por causa da amizade com o armnio Nachararian. O regimento de Ilias Beg
ainda estava parado na cidade, praticando as regras da arte militar no ptio empoeirado da caserna.
As peras, os teatros e os cinemas continuavam abertos. Muita coisa tinha acontecido no mundo,
no pas e em casa, mas nada tinha mudado.
Quando Nino me procurava, suspirando sob o peso do saber, minhas mos tocavam sua pele fresca
e lisa. Os
108
Kmdan Saief
olhos pareciam fundos e cheios de curiosidade medrosa, amos ao Clube Municipal, ao teatro ou a
um baile. Ilias Beg, Mehmed Haidar, Nachararian e at mesmo o beato Seid Mustafa nos
acompanhavam. As amigas do Colgio de Santa Tamar nos encaravam demoradamente, e a prima
Aiche nos contou que os professores, mostrando silenciosa boa vontade para com a futura senhora
Chirvanchir, escreviam no caderno de classe um Regular aps o outro.
Quase nunca estvamos sozinhos. Os amigos nos circundavam como uma parede alta de solicitude.
Nem sempre se davam bem entre eles. Quando Nachararian, gordo e rico, sorvia seu champanha e
falava sobre o amor recproco dos povos do Cucaso, Mehmed Haidar disse, com expresso
sombria:
 Acho, senhor Nachararian, que no precisa se preocupar com isso. De qualquer forma, depois da
guerra sobraro poucos armnios.
 Mas Nachararian ser um deles!  exclamou Nino. Nachararian se calou, sorvendo seu
champanha. Algum me contara que ele planejava seriamente mandar todo o seu dinheiro para a
Sucia.
Nada daquilo me dizia respeito. Quando pedi a Mehmed Haidar que fosse mais gentil com
Nachararian, ele franziu a testa e disse:
 No suporto esses armnios, sabe Deus por qu. Na noite do baile de formatura, Nino estava
radiante. Levei-a para casa e o velho Kipiani disse:
 Agora vocs esto noivos. Faa as malas, Ali Khan. Viajaremos para Tbilisi. Quero apresent-lo
 minha famlia.
E foi assim que viajamos para Tbilisi, a capital da Gergia.
Tbilisi parecia uma floresta. Porm, cada rvore tinha seu prprio nome: era um tio, uma tia, um
primo, uma prima. No era fcil encontrar o caminho. Nomes que soa-
Afi e Nino
vam como ao antigo giravam no ar: Orbeliani, Tchavtchavadze, Zereteli, Amilachvari, Abachidze.
Nos arredores da cidade, no Jardim Didube, a famlia Orbeliani deu uma festa em homenagem ao
novo primo. Msicos georgianos tocaram o Mravaliaver, ou Cano de guerra, e a selvagem Lilo
da Chevsria. Um primo de Kutai chamado Abachidze cantou a Mgali delia, ou Cano da
tempestade, dos montes Imereti. Um tio danou a Davlur. Um velho de barbas brancas saltou no
tapete que cobria o verde gramado e ficou paralisado na pose teatral da Bukhna. A festa durou a
noite inteira. Quando o sol surgiu devagar por trs das montanhas, os msicos entoaram o hino
Levantai-vos, rainha Tamar, a Gergia chora por vs. Absolutamente imvel, eu estava sentado 
mesa, ao lado de Nino. Espadas e punhais rebrilhavam diante de ns. A dana das facas georgiana,
executada ao alvorecer por um grupo de primos, parecia uma cena de teatro, irreal e longnqua. Eu
ouvia as conversas dos vizinhos. Soavam como ecos de sculos passados:
 No reino de Saakadze, um Zereteli defendeu Tbilisi das invases de Gngis Khan.
 Acho que sabe que ns, os Tchavtchavadzes, somos mais antigos que a dinastia real dos
Bagrations.
 O primeiro Orbeliani? Veio da China h trs mil anos. Era filho do imperador. Muitos
Orbelianis ainda tm os olhos puxados.
Intimidado, eu olhava em torno. Em comparao com aquelas famlias, o que significavam os
poucos Chirvanchirs que tinham passado para a eternidade antes de mim? Nino me consolou.
 No fique triste, Ali Khan. Claro que as famlias de meus primos so muito antigas e nobres,
mas pense: onde estavam os antepassados deles quando o seu conquistou Tbilisi?
No disse nada, mas fiquei muito orgulhoso. Desde j, rodeada pelo prprio cl, Nino se
comportava como a esposa de um Chirvanchir. Olhei para ela, agradecido.
110
Kurban Said
O vinho tinto da Gergia era como uma chama lquida. Hesitante, ergui o copo para brindar  casa
Orbeliani. Uma velha inclinou-se diante de mim e disse:
 Beba tranqilo, Ali Khan. Este vinho  puro, pois Deus est nele. Poucos sabem disso. Qualquer
outra forma de embriaguez vem do Diabo.
O dia estava bem claro quando voltamos para a cidade. Eu queria ir para o hotel. Um primo ou tio
me deteve:
 Ontem  noite, o senhor foi hspede da casa Orbeliani. Agora  a minha vez de convid-lo.
Tomaremos o caf da manh em Purgvino. E no almoo receberemos nossos amigos.
Eu era prisioneiro da nobreza georgiana.
Foi assim ao longo de uma semana inteira. Vinho tinto, carneiro assado e queijo motali a toda hora.
Os primos se revezavam como soldados na frente de batalha da hospitalidade georgiana. S ns
dois ramos os mesmos  Nino e eu. Eu admirava a resistncia de Nino. Ao cabo daquela semana,
estava to fresca como o primeiro orvalho da primavera. Os olhos sorriam e os lbios no se
cansavam de conversar com primos e tias. S uma rouquido quase imperceptvel revelava que ela
tinha danado e bebido ao longo de dias e noites, quase sem dormir.
Na manh do oitavo dia, os primos Sandros, Dodiko, Vamech e Soso entraram em meu quarto.
Escondi-me embaixo da coberta como um coelho assustado.
 Ali Khan  disseram eles sem piedade  , hoje a famlia Djakeli quer convid-lo. Vamos para
a residncia deles em Kadjori.
 No sou convidado de ningum  respondi de mau humor.  Hoje se abriro diante de mim,
pobre mrtir, os portais do Paraso. O arcanjo Miguel com sua espada chamejante me deixar
entrar, pois morri na Senda da Virtude.
Os primos se encararam uns aos outros, rindo alto. Ento, disseram uma nica palavra:
A/i c Nino
111
 Enxofre.
 Enxofre?  repeti.  O inferno est cheio de enxofre. Mas eu vou para o cu.
 No  disseram os primos , enxofre  o que lhe convm.
Endireitei-me na cama. Minha cabea estava pesada. Os membros pendiam lassos, como se no
fizessem parte do corpo. Olhei no espelho e vi um rosto plido, de cor meio esverdeada e olhar sem
brilho.
 Sim  disse eu , chama lquida,  mesmo.  Pensei no vinho tinto.  Eu mereci. Um
muulmano no pode beber.
Arrastei-me para fora da cama, gemendo como um velhinho. Os primos tinham os mesmos olhos de
Nino e seu talhe esguio e flexvel. Os georgianos so como coras nobres, perdidas na floresta
racial dos povos asiticos. Nenhuma outra raa do Oriente tem essa graa, essa elegncia dos
gestos, essa alegria de viver e o hbito saudvel da indolncia.
 Vamos avisar Nino  disse Vamech.  Daqui a quatro horas seguimos para Kadjori, quando
voc se sentir bem de novo.
Ele saiu do quarto e ouvi sua voz ao telefone:
 Ali Khan adoeceu de repente. Vamos trat-lo com enxofre. Daqui a quatro horas estar bom de
novo. A princesa Nino deve ir na frente com a famlia. Iremos depois. No, nada grave. S est um
pouco indisposto.
Vesti a roupa com esforo. Sentia tontura. A hospitalidade georgiana era muito diferente das
recepes quietas e dignas na casa de meu tio em Teer. Ali, os hspedes tomavam ch forte e
conversavam sobre poetas e sbios. J em Tbilisi as pessoas tomavam vinho, danavam e riam.
Eram ao mesmo tempo flexveis e resistentes, como uma mola de ao. Aquele seria o Portal da
Europa? No, claro que no. Formava parte de ns e, no entanto, era to diferente do resto da sia!
Um portal que conduz para onde? Talvez para
112
o ultimo estagio da sabedoria, que se traduz em alegria infantil e descuidada. Eu no sabia. Estava
exausto. Quase cambaleando, desci a escada. Entramos no carro.
 Para as termas!  gritou Sandros. O cocheiro fez estalar o chicote. O carro se dirigiu ao bairro
chamado Maidan e parou diante de um grande edifcio de teto abobadado. Diante da porta, avistei
um homem seminu, de corpo esqueltico Perdidos no nirvana, seus olhos nos penetravam sem nos
ver.
 Hamard)oba, mekisse  exclamou Sandros.
O porteiro voltou a conscincia. Inclmou-se e disse
 Hamardjoba, tavadi. Bom dia, prncipes. Ento, ele nos conduziu at o saguo das grandes termas Bebutov.
O saguo era espaoso e quente e tinha muitos bancos de pedra, sobre os quais descansavam corpos
nus. Tiramos as roupas Atravessamos um corredor e penetramos em outro recinto Ali, viam-se
aberturas quadradas no cho, que tinham sido enchidas com agua sulfurosa e fumegante. Como em
sonho, ouvi a voz de Sandros:
 Em Mztecha, certa vez um rei foi a caa com seu falco. O falco perseguia uni galo silvestre. O
rei esperou. Nem falco nem galo voltaram. O rei saiu a sua procura e chegou a um pequeno
bosque Ali, viu um riacho de guas cor de enxofre O galo silvestre se afogara no riacho, seguido
pelo falco E assim o rei descobriu as fontes de enxofre, onde assentou a pedra fundamental da
cidade de Tbilisi. Este lugar onde estamos e a fonte do galo silvestre, e o bosque ficaa Ia fora, em
Maidan. Tbilisi comeou com o enxofre, e pelo enxofre ha de terminar.
Vapor e cheiro de enxofre enchiam o recinto abobadado Entrei no banho quente como se fosse uma
mistura de ovos podres. O corpo dos primos brilhava de umidade Esfreguei o peito com a mo O
enxofre penetrou-me a pele. Naquela fonte haviam mergulhado todos os conquistado-
Afi e Nino
113
rs e guerreiros que invadiram Tbilisi ao longo de dois milnios: Chvaresmir Djelal ed-Dm,
Tamerlo e Djagatai, filho de Gngis Khan. Os conquistadores se sentiam embriagados pelo
sangue, com os membros pesados. Entravam na fonte e o enxofre os aliviava de todo o peso do
sangue.
 Basta, Ali Khan, pode sair.
A voz dos primos interrompeu meu devaneio sobre os conquistadores e suas termas. Arrastei-me
para fora da gua, fui at a sala adjacente e deitei-me enfraquecido no banco de pedra.
 Mekisse  chamou Sandros.
Descarnado como um esqueleto e com os olhos perdidos no nirvana, o massagista se aproximou.
Estava nu e usava um turbante no crnio liso. Deitei-me de barriga para baixo. Com as pernas nuas,
o mekisse pulou sobre minhas costas. Pisoteou-a agilmente como um danarino sobre um tapete.
Em seguida, seus dedos penetraram em minha carne como ganchos afiados. Ele deslocou meus
braos, fazendo estalar os ossos. De p ao redor do banco de pedra, os primos davam palpites:
 Desloque os braos mais uma vez, mekisse, ele esta muito doente.
 Pule de novo sobre a coluna, muito bem, e agora belisque com fora do lado esquerdo.
Aquele tratamento devia ser bem dolorido, mas eu no sentia nada. Continuei deitado, coberto pela
espuma branca do sabo, entregue aos golpes duros e elsticos do mekisse. Tinha a sensao de
que, lentamente, todos os meus msculos se distendiam.
 Basta  disse o mekisse, voltando a sua pose exttica de profeta. Eu me levantei. Meu corpo
doa. Fui at outro recinto e mergulhei no jato gelado de enxofre do segundo banho. Sentia a
respirao presa. Mas os membros se estiraram de novo, cheios de novas energias Os primos e o
mekisse olharam para mim em expectativa.
114
 MI i Saii
 Fome  disse eu com dignidade, sentando-me no banco com as pernas cruzadas.
 Ele est curado!  berraram os primos.  Depressa, um melo, queijo, legumes, vinho!
O tratamento terminara.
Um banquete foi servido no vestbulo do edifcio das termas. Todo o meu cansao e a minha
fraqueza tinham desaparecido. A carne vermelha e perfumada do melo gelado tirou-me da boca o
gosto de enxofre. Os primos mordiscavam o queijo branco.
 Sabe de uma coisa...  disse Dodiko, sem terminar a frase. Aquele Sabe de uma coisa j dizia
tudo: o orgulho de ter uma fonte de enxofre na cidade natal, a consternao pelo estrangeiro que
sucumbira  hospitalidade georgiana, e a prova cmplice e carinhosa de que ele, Dodiko, perdoava
as dores do primo muulmano.
Nosso crculo aumentou. Os vizinhos se juntaram a ns, nus e armados de garrafas de vinho.
Prncipes e seus credores, servos, parasitas, eruditos, poetas e proprietrios de terras nas montanhas
se sentavam juntos pacificamente, num alegre retrato da igualdade social na Gergia. Aquilo j no
era uma casa de banhos, era um clube, um caf ou um comcio de homens nus e brincalhes, com
olhos sorridentes e despreocupados. Porm, eu ouvia aqui e ali algumas palavras srias, cheias de
pressentimentos sombrios.
 Os osmanlis chegam em breve  disse um gordo de olhos midos  , o gro-duque no vai
ocupar Istambul. Ouvi dizer que um general alemo construiu um canho em Istambul. Se ele for
disparado, deve atingir precisamente a cpula da Catdral de Sio, em Tbilisi.
 Est enganado, prncipe  disse um homem com rosto de abbora  , o canho ainda nem foi
construdo. Por enquanto  s um projeto. E, mesmo que seja construdo, no poder atingir Tbilisi.
Todos os mapas em que os alemes se baseiam esto errados. Foram traados pelos russos.
Ali e Nino   (
Antes da guerra. O senhor entende? Mapas russos. Acha que podem estar certos?
Algum suspirava num canto. Virei o rosto e vi uma barba branca e um longo nariz recurvo.
 Pobre Gergia  suspirou o dono da barba , estamos espremidos entre as duas lminas de
uma tenaz em brasa. Se os osmanlis vencerem, ser o fim do Pas de Tamar. Se os russos
vencerem... o que ser ento? O Czar Plido atingiu seu objetivo, mas no nosso pescoo se cravam
os dedos do gro-duque. Desde j nossos filhos esto morrendo na guerra, os melhores entre os
melhores. E depois? O que sobrar ser esmagado pelos osmanlis, pelo gro-duque ou qualquer
outra pessoa, talvez uma mquina, talvez um americano. Parece um mistrio: nosso fogo guerreiro
e seu apagar rpido.  o fim do Pais de Tamar. Vejam s: os guerreiros so baixos e franzinos, a
colheita  pouca e o vinho  azedo.
O dono da barba se calou, ofegando baixinho. Ns continuvamos em silncio. De repente, uma
voz medrosa e opressa murmurou:
 Mataram o nobre Bagration. Ele tinha se casado com a sobrinha do czar, e os russos no o
perdoavam por isso. O prprio czar enviou-o para o Regimento Erivan, na frente de batalha.
Bagration lutou como um leo e caiu com dezoito balas no corpo.
Os primos bebericavam vinho. Sentado com as pernas cruzadas, eu olhava fixo diante mim.
Bagration, pensei,  mais antiga dinastia da cristandade. O velho de barba tem razo. A Gergia
definha entre as lminas de uma tenaz em brasa.
 Mas ele deixou um filho  completou outro homem , Teimuras Bagration, o Verdadeiro Rei.
Algum o protege.
Todos se calaram. O rnekisse continuava de p, junto a parede. Dodiko se espreguiou e bocejou
com uma expresso de xtase:
116
urean Said
  uma beleza  disse ele  o nosso pas! O enxofre e a cidade, a guerra e o vinho tinto. Vejam
como corre o rio Alasan pela plancie.  bom ser georgiano, mesmo que a Gergia tenha os dias
contados. O que acabaram de dizer parece sem esperana. Mas quando foi diferente no Pas de
Tamar? E apesar disso os rios correm, as videiras crescem e o povo dana.  uma beleza a nossa
Gergia. E sempre ser uma beleza, apesar de toda a falta de esperana.
Ele se ergueu, nu e esbelto, de pele macia e aveludada, descendente de cantores e heris. No canto,
o dono da barba branca sorriu, condescendente:
 Por Deus, enquanto tivermos jovens assim... Vamech inclinou-se em minha direo:
 Ali Khan, no esquea. Hoje ser hspede da casa Djakeli, em Kadjori.
Levantamo-nos e fomos embora. O cocheiro chicoteou os cavalos. Vamech disse:
 Os Djakelis descendem da antiga dinastia real dos. . . Eu sorri, relaxado e satisfeito.
ESTVAMOS SENTADOS NO CAF MEFISTO, na rua Golovinski, Nino e eu. Diante de ns,
vamos o monte de Davi com o grande mosteiro. Os primos tinham nos concedido um dia de paz.
Nino olhava para o mosteiro l em cima. Eu sabia em que ela estava pensando. No alto do monte de
Davi havia um tmulo, que tnhamos visitado. Aleksandr Griboiedov, poeta e ministro de Sua
Majestade, o czar, estava enterrado ali. Sobre o tmulo, a inscrio:
Teus feitos foram inesquecveis, mas por que o amor de Nino te sobreviveu?
Nino? Sim. Ela se chamava Nino Tchavtchavadze e tinha dezesseis anos quando o ministro e poeta
se casou com ela. Nino Tchavtchavadze, tia-av da Nino que estava sentada a meu lado. Estava
com dezessete anos quando o povo de Teer cercou a casa do ministro russo.
7a Ali salavat, Ali seja louvado!, o povo gritava. O ministro s tinha uma espada curta e uma
pistola. Um ferreiro da rua do Sulto Suli esmagou com o martelo o peito do ministro. Depois de
alguns dias, encontraram restos de carne humana nos arredores de Teer. E uma cabea, que os
cachorros j tinham rodo. Foi tudo o que restou de Aleksandr Griboiedov, poeta e ministro do c/ar.
O x Feth Ali, o Kadiar, ficou muito satisfeito com isso, e tambm Abas Mir-
118
Kwfwi Said
za, sucessor do trono. Um velho fantico e sbio chamado Mechi Ag recebeu uma grande
recompensa do x, e tambm um Chirvanchir, meu tio-av, ganhou terras em Gilian. Tudo isso
tinha acontecido h cem anos. Agora estvamos sentados no terrao do Caf Mefisto, eu, o
sobrinhoneto de Chirvanchir, e ela, a sobrinha-neta de Nino.
Devamos ser inimigos de sangue, Nino.  Apontei com a cabea para o mosteiro na montanha.
 Alguma vez mandar fazer uma lpide to bonita para mim?
 Talvez  disse Nino , se voc se comportar em vida.
Ela terminou de tomar o caf.
 Venha  disse ela , vamos caminhar pela cidade. Levantei-me. Nino gostava daquela cidade
como uma
criana gosta da me. Subimos a rua Golovinski at as ruelas da Cidade Velha. Diante da Catdral
de Sio, Nino parou. Entramos no ambiente escuro e mido. A catdral era muito antiga.
Construda em forma de cruz, com uma cpula pontuda, conservava as lembranas do sangue
derramado por aquela cidade. No altar, vimos uma cruz. Fora feita com a madeira de uma vide que
a santa Nino, Luz da Gergia, trouxera do Ocidente, para anunciar a chegada do Salvador do
Mundo. Nino se ajoelhou. Fez o sinal-da-cruz e olhou para a imagem de seus santos protetores. A
seguir murmurou:
 Santa Nino, perdoai-me.
 luz dos vitrais da igreja, vi seus olhos em lgrimas.
 Vamos sair  disse eu. Obediente, ela deixou a catdral. Continuamos nossa caminhada em
silncio. Ento perguntei:
 Por que pediu perdo  santa Nino?
 Por sua causa, Ali Khan.
A voz dela era triste e cansada. No era bom caminhar com Nino pelas ruas de Tbilisi.
 Por minha causa?
Ai e Nino
119
Estvamos em Maidan. Vamos georgianos sentados nos cafs ou andando pela rua. Em algum
lugar, msicos tocavam a zurna, e ao longe, abaixo de ns, o rio Kura espumava no leito estreito.
Nino olhou para a distncia como  procura de si mesma.
 Por sua causa  repetiu ento , e pelo que aconteceu entre ns.
Comecei a entender, mas mesmo assim perguntei:
 O qu?
Nino parou. Logo adiante, no final da praa, via-se a Catdral Khachveti. Cada pedra do templo era
como uma virgem  macia, suave e delicada. Nino disse:
 D uma olhada em Tbilisi. Por acaso voc v mulheres de vu? No. E sente o ar da sia? No.
 outro mundo. As ruas so largas e as almas so verdadeiras. Eu me sinto mais sbia quando
venho para Tbilisi, Ali Khan. Aqui no h beatos loucos como Seid Mustafa, nem tipos sombrios
como Mehmed Haidar. A vida  leve e alegre.
 Mas a Gergia est presa entre as duas lminas de uma tenaz em brasa, Nino.
 Mais um motivo.  Os ps dela retomaram o passo no calamento antiqussimo.  Mais um
motivo. Tamerlo destruiu Tbilisi sete vezes. Bandos de turcos, persas, rabes e mongis invadiram
o pas. Ns ficamos. Eles devastaram, violentaram, assassinaram a Gergia, mas nunca a possuram
realmente. Santa Nino veio do Ocidente com a Cruz de Videira, e por isso somos ocidentais. No
somos a sia. Somos o pas mais oriental da Europa. Voc no sente isso?
Ela andava depressa. Sua testa infantil se franziu:
 Resistimos contra Tamerlo e Gngis Khan, contra o x Abas, o x Tamasp e o x Ismail, e 
por isso que eu, sua Nino, estou viva. E agora vem voc, sem espada, sem elefantes de passos
pesados, sem guerreiros, mas no fundo um descendente dos xs sanguinrios. Minhas filhas tero
de usar vu e, quando a espada do Ir estiver afiada de novo, meus filhos e
rim i Said
netos devastaro Tbilisi pela centsima vez. Ah, Ali Khan, ns devamos nos mudar para o mundo
do Ocidente. Tomei-lhe a mo:
 O que quer que eu faa, Nino?
 Ah  exclamou ela , sou muito estpida, Ali Khan. Quero que voc ame as ruas largas e os
bosques verdes, quero que voc entenda mais do amor e no fique preso a vida inteira ao muro
podre de uma cidade asitica.  meu maior medo: daqui a dez anos voc estar vivendo em suas
terras em Gilian, devoto e astuto, e um dia acordar dizendo: Nino, voc  apenas um campo a ser
cultivado. Diga, por que voc me ama, Ali Khan?
Tbilisi deixava Nino confusa. Parecia intoxicada pelo ar mido das margens do rio Kura.
 Por que amo voc, Nino? Por causa de seus olhos, sua voz, seu perfume, seu jeito de andar. O
que mais quer? Amo tudo o que lhe diz respeito. O amor  o mesmo sentimento, na Gergia ou no
Ir. Neste mesmo lugar viveu ha mil anos o grande poeta Rustaveli. Ele cantou seu amor por santa
Tamar. E as canes se parecem com os rubaiats da Prsia. Sem Rustaveli no haveria a Gergia, e
sem a Prsia no haveria Rustaveli.
 Neste mesmo lugar...  disse Nino, pensativa.  Mas aqui viveu tambm Saiat Nova, o grande
poeta que o x mandou decapitar porque cantava o amor dos georgianos.
Impossvel argumentar com minha Nino. Ela se despedia da terra natal, e  na despedida que o
amor se manifesta. Suspirou:
 Voc ama tudo em mim, Ali Khan: meus olhos, meu nariz, minha testa. Porem, esqueceu algo.
Tem amor pela minha alma tambm?
 Sim, pela sua alma tambm  respondi, cansado.
Era estranho. Eu tinha rido quando Seid Mustafa dissera que as mulheres no tm alma. Mas,
quando Nino me pediu que descobrisse sua alma, senti-me irritado. O que e a
A/1 e Nino
121
alma de uma mulher? Uma mulher deve se alegrar quando o marido no tenta penetrar no abismo
sem fundo de sua alma.
 E voc, por que me ama, Nino?
De repente, ela comeou a chorar em plena rua. Grandes lgrimas infantis lhe escorriam pela face:
 Perdoe-me, Ali Khan. Eu amo voc tal como , mas sinto medo do mundo em que vive. Sou uma
tola, Ali Khan. Venho passear na rua com voc, meu noivo, e o acuso por todas as campanhas de
Gngis Khan. Perdoe sua Nino.  tolice achar que  responsvel por todos os georgianos que os
muulmanos mataram. Nunca mais falo desse jeito. Mas veja: eu, sua Nino, tambm sou um
pedacinho minsculo daquela Europa que voc odeia, e aqui em Tbilisi este sentimento  mais
forte. Eu o amo, e voc me ama. Mas eu amo bosques e prados, e voc, montanhas, pedras e areia,
porque  um filho do deserto. Por isso tenho medo de voc, de seu amor e seu mundo.
 E como vamos fazer?  perguntei, atnito.
 Como vamos fazer?  Ela secou as lgrimas, voltou a sorrir e inclinou a cabea de lado.
Como vamos fazer? Ora, dentro de trs meses nos casamos, o que mais voc quer?
Nino  capaz de chorar e sorrir, amar e odiar ao mesmo tempo. Sem transio, ela me perdoou por
todas as campanhas de Gngis Khan e voltou a sentir amor por mim. Pegou-me pela mo e
arrastou-me at o labirinto do bazar de Tbilisi, passando pela ponte Veri. Era um pedido simblico
de desculpas. O bazar  a nica mancha oriental no traje europeu de Tbilisi. Gordos vendedores de
tapetes, armnios e persas, estendiam ali o luxo colorido dos tesouros do Ir. Com suas inscries
sbias, taas de lato de brilho amarelo enchiam as barracas. Uma moa curda, de olhos claros e
perplexos, lia o futuro nas mos. Ela prpria parecia admirada a respeito de seu dom. Na entrada
das tavernas, desocupados de Tbilisi discutiam sobre Deus e o mundo, numa pose sria e
importante. Sentamos os cheiros penetrantes
122
Kwnm
da cidade, habitada por oitenta povos diferentes A tristeza de Nino se dissipou quando viu a
confuso colorida das ruas do bazar Comerciantes armemos, cartomantes curdos, cozinheiros
persas, padres da Ossetia, russos, rabes, mguches e indianos  todos os povos da sia se
encontram no bazar de Tbilisi. A sombra de uma barraca, tem inicio um tumulto Os comerciantes
correm para ver. Dois homens, um assino e um judeu, discutem violentamente. S conseguimos
ouvir
 Quando meus antepassados fizeram seus antepassados prisioneiros e os levaram para a
Babilnia      As pessoas em volta nem alto Nino n tambm n do judeu, do assino, do bazar, das
lagrimas que derramou no calamento de Tbilisi.
Continuamos a caminhar Mais alguns passos, e completamos o circulo Estamos de novo diante do
Caf Mefisto, na rua Golovmski
 Quer entrar mais uma vez?  perguntei, indeciso.
 No. Para comemorar as pazes, vamos visitar o Mosteiro de So Davi
Por uma das travessas do bazar, chegamos ao telefrico. Entramos no bondinho vermelho, que
lentamente se alou at o topo do monte de Davi Diante de nossos olhos, a cidade se afundava, Ia
embaixo no vale, enquanto Nino me contava a historia da fundao do famoso mosteiro
 Ha muitos e muitos anos, so Davi vivia nesta montanha. E Ia embaixo, na cidade, vivia a filha
de um rei que se unira a um nobre em amor pecaminoso     O nobre abandonou a moa. Mas ela
estava grvida. Quando o pai lhe perguntou, furioso, o nome do culpado, a princesa teve medo de
trair o amante, e acusou so Davi O rei mandou trazer o santo ao palcio  Chamou a filha, e ela
repetiu a acusao  Ento, o santo apanhou seu cajado e o encostou no ventre da princesa. E um
milagre aconteceu  La dentro do ventre, ouviu-se a voz de uma criana que disse o nome do
verdadeiro culpado. O santo dirigiu preces  a Deus, e aparecera
A/i e Nino
12 
pariu uma pedra. E dessa pedra que brota a fonte de so Davi Mulheres que desejam filhos
mergulham o corpo na fonte sagrada.
Nino acrescentou, pensativa-
 Que bom, Ali Khan, que so Davi esta morto e seu cajado se perdeu1
Tnhamos chegado.
 Quer ir at a fonte, Nmo?
 Isso pode esperar um ano.
De p ao lado da muralha do mosteiro, olhamos para a cidade la embaixo. O vale do no Kura se
cobrira de uma neblina azulada. Cpulas de igrejas se projetavam como ilhas solitrias num mar de
pedra Para leste e para oeste estendiam-se parques de recreio, onde se reunia a vida mundana de
Tbilisi. Ao longe, erguia-se o escuro Castelo Mtech, que tinha sido residncia dos reis da Gergia,
e agora servia como masmorra do Imprio russo para prisioneiros polticos do Caucaso. Nino virou
o rosto. A viso daquele famoso castelo, lugar de tortura e morte, feria sua lealdade ao czar:
 Algum primo seu esta preso em Mtech, Nmo?
 No, mas voc merecia estar. Venha, Ali Khan.
 Para onde?
 Vamos visitar Gnboiedov
Contornamos a muralha do mosteiro e paramos diante da lapide carcomida:
Teus feitos foram inesquecveis, mas por que o amor de Nino te sobreviveu
Nino se inclinou e apanhou um pedregulho. Rapidamente, ela o pressionou contra a lapide e afastou
a mo. O pedregulho foi ao cho e rolou diante de nossos ps. Nino corou. Segundo uma velha
superstio de Tbilisi, quando uma moa pressiona uma pednnha contra a lapide mida e a pednnha
fica grudada por um instante, a moa devera se casar naquele mesmo ano. Mas o pedregulho de
Nino fora ao cho Olhei para o seu rosto constrangido e n
124  G
Saicf
 Est vendo? Trs meses antes de nos casarmos! Tem razo a mxima de nosso Profeta: No
acredites no que dizem as pedras mortas.  Sim  disse Nino. Voltamos para o telefrico.
 O que vamos fazer depois da guerra?  perguntou Nino.
 Depois da guerra? O mesmo que fazemos agora. Passear em Baku, visitar os amigos, viajar para
Karabagh e pr filhos no mundo. Uma vida e tanto.
 Mas quero conhecer a Europa.
 Claro! Vamos a Paris, a Berlim, um inverno inteiro.
 Sim, um inverno inteiro.
 Nino, nosso pas no lhe agrada mais? Se quiser, podemos viver em Tbilisi.
 Obrigado, Ali.  bondade sua. Vamos ficar em Baku.
 Nino, acredito que no existe cidade melhor que Baku.
  mesmo? Voc j visitou tantas cidades assim?
 No, mas se quiser daremos a volta ao mundo.
 E durante toda a viagem voc ter saudades do velho muro e das conversas com Seid Mustafa
sobre assuntos espirituais. Mas no importa. Eu amo voc.
 Sabe, Nino, eu realmente amo meu pas natal, cada pedra da cidade e cada gro de areia do
deserto.
 Eu sei. Mas como  estranho esse amor por Baku! Para os estrangeiros, nossa cidade  apenas
quente, cheia de p e encharcada de petrleo.
 Sim, porque so estrangeiros.
Ela enlaou meus ombros. Tocou minha face com os lbios:
 Mas quanto a ns, no somos estrangeiros, e nunca o seremos. Voc vai me amar para sempre,
Ali Khan?
 Para sempre, Nino.
O bondinho chegara  estao de embarque. Caminhamos de braos dados pela rua Golovinski. 
esquerda,
A/i e Nwo
vimos um parque amplo com grades de ferro arqueadas, formando belos desenhos. O porto estava
fechado. Dois soldados se mantinham de guarda, imveis e com a respirao presa como se fossem
de pedra. Sobre o porto gradeado, flutuava majestosamente a guia dupla imperial dourada. O
parque pertencia ao palcio do gro-duque Nikolai Nikolaievitch, governador do Cucaso nomeado
pelo czar. De repente, Nino parou.
 Veja  disse ela, apontando para o parque. Por trs das grades,  sombra da alameda de
pinheiros, caminhava devagar um homem alto e descarnado, de cabelos grisalhos. Ele se voltou em
nossa direo. Reconheci os olhos grandes do gro-duque, com sua expresso de loucura obsessiva.
O rosto era afilado. Os lbios estavam cerrados.  sombra dos pinheiros, ele parecia um animal
grande, nobre e selvagem.
 Em que esta pensando, Ali Khan?
 Na coroa do czar, Nino.
 A coroa assentaria bem sobre aqueles cabelos grisalhos. O que ele vai fazer?
 Dizem que pretende derrubar o czar.
 Venha, Ali Khan, estou com medo.
Ns nos afastamos da grade belamente trabalhada. Nino disse:
 Voc no devia maldizer o czar nem o gro-duque. Eles nos protegem contra os turcos.
 O gro-duque  uma das lminas da tenaz em brasa que oprime o seu pas.
 Meu pas? E o que me diz do seu?
 Para ns  diferente. No estamos presos numa tenaz. Estamos deitados numa bigorna, e o gro-
duque segura o martelo. Por isso ns o odimos.
 E vocs se entusiasmam com Enver Pax. Que bobagem! Enver nunca vai entrar em Baku. Ele
ser detido pelo gro-duque.
 Allah barif, s Deus sabe  respondi, conciliador.
Caytuo 16
As TROPAS DO GRAO-DUQUE estavam estacionadas em Trebizonda. Depois de conquistar
Erzerum, elas atravessaram as montanhas curdas em direo a Bagd. Ocuparam tambm Teer,
Tabriz e at a cidade sagrada de Meched. A sombra de Nikolai Nikolaievitch se espraiava sobre
metade da Turquia e da Prsia. O gro-duque convocou uma reunio dos nobres da Gergia e
declarou:
 Obedecendo s ordens do czar, no descansarei enquanto a cruz de ouro bizantina no
resplandecer com brilho novo sobre a cpula da Igreja de Santa Sofia.
A situao dos pases do Crescente era desastrosa. S os kotchis e os carregadores do porto ainda
acreditavam no poder dos osmanlis e na espada vitoriosa de Enver Pax. A Prsia j no existia, e
em breve a Turquia tambm iria sucumbir.
Meu pai andava muito calado e saa de casa com freqncia. s vezes ele se inclinava sobre mapas
e relatrios de guerra, murmurava os nomes das cidades conquistadas e ficava horas sentado,
imvel, segurando um misbaha de contas de mbar.
Eu visitava joalherias, floristas e livrarias. Mandava jias, flores e livros para Nino. Quando a
encontrava, por algumas horas desapareciam a guerra, o gro-duque e o Crescente ameaado.
Ai e Nino
Certa vez, meu pai me disse:
 Esteja em casa hoje  noite, Ali Khan. Convidei algumas pessoas. Vamos falar sobre coisas
importantes.
Havia constrangimento em sua voz, e ele desviou o olhar. Entendi do que se tratava e disse,
zombando:
 Eu no tive de lhe jurar, pai, que nunca me meteria em poltica?
 Preocupar-se com seu prprio povo no significa fazer poltica. Existem tempos, Ali Khan, em
que  dever de todos pensar nos assuntos do povo.
Naquela noite, eu tinha combinado ir  pera com Nino. Chaliapin deveria se apresentar. Nino
esperava por aquele acontecimento havia dias. Fui at o telefone e liguei para Ilias Beg.
 Ilias, estou ocupado hoje  noite. Pode acompanhar Nino at a pera? J comprei os ingressos.
Uma voz rabugenta respondeu:
 Mas o que voc est pensando? No decido sobre minha vida. Hoje  noite estou de planto,
junto com Mehmed Haidar.
Liguei para Seid Mustafa.
 Infelizmente no posso. Tenho um encontro com o grande imame Hadji Machsud. Ele veio da
Prsia e fica s alguns dias.
Liguei para Nachararian. Sua voz parecia constrangida.
 Por que no pode ir, Ali Khan?
 Temos visitas hoje  noite.
 Compreendo. Vo discutir a melhor maneira de matar todos os armnios. No  isso? Eu no
devia ir ao teatro numa poca em que meu povo se esvai em sangue. Mas, considerando que somos
amigos... e, alm disso, Chaliapin tem uma voz maravilhosa.
Finalmente!  nos momentos de aperto que se conhecem os verdadeiros amigos. Combinei com
Nino que Nachararian iria apanh-la e fiquei em casa.
Kureatt Said
s sete horas chegaram os convidados, exatamente aque es que eu esperava. Nosso salo, com seus
grandes tapetes e otomanas macias, abrigava s sete e meia um bilho de rublos, ou melhor,
homens cuja fortuna chegava a um bilho de rublos. No eram muitos, e eu os conhecia havia anos
Seinal Ag, o pai de Ilias Beg, foi o primeiro a entrar. Caminhava com as costas curvas e tinha um
olhar mido e velado. Sentou-se na otomana, ps a bengala ao lado e comeu lentamente, com ar
pensativo, um pouco de mel turco. Depois dele, dois irmos entraram no salo  Ali Assadullah e
Mirza Assadullah. O pai deles, o falecido Chamsi, lhes deixara doze milhes de rublos. Os filhos
tinham herdado tambm a inteligncia do pai e, alm disso, aprenderam a ler e a escrever. E assim
os milhes se multiplicaram. Mirza Assadullah amava o dinheiro, a sabedoria e a tranqilidade. Seu
irmo era como o fogo de Zaratustra: ardia sempre, mas no a ponto de se extinguir. Viajava com
freqncia. Amava guerras, aventuras e perigos. Contavam-se muitas histrias sangrentas de que
ele teria sido protagonista. O sombrio Burjat Sad, sentado ao lado dele, no gostava de aventuras.
Em compensao, gostava de mulheres. Era o nico de ns que tinha quatro esposas, sempre em
guerra umas com as outras. Essa situao o envergonhava, mas ele no podia fazer nada. Quando
lhe perguntavam quantos filhos tinha, respondia com melancolia: Quinze ou dezoito, como posso
saber, pobre de mim? E, quando lhe perguntavam sobre os milhes que possua, dava a mesma
resposta.
Sentado no outro canto do salo, lussuf Oghli lhe dirigia um olhar de reprovao e inveja. Tinha
uma nica esposa, no muito bonita, pelo que se dizia. No dia do casamento, ela ameaara:
 Se voc desperdiar seu smen com outras mulheres, corto as orelhas, o nariz e os seios delas. E
o que farei com voc no posso dizer agora.
Afi e Nino
129
A esposa descendia de uma famlia de guerreiros. Sua ameaa tinha de ser levada a srio. Por isso,
o coitado colecionava pinturas.
O homem que entrou no salo s sete e meia em ponto era muito baixo, muito magro e tinha mos
delicadas, com unhas pintadas de vermelho. Ns nos levantamos e o saudmos com uma
reverncia, por causa de seu infortnio. Alguns anos antes, morrera seu nico filho, Ismail. Em
homenagem a esse filho, o homem mandara construir uma casa suntuosa na rua Nikolai, em cuja
fachada tinha sido gravado o nome Ismail em grandes letras douradas. A casa fora doada a uma
instituio de caridade. O homem se chamava Ag Musa Nagi, e s devido ao peso de seus
duzentos milhes de rublos ns o tnhamos convidado para aquele encontro. Ele abandonara a f
muulmana. Tinha se convertido  seita do Bab, o herege que o x Nassr ed-Din condenara  morte.
Poucos dentre ns sabiam em que consistia o babismo. Mas ningum ignora que Nassr ed-Din
mandava enfiar agulhas em brasa sob as unhas dos babistas, quando no os matava pelo aoite ou
pelo fogo. Uma seita que mereceu tantos castigos s podia pregar idias nefastas.
s oito horas, todos os convidados estavam reunidos. Sentados ali, os bares do petrleo bebiam
ch, comiam doces e falavam sobre seus negcios prsperos, sobre suas casas, cavalos, jardins e
sobre o dinheiro que perdiam no feltro verde das mesas do cassino. E assim conversaram at as
nove horas, conforme as regras de boas maneiras. Depois disso, os criados levaram o ch e
fecharam as portas. Meu pai disse:
 Se o gro-duque vencer a guerra, no haver mais pases islmicos. A mo do czar ser pesada.
A ns ele deixar em paz, pois temos dinheiro. Mas mesquitas e escolas sero fechadas, e o idioma
ser proibido. Multides de estrangeiros entraro em nosso pas, pois ningum protege mais o povo
do Profeta. A vitria de Enver Pax seria melhor para
130
Knrfian Saic
ns, mesmo que no fosse definitiva. E o que podemos fazer para ajud-lo? Nada, penso eu. Temos
dinheiro, mas o czar tem mais dinheiro ainda. Temos soldados, mas ele tem mais soldados ainda. O
que devemos fazer? Se dermos ao czar uma parte de nosso dinheiro e de nossos soldados, talvez
sua mo seja mais leve depois da guerra. Ou haver outro caminho? Ele se calou. Seu irmo Ali se
levantou e disse:
 A mo do czar  pesada. Mas quem sabe? Talvez no haja mais um czar depois da guerra.
 Mesmo assim, irmo, muitos russos ainda estaro vivendo no pas.
 Seu nmero pode diminuir, irmo.
 No podemos matar todos eles, Ali.
 Sim, ns podemos matar todos eles, Mirza.
Eles se calaram. Ento, Seinal Ag disse em voz muito baixa, enfraquecida pela idade, e sem
emoo:
 Ningum sabe o que diz o Livro. As vitrias do gro-duque no so vitrias, ainda que ele
conquiste Istambul. A chave de nosso destino no est em Istambul, e sim no Ocidente. E l os
turcos so vitoriosos, mesmo quando so chamados de alemes. Os russos ocuparam Trebizonda,
os turcos ocuparam Varsvia. Russos? Ser que continuam russos? Ouvi dizer que um campons
chamado Rasputin manda no czar, acaricia as filhas dele e chama a czarina de mame. Alguns gro-
duques planejam derrubar o czar. E muitas pessoas s esto esperando a paz para organizar uma
revoluo. Depois da guerra, tudo ser diferente.
 Sim  disse um homem gordo, de longos bigodes e olhos faiscantes , tudo ser diferente
depois da grande guerra.
Era Feth Ali Khan, um advogado de Choia. Sabamos que tinha preocupaes sociais e vivia
meditando sobre a causa do povo:
 Sim  repetiu ele com fervor , e j que tudo vai ser diferente no precisamos mendigar os
favores de nin-
Ali e Nino
131
gum. Seja quem for o vencedor, sair da guerra fraco, coberto de muitas feridas. Mas, quanto a
ns, no estaremos fracos nem feridos. Podemos exigir, ao invs de suplicar. Somos um pas
islmico e xiita, e esperamos da casa Romanov e da casa Osmanli a mesma coisa: independncia
em todos os assuntos que nos dizem respeito. Quanto mais fracas estiverem as potncias depois da
guerra, mais perto estaremos da liberdade. Essa liberdade vir de ns, de nossas foras intactas, de
nosso dinheiro e nosso petrleo. Pois no esqueam, o mundo precisa mais de ns do que ns
precisamos do mundo.
O bilho de rublos no salo ficou muito satisfeito. Esperar era uma bela palavra. Esperar para ver
se vencem os russos ou os turcos. Temos o petrleo, e o vencedor ser forado a mendigar nossos
favores. E at l? Construir hospitais, creches para crianas abandonadas, asilos para cegos e para
os guerreiros de nossa f. Ningum deve nos acusar de falta de carter.
Eu continuava sentado a um canto, quieto e irritado. Ali Assadullah atravessou o salo e sentou-se
a meu lado:
 O que acha de tudo isso, Ali Khan?
Sem esperar pela resposta, ele se inclinou e disse num sussurro:  Seria timo matar todos os
russos por aqui. E no s os russos. Todos os estrangeiros que falam diferente, rezam diferente e
pensam diferente. No fundo  o que todos desejamos, mas s eu tenho coragem de dizer isso. E o
que seria depois? Por mim, podamos ser governados por Feth Ali. Embora eu prefira Enver Pax.
Mas primeiro o extermnio.
Disse a palavra extermnio com um enlevo carinhoso, como se estivesse falando de amor. Seus
olhos brilhavam e ele tinha um sorriso maroto no rosto. Eu me calei. O babista Ag Musa Nagi
tomou a palavra. Seus olhos pequenos piscavam sem parar:
 Sou um velho  disse ele , e aquilo que vi e ouvi neste salo me entristece. Os russos
exterminam os turcos,
132
Kurban Saitf
os turcos exterminam os armnios, e os armnios querem nos exterminar, assim como ns aos
russos. No sei se isso  bom. Ouvimos o que pensam Seinal Ag, Mirza, Ali e Feth Ali sobre o
destino de nosso povo. Pelo que entendi, preocupam-se com as escolas, o idioma, os hospitais e a
liberdade. Mas o que  uma escola quando ali s se ensinam disparats? O que  um hospital
quando ali se curam os corpos, mas as almas so esquecidas? Nossa alma deseja encontrar-se com
Deus. Porm, cada povo acredita ter um deus diferente. Eu acredito que o mesmo deus se manifesta
pela voz de todos os sbios. Por isso venero Cristo e Confcio, Buda e Maom. Viemos de um
nico Deus, e atravs do Bab todos voltaremos para Ele. Isso deveria ser anunciado ao povo. No
existe o preto nem existe o branco, pois o branco est contido no preto e vice-versa. Por isso,
ouam meu conselho: no pratiquem nenhum mal contra outros homens, pois estamos em cada um,
e cada um est em ns.
Ns nos calamos perplexos. Ento era aquilo a heresia do Bab.
Algum soluava ruidosamente a meu lado. Admirado, virei-me e vi Ali Assadullah com o rosto
banhado em lgrimas e consumido pelo desgosto:
 Ah, minha alma  soluou ele , como tem razo naquilo que diz! Que felicidade ouvi-lo! Ah,
Deus todopoderoso! Se todas as pessoas pudessem atingir sabedoria to profunda!
Secou as lgrimas, soluou mais um pouco e acrescentou, em tom sensivelmente mais frio:
 Sem dvida, venervel senhor, a mo de Deus est acima de todas as mos. Infelizmente, 
Fonte da Sabedoria, nem sempre se pode confiar na interveno misericordiosa do Altssimo.
Somos homens apenas e, quando a interveno falha, temos que dar um jeito de enfrentar as
dificuldades.
Havia esperteza naquela frase e naquelas lgrimas. Percebi que Mirza olhava para o irmo com
admirao.
A/ e Nino
133
Os convidados se levantaram.  guisa de saudao, levaram as mos estreitas s testas morenas.
Curvaram as
costas e murmuraram:
 A paz esteja com vocs. E que um sorriso lhe fique nos lbios, amigo.
O encontro terminara. O bilho de rublos saiu para a rua, acenando, distribuindo apertos de mo e
inclinando a cabea. Eram dez e meia da noite. O salo ficou vazio e opressivo. Senti-me sozinho.
Disse ao criado:
 Vou sair ainda. Irei  caserna. Ilias Beg tem planto hoje  noite.
Caminhei em direo ao mar, passando pela casa de Nino, at a grande caserna. A janela da casa de
guarda estava iluminada. Ilias Beg e Mehmed Haidar jogavam dados. Entrei. Eles me saudaram
com um aceno silencioso. Por fim, o jogo terminou. Ilias Beg jogou os dados para um canto e
abotoou o colarinho:
 Ento, como foi?  perguntou ele.  Assadullah jurou mais uma vez matar todos os russos?
 Sim, mais ou menos isso. Quais as novidades da guerra?
 Guerra!  disse ele, com uma voz de tdio.  Os alemes ocuparam toda a Polnia. O gro-
duque ficar preso na neve, ou ocupar Bagd. Talvez os turcos conquistem o Egito. Quem sabe? 
um mundo enfadonho.
Mehmed Haidar esfregou o crnio pontudo, com os cabelos cortados  escovinha:
 Este mundo no  nada enfadonho  disse ele.  Temos cavalos e soldados e sabemos lidar
com armas. De que mais precisamos? s vezes sinto vontade de estar nas montanhas, deitado numa
trincheira com um inimigo diante de mim. O inimigo precisa ter bons msculos, com a pele
cheirando a suor.
 Por que no se apresenta para lutar na frente? Tristes e vazios, os olhos de Mehmed Haidar
brilharam sob a testa estreita:
134
Kurban Said
 No sou de atirar em muulmanos. Mesmo que sejam sunitas. Mas prestei juramento e no
posso desertar. Tudo deveria ser diferente neste pas.
Eu o olhei com um sentimento de carinho. Ali estava ele, com os ombros largos e fortes, o rosto
ingnuo, quase sufocado pela vontade de lutar:
 Quero ir para a frente, mas ao mesmo tempo no quero  disse ele aflito.
 E o que ser de nosso pas?
Ele se calou e franziu a testa. Pensar no era o seu forte. Finalmente, disse:
 Nosso pas? Devamos construir mesquitas. E regar nossa terra. Nossa terra tem sede. Tambm
no  bom que qualquer estrangeiro venha at ns para dizer que somos estpidos. Se somos
estpidos,  problema nosso. Apesar de tudo, acho que seria maravilhoso fazer uma grande
fogueira e queimar todas as torres de petrleo do pas. Seria um espetculo e tanto, e estaramos
pobres de novo. Ningum mais precisaria de ns, e os estrangeiros nos deixariam em paz. E no
lugar das torres de perfurao eu construiria uma mesquita de ladrilhos azuis. Devamos trazer
bfalos e plantar cereais no pas do petrleo.
Calou-se, absorto em sua viso do futuro. Ilias Beg riu com gosto:
 E depois devamos proibir o povo de ler e escrever, obrig-lo a usar velas em vez de luz eltrica,
e nomear o homem mais estpido como rei deste pas.
Mehmed Haidar no percebeu a gozao:
 Nada mau  disse ele  , antigamente havia muito mais gente estpida do que agora.
Construam canais de irrigao, no torres de petrleo. Os estrangeiros eram saqueados, em vez de
saquear-nos. Antigamente a gente era mais feliz.
Sentia vontade de abraar e beijar aquele rapaz simplrio. Ele falava como se fosse um torro de
nossa terra pobre, seca e maltratada.
Ai e Nino
135
Algum batu furiosamente  porta. Sobressaltei-me e olhei para fora. Um rosto moreno e marcado
pela bexiga me fitava.
 Sou eu, Seid Mustafa. Deixe-me entrar.
Corri at a porta. Seid Mustafa se precipitou no quarto. O turbante dele pendia torto sobre a testa
coberta de suor. O cinto verde estava solto, e o manto cinzento se cobrira de poeira. Ele caiu na
poltrona e gritou ofegante:
 Nachararian raptou Nino. H meia hora. Eles esto a caminho de Mardakiani.
Captuo 17
MEHMED HAIDAR SE LEVANTOU de um salto. Seus olhos ficaram bem pequenos.  Vou j
selar os cavalos!  disse ele, correndo para fora. Meu rosto ardia em brasa. As tmporas
latjavam. Eu ouvia um zumbido. Era como se uma mo invisvel golpeasse minha cabea. Como
em sonho, ouvi a voz de Ilias Beg:
 Calma, Ali Khan, calma. Espere at os alcanarmos, em uma hora.
Seu rosto estreito estava muito plido. Ele me colocou um cinturo, de onde pendia um punhal reto
do Cucaso.
 Tome  disse ele, pondo-me um revlver nas mos. E de novo:  Calma, Ali Khan. Poupe sua
fria para a estrada de Mardakiani.
Mecanicamente, enfiei a arma no bolso. O rosto marcado de bexiga de Seid Mustafa se inclinou
diante de mim. Vi o movimento dos lbios grossos e ouvi palavras desconexas:
 Sa de casa para visitar o sbio imame Hadji Machsud. Ao lado do teatro foi erguida a tenda de
sua sabedoria. Deixei-o s onze horas e voltava para casa, passando pelo teatro. A pera
pecaminosa tinha terminado. Vi Nino entrando no carro, em companhia de Nachararian. O carro
continuou parado. Os dois conversavam. No gostei da ex-
Ali e Nino
137
presso de Nachararian. Fui para perto do carro e fiquei ouvindo. No, dizia Nino, eu amo Ali.
Neste pas no vai sobrar pedra sobre pedra, disse Nachararian. Eu a amo mais do que Ali. Vou
salv-la das garras da sia. No, disse Nino, leve-me para casa. Ele deu a partida. Pulei para
dentro do porta-malas. O carro seguiu para a casa dos Kipianis. No escutei o que diziam no
caminho, mas falavam muito. Diante da casa, o carro parou. Nino chorava. De repente, Nachararian
a abraou e beijou seu rosto. No deixarei que caia nas mos dos selvagens, ele gritou. Depois
sussurrou mais alguma coisa, e por fim ouvi s a frase: Para minha casa em Mardakiani! Em
Moscou nos casamos e depois vamos para a Sucia. Percebi que Nino o empurrava. Ele deu a
partida de novo. Saltei do porta-malas. Eles foram embora. Corri o quanto podia para...
Ele no terminou, ou no escutei o resto. Mehmed Haidar escancarou a porta.  Os cavalos esto
prontos!  gritou. Corremos para o ptio. Vi os animais sob a lua cheia. Eles relinchavam baixinho
e batiam com as patas.
 Venha  disse Mehmed Haidar.
Olhei meu cavalo e fiquei abismado. Era a maravilha rubro-dourada de Karabagh, o cavalo de
Melikov, comandante do regimento. No havia mais do que uma dzia deles em todo o mundo.
Mehmed Haidar me olhou, sombrio.
 O comandante vai ficar furioso. Nunca outra pessoa montou este cavalo. Ele corre como o
vento. No o poupe. Voc tem de alcanar os dois.
Pulei sobre a sela. Meu chicote deslizou pelos flancos do animal maravilhoso. Com um salto
violento, deixei o ptio da caserna. Sa a galope, beirando o mar. Cheio de dio, fustiguei o cavalo.
As casas danavam  margem da estrada. Os cascos do cavalo soltavam fascas. Minha fria
crescia. Puxei as rdeas. O cavalo empinou e continuou em disparada. Finalmente, as ltimas
cabanas de barro ficaram para trs. Vi os campos ao luar e o caminho estreito para
138
Kui(an Saia
Mardakiani. O ar da noite acalmou minha fria.  esquerda e  direita, estendiam-se plantaes de
melo. As frutas redondas pareciam pepitas de ouro. O galope do cavalo era longo e elstico, de
uma regularidade impressionante. Inclinei-me para a frente, por sobre a crina dourada.
Ento fora assim! Eu via tudo o que tinha acontecido... ouvia cada palavra que eles tinham dito. De
repente, as idias do estrangeiro ganhavam sentido. Enver Pax luta na sia Menor. O trono do
czar est ameaado. No exrcito do gro-duque h batalhes armnios. Se a frente desmoronar, o
exrcito dos osmanlis invadir a Armnia, Karabagh e Baku. Nachararian se previne contra as
conseqncias. Barras de ouro armnias so transferidas para a Sucia. Acabou-se a fratrnidade
dos povos do Cucaso. Vejo os dois no camarote do teatro:
 Princesa, no existe ponte entre Oriente e Ocidente, nem mesmo a ponte do amor.
Nino ouve em silncio.
 Temos que ficar juntos, neste momento em que a espada dos osmanlis nos ameaa. Somos os
embaixadores da Europa na sia. Eu a amo, princesa. Pertencemos um ao outro. Em Estocolmo, a
vida  simples e tranqila. Estocolmo fica na Europa, no Ocidente.
E ento, como se as palavras fossem pronunciadas em minha presena:
 Neste pas no vai sobrar pedra sobre pedra. E por fim:
 Tem de decidir seu destino por si mesma, Nino. Depois da guerra nos mudamos para Londres.
Seremos recebidos na corte. Um europeu tem de ser dono de seu destino. Eu tambm aprecio Ali
Khan, mas ele  um brbaro, um eterno prisioneiro do deserto.
Chicoteio o cavalo. Um grito selvagem. Assim uiva o lobo do deserto  luz da lua. A noite no
passa de um grande grito. Inclino-me totalmente para frente. Minha garganta
Ali e Nino
159
di. Por que grito sem parar no caminho para Mardakiani? Tenho de poupar a fria. Um vento
cortante golpeia meu rosto.  ele que me faz chorar. Eu nunca choro, nem sequer quando percebo
de repente que no existe ponte entre Oriente e Ocidente. Muito menos a ponte do amor. Olhos
georgianos, brilhantes e sedutores! Sim, sou descendente do lobo do deserto, o lobo cinzento dos
turcos. Que belo plano: Em Moscou nos casamos e depois vamos para a Sucia. Um hotel em
Estocolmo, limpo e quente, com roupa de cama branca. Uma casa em Londres. Uma casa? Meu
rosto encosta na pele rubro-dourada do cavalo. De repente, mordo o pescoo do animal. Minha
boca se enche do gosto salgado de sangue. Uma casa? Em Mardakiani, Nachararian tem uma casa
de campo, cercada pelos pomares do osis. Como todos os ricos de Baku. De mrmore branco, 
beiramar, com colunas corntias. Qual  a velocidade de um automvel e a de um cavalo de
Karabagh? Conheo aquela casa de campo. A cama  de mogno vermelho, muito larga. Lenis
brancos, tal como no hotel em Estocolmo. Nachararian no vai discutir filosofia a noite inteira. Ele
vai... claro que vai! Vejo a cama diante de mim, e os olhos georgianos velados de prazer e medo.
Meus dentes se cravam fundo na carne do cavalo. O animal dispara. Adiante, adiante! Poupe sua
fria at alcan-los, Ali Khan!
O caminho  estreito. De repente, comeo a rir. Que sorte estarmos na sia, a sia selvagem,
atrasada e reacionria! Aqui no h auto-estradas, somente caminhos acidentados, prprios para
cavalos de Karabagh. Nesses caminhos, qual  a velocidade de um automvel e a de um cavalo de
Karabagh?
Os meles  beira da estrada me olham como se tivessem caras.
 Pssimas estradas  dizem os meles , no servem para automveis da Inglatrra.  melhor
um cavalo de Karabagh.
140
Kuteaii Saic
O cavalo vai sobreviver? Provavelmente no. Vejo o rosto de Melikov. Outrora, em Chucha, seu
sabre tinia e ele disse: Mas, quando o czar chama para a luta, o prncipe Melikov monta a sua
maravilha. Para o inferno! Ele que chore por seu cavalo, o velho de Karabagh. Outra chicotada e
mais uma. O vento me d socos na cara. Uma curva. Arbustos selvagens  beira da estrada, e
finalmente  ouo ao longe um barulho de motor. Vejo luz na estrada. O carro! Lentamente, ele se
arrasta pelo caminho acidentado. Um automvel europeu. No  prprio para os caminhos da sia.
Mais uma chicotada! Reconheo Nachararian ao volante. E Nino! Nino, retrada num canto,
apavorada. Por que no ouvem o galope do cavalo? Ele no presta atno na noite l fora? Sente-
se seguro em seu automvel europeu, a caminho de Mardakiani? Mas a caixa reluzente tem de
parar. Imediatamente! Minha mo destrava o revlver. Muito bem, caro amigo da Blgica, faa sua
parte! Aperto o gatilho. Por um instante, uma estreita listra de fogo ilumina o caminho. Detenho o
cavalo. Belo tiro, bem na mosca, caro amigo da Blgica. O pneu esquerdo do carro se afunda como
uma mangueira vazia. A caixa reluzente parou! Com o sangue martelando nas tmporas, chego
mais perto. Jogo a arma fora, j no sei o que fao. Dois rostos me fitam com olhos arregalados de
terror. A mo trmula de um estrangeiro agarra o cabo de um revlver. Pelo visto, o automvel
europeu no era to seguro assim! Vejo os dedos gordos e um anel de grandes brilhantes. Depressa,
Ali Khan! Agora pode perder o sangue-frio. Saco o punhal. A mo trmula no deve atirar. O
punhal parte voando, com um zumbido musical. Onde aprendi a atirar punhais? Na Prsia? Em
Chucha? Em lugar nenhum! Est em meu sangue, em minhas veias, herana dos antepassados, esse
conhecimento do vo exato de um punhal. Vem do primeiro Chirvanchir, que viajou para a ndia e
invadiu Deli. Um grito, surpreendentemente alto e agudo. A mo gorda estende os dedos. Um fio de
san-
Ah e Nino
141
gue escorre at o pulso. Que maravilha  o sangue do inimigo, no caminho para Mardakiani! O
revlver cai no cho. De repente, um ventre gordo se arrasta com movimentos rpidos. Um salto, e
o homem corre pelo caminho, em direo aos arbustos da margem. Deso do cavalo. Enfio o
punhal na bainha. Nino continua sentada no estofamento macio do carro, ereta. Seu rosto est duro
e quieto, como se fosse talhado em pedra. Apenas seu corpo treme violentamente, no pesadelo da
luta noturna. Ouo o patar de um cavalo ao longe. Salto para dentro do mato. Ramos cortantes me
abraam como as mos de um inimigo invisvel. Folhas secas estalam sob meus ps. Galhos nus me
retalham as mos. Longe, nos arbustos, o animal acossado respira com seu hlito quente.
Nachararian! Um hotel em Estocolmo! Lbios gordos e saciados no rosto de Nino!
L est ele, tropeando e arrancando o mato com as mos. Agora corre pela plantao de meles,
em direo ao mar. Eu tinha jogado o revlver na estrada. Minhas mos sangram, dilaceradas pelos
espinhos. Aqui  o primeiro melo, com sua careta redonda e estpida. Piso no melo, e ele estala
sob o sapato. Corro pela plantao. A lua nos encara com sua fisionomia de morte. Torrentes de luz
fria e dourada sobre a plantao de meles. No levar suas barras de ouro para a Sucia,
Nachararian.
Agora! Eu o agarro pelos ombros. Ele se vira. Diante de mim como um tronco de rvore, tem o
olhar de dio de algum apanhado em flagrante. Um golpe  ele me d um soco no queixo. De
novo  bem abaixo do trax. Muito bem, Nachararian, aprendeu a lutar boxe na Europa? Fico
tonto. Por alguns segundos, a respirao pra. Sou apenas um asitico, Nachararian. Nunca entendi
a arte dos golpes baixos. S sei correr como um lobo no deserto. Com um salto, agarro seu corpo.
Meus ps pressionam o ventre e minhas mos apertam o pescoo gordo. Ele me d socos como um
louco. Camos no cho. Rolamos por entre os meles.
142
Kurfian Saia
De repente, estou embaixo dele. As mos de Nachararian me estrangulam. Sua boca pende para o
lado, no rosto distorcido. Dou-lhe um pontap na barriga. O salto do sapato penetra na carne
flcida. Ele me larga. Por um instante, vejo seu pescoo nu. O colarinho rasgado saiu do lugar. O
pescoo  branco. De minha garganta parte um grito abafado. Meus dentes se cravam no pescoo
branco e gordo. Sim, Nachararian,  assim que fazemos na sia. Sem golpes baixos. A patada do
lobo cinzento. Sinto suas veias tremendo. Um leve movimento em meus quadris. A mo de
Nachararian agarra o punhal. Eu o esquecera no calor da luta. O ao brilha diante de mim. O punhal
golpeia minhas costas. Sinto uma dor lancinante. Como  quente meu sangue! Solto a garganta de
Nachararian e arranco o punhal das mos feridas. Agora ele est embaixo de mim, com o rosto
voltado para a lua. Levanto o punhal. Ento ele grita com a cabea revirada para trs  um grito
longo e agudo. Seu rosto  como uma grande boca  o portal escuro e escancarado do medo da
morte. Hotel em Estocolmo. Carne de porco no espeto. Ah, plantao de meles perto de
Mardakiani!
Por que hesito? Ouo uma voz atrs de mim:
 Mat-o, Ali Khan, mat-o.  Mehmed Haidar.
 Um pouco acima do corao, de cima para baixo. A voz se cala. Sei onde fica o corao. S
mais um
instante. Quero ouvir o inimigo gemendo de dor. E ento...
Ergo o punhal. Meus msculos esto tesos. Bem acima do corao, o punhal se une ao corpo do
inimigo. Ele se contorce uma vez e outra ainda. Eu me levanto devagar. Sangue em minha roupa.
Meu sangue? O sangue dele? Agora d no mesmo.
Mehmed Haidar arreganha os dentes:
 Fez muito bem, Ali Khan. Vou admir-lo para sempre.
Ali e Nino
143
Sinto dor numa das costelas. Mehmed Haidar me ampara. Mergulhamos no matagal e samos
adiante, onde ficou a caixa reluzente do automvel, na estrada para Mardakiani. Quatro cavalos.
Dois cavaleiros. Ilias Beg ergue a mo num aceno. Seid Mustafa arriou o turbante verde at a altura
da nuca. Agarrou Nino e a mantm presa sobre a sela. Ela no diz nada.
 O que fazer com a mulher? Vai mat-la, ou quer que eu o faa?
Seid Mustafa fala devagar e baixo, os olhos semicerrados como num sonho.
 Mat-a, Ali Khan.  Agora, Mehmed Haidar me estende o punhal.
Olho para Ilias Beg. Plido como um cadver, ele diz que sim com a cabea:
 Depois jogamos o corpo no mar.
Chego mais perto de Nino. Seus olhos so to grandes! No intervalo, ela vinha at nossa classe, em
lgrimas, com a pasta de deveres na mo. Uma vez, escondido sob o banco onde ela se sentava,
murmurei: Carlos Magno foi coroado em Aachen no ano de 800.
Mas por que Nino se cala? Por que no chora como antigamente, no intervalo longo? Se no sabia
em que ano foi coroado Carlos Magno, no era culpa dela. Agarro o pescoo do cavalo. Nossos
olhares se encontram. Ela parece bela, sentada na sela de Seid, banhada pelo luar, fitando o punhal.
Sangue da Gergia, o melhor do mundo. Lbios da Gergia. Nachararian a beijara. Barras de ouro
na Sucia... ele a beijara!
 Ilias Beg, estou ferido. Leve a princesa Nino para a casa dela. A noite esfriou. Proteja a princesa
Nino. Terei de mat-lo, Ilias Beg, se a princesa no voltar para casa a salvo. Est ouvindo, Ilias
Beg?  minha deciso. Mehmed Haidar, Seid Mustafa, estou muito fraco. Levem-me para casa.
Ajudem, estou sangrando.
144
Kiuean Sau
Seguro a crina do cavalo de Karabagh. Mehmed Haidar me ajuda a montar. Ilias Beg se aproxima,
levanta Nino com cuidado e senta-a na almofada macia de sua sela de cossaco. Ela no se debat...
Suavemente, ele tira o casaco e lhe cobre os ombros. Ele continua muito plido. Olha para mim
rapidamente e acena. Vai levar Nino para casa a salvo. Seu cavalo parte na frente. Esperamos um
momento. Mehmed Haidar e Seid Mustafa no se afastam de mim, pois estou apoiado neles.
Mehmed Haidar salta na sela:
 Voc  um heri, Ali Khan. Foi uma luta e tanto. Fez sua obrigao.
Seid mantm os olhos baixos. Diz:
 A vida dela lhe pertence. Pode tir-la. Ou pode poup-la. Ambas as coisas so permitidas.  o
que diz a Lei.
Seid sorri absorto. Mehmed Haidar me pe as rdeas na mo.
Cavalgamos noite afora, em silncio. As luzes de Baku tm um brilho suave e sedutor.
Captuo 18
UM ESTREITO TERRAO DE PEDRA  beira do abismo. Penhascos amarelos, secos, gastos,
sem rvores. Pedras enormes, speras, sobrepostas em desordem. Penduradas diante do abismo,
choupanas se apoiam umas nas outras, quadradas e sem adornos. O teto plano de uma choupana
serve como ptio para a outra, construda logo acima. Embaixo, um riacho murmura. Os penhascos
rebrilham no ar claro. Uma trilha estreita desce serpenteando pelas pedras e se perde no abismo.
Aquele  um aul  uma aldeia nas montanhas no Daguesto. O interior das choupanas  escuro,
coberto com esteiras grossas. Do lado de fora, dois postes de madeira sustentam um pequeno beirai.
Uma guia de asas abertas pende no infinito do cu, como petrificada.
Deitado sobre o pequeno terrao, encosto os lbios no bocal de mbar do narguil. Aspiro o vapor
frio para dentro dos pulmes. Sinto que as tmporas esfriam. A fumaa azul desaparece, levada
pelo vento leve. Uma mo amiga misturou gros de haxixe s folhas de tabaco. Olho em direo ao
abismo e vejo rostos que giram na nvoa suspensa. Um deles tem feies conhecidas.  o rosto de
Rustem, o Guerreiro, estampado no tapete de meu quarto em Baku.
Lembro que estive deitado ali, envolto em grossos cobertores de seda. Sentia dor numa das
costelas. O curativo era
140
macio e branco. Passos leves no quarto ao lado. Palavras abafadas. Escutei. Agora falavam mais
alto. A voz de meu pai:
 Sinto muito, senhor comissrio. Eu prprio no sei onde se encontra meu filho. Suponho que
fugiu para a casa do tio, na Prsia. Lamento sinceramente.
O comissrio disse em voz alta e irritada:
 Seu filho foi indiciado por assassinato. J expediram a ordem de priso. Vamos ach-lo, mesmo
que esteja na Prsia.
 Acho timo, senhor comissrio. Qualquer tribunal absolveria meu filho. Foi um crime passional,
mais do que justificado pelos acontecimentos. Alis...
Ouvi o rudo de notas de dinheiro sendo manuseadas, ou achei que ouvia. Depois, silncio. E de
novo a voz do comissrio:
 Ah, pois . Esses jovens! No pensam duas vezes antes de sacar o punhal. Sou apenas um
funcionrio. Mas eu compreendo. O rapaz no deve se mostrar na cidade. Mas terei que remeter a
ordem de priso para a Prsia.
Os passos se afastaram. De novo, silncio absoluto. A inscrio ornamentada no tapete parecia um
labirinto. Meus olhos seguiam as linhas das letras, perdendo-se nas belas curvas de um N.
Rostos se inclinaram sobre mim. Lbios murmuraram algo ininteligvel. Depois disso, eu estava
sentado na cama, enfaixado. Vi Ilias Beg e Mehmed Haidar. Ambos estavam de uniforme e
disseram, sorrindo:
 Viemos nos despedir. Fomos transferidos para a frente de batalha.
 Como assim?
 Levei Nino para casa  contou Ilias Beg.  Ela no disse palavra durante o caminho. Depois
fui para a caserna. Algumas horas depois, todos sabiam o que tinha acontecido. Melikov, o
comandante do regimento, se fechou Ia dentro e bebeu at cair. No queria mais ver o cavalo. 
noite,
A/i e Nino
147
mandou abatr o animal. Depois se apresentou para lutar na frente de batalha. Meu pai conseguiu
evitar que eu fosse julgado pela corte marcial. Mas fomos mandados para lutar na frente, logo nas
primeiras fileiras.
 Perdoem-me. Foi tudo culpa minha. Ambos protestam, indignados:
 No, voc foi um heri e agiu como homem. Estamos muito orgulhosos.
 E Nino, vocs a viram?
Os dois respondem, com frieza na voz e um olhar fixo:
 No, no a vimos. Trocamos abraos.
 No se preocupe conosco. Daremos um jeito, na frente de batalha ou seja onde for.
Sorrisos e acenos. A porta se fecha.
Recostado na almofada, eu admirava os arabescos do tapete vermelho. Pobres amigos! A culpa era
minha. Mergulhei em devaneios estranhos. Tudo  minha volta tinha desaparecido. O rosto de Nino
flutuava na nvoa, ora sorridente, ora srio. Mos que eu no conhecia tocaram em mim. Algum
disse em idioma persa:
 Ele tem de fumar haxixe.  bom para dor de conscincia.
Algum me estendeu o bocal de mbar, e atravs dos fragmentos do devaneio ouvi um dilogo:
 Estimado Khan! Estou abalado. Que desgraa terrvel! Minha filha deve ir ao encontro de seu
filho. Precisam se casar imediatamente.
 Mas, prncipe, Ali Khan no pode se casar. Agora ele  kanh. Isso significa que a famlia
Nachararian jurou vingana de sangue contra ele. Mandei-o para a Prsia. Sua vida corre perigo.
No  o marido certo para sua filha.
 Safar Khan, eu lhe suplico! Vamos proteg-los. Viajaro para a ndia, ou para a Espanha. Minha
filha foi desonrada. S o casamento pode salv-la.
148
Kurbnn Saicf
 A culpa no  de Ali Khan, prncipe. Com certeza, sua filha logo encontrara um pretendente
russo, ou at armnio.
 Mas, por favor1 Foi apenas um passeio de carro Muito compreensvel neste calor. Seu filho agiu
com precipitao. Uma suspeita completamente errada. Ele tem que reparar o erro.
 Seja como for, prncipe, Ali Khan agora e kanh.
No pode se casar.
 Tambm sou apenas um pai, Safar Khan.
Eles se calaram. Tudo ficou muito quieto. Os gros de haxixe so redondos e parecem formigas.
Finalmente tiraram meus curativos. Apalpei a cicatriz  minha primeira cicatriz de honra na vida.
Ento me levantei Atravessei o quarto, hesitante Os criados me olharam com timidez e receio. A
porta se abriu. Meu pai entrou. Meu corao batia com fora O criado desapareceu.
Meu pai se calou por um instante. Andava pelo quarto, para Ia e para ca. Por fim, parou:
 A policia tem vindo aqui quase todos os dias, e no s a policia. Todos os Nacharanans esto a
sua procura. Cinco deles j viajaram para a Prsia. Tive de pr vinte homens para vigiar a casa.
Alias, os Mehkovs tambm juraram vingana de morte. Por causa do cavalo. Seus amigos foram
mandados para a frente de guerra.
Calado, eu olhava para o cho. O pai ps a mo em meu ombro. Sua voz era suave:
 Estou orgulhoso de voc, Ah Khan. Muito orgulhoso. Eu teria feito a mesma coisa.
 Esta satisfeito, pai?
 Quase inteiramente S uma coisa .  Ele me abraou e me olhou fundo nos olhos.  Diga, por
que poupou a mulher?
 No sei, pai Estava cansado
Ali e Nino
149
 Teria sido melhor, meu filho. Mas agora e tarde. No vou acusa-lo de nada. Nos todos, a famlia
inteira, estamos muito orgulhosos.
 E o que vai acontecer agora, pai?
Ele caminhava para Ia e para ca e suspirou preocupado:
 Sim, aqui voc no pode ficar Esta sendo procurado pela policia e por duas famlias poderosas.
O melhor e viajar para o Daguesto. Num aul, ningum pode achar voc. Nenhum armnio e
nenhum policial ousariam ir at Ia.
 Por quanto tempo, pai?
 Muito tempo. at que a policia tenha esquecido o caso. at que as famlias inimigas faam as
pazes conosco. Irei visitar voc
Parti naquela noite, em direo a Machatch-Kale, e depois para as montanhas. Por caminhos
estreitos, no lombo de cavalos de longas ermas. at o aul distante, a margem do selvagem abismo.
Agora Ia estava eu, protegido pela hospitalidade do Daguesto. Kanh, diziam as pessoas, e me
olhavam compreensivas. Mos suaves misturavam haxixe ao tabaco. Eu fumava muito. Ficava
quieto, assaltado por vises Kasi Mullah, um amigo de meu pai, estendia sobre mim a sombra de
sua hospitalidade Ele falava muito, e os estilhaos de suas palavras faziam evaporar meus sonhos
febris, olhando para a estrada ao luar.
 No sonhe, Ah Khan No pense, Ali Khan. Escute. J conhece a historia de Andalal?
 Andalal  disse eu, aptico.
 Sabe o que e Andalal? Era uma bela aldeia, ha seiscentos anos Ah reinava um prncipe bom,
sbio e corajoso. O povo  no suportava tanta virtude. Por isso foi ao encontro do prncipe e disse
Estamos fartos de ti, deixa-nos. O prncipe chorou, montou seu cavalo, despediu-se dos sditos e
foi para longe, para a Prsia. La se tornou um grande homem. O x ouvia seus conselhos O prncipe
conquistou pases e cidades. Mas, em sua alma, guardava rancor contra Andalal. Por isso, disse: Nos vales de
Andalal h ouro e pedras preciosas em grande quantidade. Vamos conquistar o pas. Com um
exrcito gigantesco, o x se dirigiu s montanhas. Mas o povo de Andalal disse: Vocs so muitos,
mas esto embaixo. Somos poucos, mas estamos em cima. E Al paira sobre todos. Ele est
sozinho, e no entanto  mais poderoso que ns. E assim o povo de Andalal se ps a lutar. Homens,
mulheres e crianas. Na frente lutavam os filhos do prncipe, que tinham ficado no pas. Os persas
foram derrotados. Primeiro fugiu o x, por ltimo, o traidor que o tinha conduzido at Andalal. Dez
anos se passaram. O prncipe envelheceu e sentiu saudades da terra natal. Deixou o palcio em
Teer e viajou at a aldeia. Os habitantes reconheceram o traidor que tinha conduzido at l o
exrcito persa. Cuspiram no prncipe e fecharam as portas. O dia inteiro o prncipe percorreu a
aldeia, mas no encontrou um nico amigo. Ento, foi at o cdi, ou juiz muulmano, e disse: Vim
para casa para pagar minha culpa. Julgue-me tal como manda a Lei. Amarrem-no!, ordenou o
cdi, e anunciou: Pela Lei dos Pais, este homem tem de ser enterrado vivo, e o povo gritou:
Assim seja! Mas o cdi era um homem justo. O que pode alegar em sua defesa?, perguntou, e o
prncipe disse: Nada. Sou culpado.  bom que sejam aplicadas neste pas as Leis dos Pais. Mas,
nesse caso, no esqueam a que diz: quem luta contra o prprio pai deve morrer. Reclamo meus
direitos. Meus filhos lutaram contra mim. Devem ser decapitados diante de meu tmulo. Assim
seja!, disse o cdi, chorando junto com seu povo, pois os filhos do prncipe eram queridos e
respeitados. Mas a Lei tinha de ser cumprida. O traidor foi enterrado vivo, e seus filhos, os
melhores guerreiros do pas, foram decapitados ao lado do tmulo.
 Que histria sem graa!  resmunguei.  No conhece nenhuma melhor? Seu heri, o ltimo
deste pas, morreu h seiscentos anos e, ainda por cima, era um traidor.
Ali c i
((L,   151
Kasi Mullah arquejou, ofendido:
 J ouviu falar no imame Chamil?
 Sei tudo sobre o imame Chamil.
 Na poca de Chamil, o povo era feliz. Foi h cinqenta anos. O povo era feliz, no havia vinho
nem tabaco. Cortavam a mo direita dos ladres, mas quase no havia ladres. At que chegaram
os russos. Ento, o Profeta apareceu ao imame Chamil. O Profeta ordenou que ele declarasse a
gasavat, ou guerra santa, e Chamil obedeceu. Todos os povos das montanhas estavam ligados a
Chamil por juramentos terrveis. Inclusive o povo dos tchetchenos. Mas os russos eram poderosos.
Eles ameaaram os tchetchenos. Queimaram suas aldeias e destruram seus campos. Os sbios da
aldeia foram at Dargo, onde vivia o imame, para lhe suplicar que os liberasse daquele juramento.
Quando viram o imame, os sbios no ousaram falar. Foram procurar Hanum, a me do imame.
Hanum tinha um corao fraco. Ela chorou quando lhe contaram o sofrimento dos tchetchenos.
Vou pedir ao imame que os libere do juramento. Hanum era uma pessoa influente. O imame era
bom filho. Certa vez, ele dissera: Maldito seja quem traz desgosto  prpria me. Quando Hanum
veio falar com ele, respondeu: O Corao condena os traidores. O Corao condena os que
desobedecem  prpria me. Minha sabedoria no  suficiente. Vou rezar e jejuar at que Al
ilumine meus pensamentos. Trs dias e trs noites durou o jejum do imame. Ento, ele se
apresentou ao povo e disse: Al me iluminou e anunciou este mandamento: o primeiro que falar
comigo sobre traio deve ser condenado a cem bordoadas. A primeira pessoa que falou comigo
sobre traio foi Hanum, minha me. Eu a condeno a cem bordoadas. Hanum foi trazida na
presena do imame. Os soldados lhe arrancaram o vu, jogaram-na sobre os degraus da mesquita e
ergueram os bastes. A me do imame levou apenas uma pancada. Ento o imame caiu de joelhos,
chorou e gritou: As
Leis do Todo-Poderoso so de ferro. Ningum pode fugir delas, nem mesmo eu. Mas o Coro
permite que os filhos tomem para si o castigo dos pais. Por isso, quero receber o resto da punio,
no lugar de minha me. O imame despiu o manto e se deitou nos degraus da mesquita diante de
todo o povo, gritando: Agora batam em mim! E enquanto eu for imame podem ter certeza disto:
mando decapitar quem no batr com toda a fora! O imame levou noventa e nove bordoadas.
Ficou ali, coberto de sangue e com a pele em farrapos. Apavorado, o povo olhava. Ningum mais
ousou falar sobre traio. E assim as montanhas eram governadas. H cinqenta anos. E o povo era
feliz.
Continuei calado. A guia tinha desaparecido no cu. Anoitecia. O imame surgiu no minarete da
pequena mesquita. Kasi Mullah estendeu a esteira de orao. Rezamos voltados em direo a Meca.
As oraes rabes soavam como cantos de guerra.
 Deixe-me agora, Kasi Mullah. Voc  um amigo. Vou dormir.
Ele me olhou, desconfiado. Suspirando, misturou os gros de haxixe. Depois se afastou, e ouvi
quando ele comentou com o vizinho:
 Kanli est muito doente! O vizinho respondeu:
 No Daguesto, ningum fica doente muito tempo. Deitado na beirada do terrao, eu olhava para
o abismo. Nachararian, o que foi feito das barras de ouro na
Sucia?
Fechei os olhos.
Por que Nino se calava? Por qu?
Captufo 19
MULHERES E CRIANAS ATRAVESSAVAM a aldeia em fila indiana. Seus rostos estavam
tensos e fatigados. Elas vinham de longe. Traziam pequenos sacos nas mos. Os sacos estavam
cheios de terra e esterco. Abraavam aquela terra contra o peito como um tesouro valioso. Elas a
tinham carregado desde vales distantes, trocando-a por ovelhas, tecidos e moedas de prata. Iam
cobrir com a terra preciosa os duros penhascos da aldeia natal, sonhando com uma colheita de
gros suficiente para alimentar o povo.
A pequena plantao ficava num terreno  beira do abismo. Amarradas numa corrente, as pessoas
desciam at a plantao para espalhar terra cuidadosamente sobre o cho rochoso. Um muro tosco
foi construdo no alto, para proteger a leve camada de terra contra o vento e as enxurradas. E assim
passou a existir terra frtil em meio aos penhascos do Daguesto, denteados e rodos pelo tempo.
Trs passos de largura, quatro de comprimento. Era o bem mais precioso daquele povo das
montanhas. De madrugada, os camponeses se dirigiam  plantao. Rezavam longamente antes de
se curvarem sobre a terra. Quando o vento era forte, mulheres traziam suas cobertas e as estendiam
no solo valioso. Acariciavam a colheita com as mos estreitas e morenas. Cortavam os poucos ps
de trigo com uma pequena foice.
152
Kurban Smd
154
Kan Saicf
Trituravam os gros e assavam um po longo e achatado. No primeiro po enfiavam uma moeda,
que representava a gratido do povo pelo milagre da colheita.
Eu caminhava ao longo do muro da pequena plantao. No alto dos penhascos, ovelhas
tropeavam. Um campons com um chapu de feltro, largo e branco, surgiu numa carroa de duas
rodas, que gemiam como recm-nascidos. Era um rudo penetrante, que se ouvia de longe.
 Irmozmho  disse eu , vou escrever para Baku, para que lhe mandem uma lata de leo.
Voc precisa engraxar os eixos da carroa.
O campons sorriu, zombando:
 Sou um homem simples e no me escondo. Todos escutam quando chego com minha carroa.
Por isso nunca engraxo os eixos. S os abreks fazem isso.
 Os abreks
 Sim, os abreks, os panas.
 So tantos assim?
 Ha muitos deles. So ladres e assassinos. Alguns matam pelo bem do povo. Outros matam por
razes pessoais. Mas todos tm de prestar um juramento terrvel.
 Que juramento?
O campons deteve a carroa e desceu. Curvou-se sobre o muro de sua plantao. Apanhou queijo
de ovelha salgado e cortou-o com os longos dedos. Recebi um pedao. Havia plos escuros de
ovelha na massa consistente do queijo. Comi.
 O juramento dos abreks. Nunca ouviu falar? A meia-noite, o abrek entra furtivamente na
mesquita e jura: Juro por este lugar sagrado que a partir de hoje serei um pana. Verterei sangue
humano e no terei piedade de ningum Perseguirei as outras pessoas. Juro que lhes roubarei tudo o
que for caro ao corao, a conscincia e a honra Esfaquearei o recm-nascido no peito da me.
Porei fogo a ultima cabana do mendigo. Em toda parte onde houver ale-
Ali e Nino
gna, trarei desgraa. Se eu no cumprir este juramento, se o amor ou a piedade constrangerem meu
corao, quero que Ala nunca mais me permita ver o tmulo de meu pai, que a gua nunca mat
minha sede, que o po nunca mat minha fome e que meu cadver fique cado na estrada e um co
sujo faa suas necessidades sobre ele.
O campons falava com seriedade e nfase. Seu rosto estava voltado para o sol. Tinha olhos fundos
e azuis.
 Sim  disse ele , esse e o juramento dos abreks.
 E quem presta esse juramento?
 Homens que sofreram muita injustia.
Ele se calou. Fui para casa. As choupanas quadradas do aul pareciam dados. O sol ardia. E se eu
fosse um abrek, banido, exilado nas montanhas selvagens? Devia fazer o mesmo juramento de
sangue dos ladres das montanhas do Daguesto? Entrei na aldeia. Nos meus ouvidos ainda
ecoavam as palavras do juramento sombrio. Vi trs cavalos arreados em frente a minha choupana.
Um deles tinha uma rdea cor de prata. No terrao da casa estava sentado um rapaz gordo, que
parecia ter dezesseis anos, com um punhal dourado preso ao cinto. Ele acenou para mim e riu. Era
Arslan Ag, um rapaz da escola. Seu pai tinha muito petrleo, mas ele no gozava de boa sade.
Por isso costumava viajar para as termas de Kislovodsk. Eu mal o conhecia, pois era bem mais
jovem que eu. Mas ali, na solido da aldeia nas montanhas, eu o abracei como se fosse um irmo.
Ele corou de orgulho e disse:
 Estava passando pela aldeia com meus criados e resolvi lhe fazer uma visita.
Dei-lhe um tapinha nos ombros.
 Seja meu convidado, Arslan Ag. Hoje vamos brindar a nossa cidade natal.
Ento gritei para dentro da choupana:
 Kasi Mullah, prepare uma festa! Tenho um convidado de Baku.
156
wan Said
Meia hora depois, Arslan Ag estava sentado diante de mim, comendo carneiro assado e bolo, e
transbordante de felicidade.
 Estou to contente por ver voc, Ali Khan! Vive como um heri, numa aldeia distante,
escondido dos inimigos de sangue. Pode ficar tranqilo. No vou contar a ningum sobre o seu
esconderijo.
Sim, eu podia ficar tranqilo. Aparentemente Baku inteira sabia onde eu estava.
 Como ficou sabendo que eu estava aqui?
 Seid Mustafa me contou. Descobri que sua aldeia ficava no trajeto da viagem. Ento ele me
pediu que viesse cumpriment-lo.
 Para onde est viajando, Arslan Ag?
 Para Kislovodsk, para as termas. Estes dois criados me acompanham.
 Ah, entendo.  Sorri para ele. Seu olhar era inocente.
 Diga, Arslan Ag, por que no viajou de trem? Seria mais rpido.
 Por Deus, eu queria respirar o ar da montanha. Desci do trem em Machatch-Kale e continuei
pela estrada diretamente at Kislovodsk.
Ele encheu a boca de bolo e mastigou com satisfao.
 Mas a estrada mais rpida para Kislovodsk fica a trs dias de viagem daqui.
Arslan Ag pareceu muito admirado:
  mesmo? Ento me deram a informao errada. Mas eu me alegro apesar de tudo, pois ao
menos pude lhe fazer uma visita!
Aparentemente, o maroto tinha feito aquele desvio para contar a todo mundo em casa que se
encontrara comigo. Eu me tornara uma celebridade em Baku.
Servi vinho, e ele bebeu em grandes goles. Ento, perguntou com um pouco mais de intimidade:
Afie Nino
157
 J matou mais algum desde ento, Ali Khan? Por favor, por favor me diga, prometo que no
conto a ningum.
 Sim, algumas dzias.
  mesmo? Tudo isso?
Ele bebia o vinho, encantado. Servi mais.
 Vai se casar com Nino? Na cidade esto fazendo apostas sobre isso. Dizem que ela ainda ama
voc.
Riu com satisfao e continuou bebendo:
 Sabe, ficamos todos surpresos! Por dias a fio no se falou de outra coisa.
 Pois . E o que h de novo em Baku, Arslan Ag?
 Ora, em Baku... nada. Fundaram um novo jornal. Os operrios entraram em greve. Na escola, os
professores dizem que voc sempre foi impulsivo. Diga, como foi que descobriu?
 Querido Arslan, caro amigo, chega de perguntas. Agora  a minha vez. Voc viu Nino? Ou
algum dos Nachararians? O que dizem os Kipianis?
O coitado engasgou com o bolo na garganta:
 Ah, no sei de nada, absolutamente. No vi ningum. Costumo sair to pouco!
 Mas por qu, amigo? Esteve doente?
 Sim, sim. Estive doente. Muito doente, at. Tive difteria. Imagine s... precisei tomar cinco
clisteres todo dia.
 Para curar a difteria?
 Sim.
 Beba, Arslan Ag. Faz bem  sade.
Ele bebeu. Ento, eu me curvei em sua direo e perguntei:
 Caro amigo, quando disse a verdade pela ltima vez?
Ele me fitou com olhos inocentes e respondeu sem pestanejar:
 Na escola, quando ainda sabia quanto so trs vezes trs.
158
Kuiban Said
O bom rapaz j estava bbado. Aproveitei para lhe arrancar a verdade. O vinho era muito doce e
Arslan Ag era muito jovem. Confessou que tinha passado pela aldeia por curiosidade. Confessou
que nunca tivera difteria e que conhecia de cor e salteado todos os mexericos da cidade.
 Os Nachararians querem mat-lo  tagarelou ele , mas vo esperar por uma ocasio propcia.
Eles no tm pressa. Visitei os Kipianis algumas vezes. Nino ficou doente por muito tempo.
Depois, foi levada para Tbilisi. Agora ela est de volta. Eu a vi no baile da Associao Municipal.
Sabe de uma coisa? Ela bebia vinho como se fosse gua, e riu a noite toda. Danava s com os
russos. Os pais querem mand-la para Moscou, mas ela se recusa a ir. Sai todas as noites, e todos os
russos esto apaixonados por ela. Ilias Beg recebeu uma condecorao, e Mehmed Haidar foi
ferido. A casa de Nachararian foi queimada, e ouvi dizer que foram seus amigos que acenderam o
fogo. Ah sim, outra coisa! Nino ganhou um cozinho e bat nele diariamente, sem pena do bicho.
Ningum sabe o nome do co... uns dizem que  Ali Khan, outros garantem que  Nachararian.
Acho que ela o chama de Seid Mustafa. Tambm me encontrei com seu pai. Ele disse que vai me
dar uma surra se eu continuar bisbilhotando a vida alheia. Os Kipianis compraram uma propriedade
em Tbilisi. Talvez se mudem definitivamente para l.
Eu o olhei comovido:
 Arslan Ag, o que ser de voc? Bbado, ele olhou para mim e respondeu:
 Rei.
 O qu?
 Vou ser rei num belo pas, com muitos batalhes de cavalaria.
 E o que mais?
 Morrer.
 Como assim?
 Vou morrer para conquistar meu reino.
i e Nino
Eu ri, mas ele ficou muito ofendido:
 Eles me puseram na priso, os desgraados, por trs dias.
 Na escola?
 Sim, e adivinhe por qu. Porque escrevi mais um artigo para o jornal. Escrevi sobre a maneira
brutal como as crianas so tratadas. Meu Deus, eles fizeram um escarcu!
 Mas, Arslan, nenhuma pessoa respeitvel escreve artigos de jornal.
 Claro que sim, e quando voltar para Baku quero escrever sobre o que lhe aconteceu. Mas sem
mencionar o nome. Sou discreto, e sou seu amigo. Com um ttulo mais ou menos assim: Fugir das
lutas de sangue: um costume lamentvel em nosso pas.
Ele bebeu o resto do vinho na garrafa, caiu sobre a esteira e adormeceu imediatamente. O criado
apareceu com um olhar de reprovao, como se dissesse: Devia ter vergonha, Ali Khan, de
embriagar o rapaz desse jeito.
Sa da choupana. Que rato degenerado aquele Arslan Ag! Provavelmente, metade do que tinha
dito era mentira. Por que Nino iria batr num co? E o que importava o nome do cozinho?
Desci a rua da aldeia e me sentei em algum lugar da margem. Os penhascos se amontoavam como
as sombras da lua, olhando irritados para mim. Ser que se lembravam de algo que tinha
acontecido, ou que algum sonhara? As estrelas no cu escuro pareciam as luzes de Baku. Mil raios
de luz vieram do infinito para dentro de minhas pupilas. Fiquei sentado assim durante uma hora ou
mais, piscando em direo ao cu.
Ento ela dana com os russos, pensei, e de repente senti vontade de voltar para a cidade, para
acabar com aquele pesadelo noturno. Um lagarto se arrastou perto de mim com um rudo seco. Eu o
agarrei. Em minhas mos batia o corao do bicho assustado. Acariciei a pele fria. Os olhos
160
Kutban Said
pequenos estavam petrificados de medo, ou talvez de sabedoria. Examinei o lagarto de perto. Era
como uma pedra que ganhasse vida, antiga, gasta, com a pele murcha.
 Nino  disse eu ao lagarto, pensando no co , Nino, e se eu batsse em voc? Mas como se
bat num lagarto?
De repente, a criatura abriu a boca. Mostrou uma linguinha pontuda, que desapareceu em seguida.
Eu ri. A lngua era to pequena e to rpida! Abri a mo e o lagarto desapareceu por entre as pedras
escuras.
Levantei-me e voltei para casa. Arslan ainda dormia, deitado no cho, com a cabea apoiada nos
joelhos do criado apreensivo.
Subi para a laje em cima da casa e fumei haxixe at a hora da orao.
Captuo 20
Eb PRPRIO NO SEI como aconteceu. Um dia, acordei e vi Nino diante de mim:
 Parece que se acostumou a acordar tarde, Ali Khan  disse ela, sentando-se na beirada da
esteira.  E alm disso voc ronca. No e nada bonito.
Eu me levantei e no mostrei surpresa.
 O ronco  por causa do haxixe  disse eu, sombrio. Nino fez que sim com a cabea:
 Ento voc deve parar de fumar haxixe.
 E por que voc bat no co, infeliz?
 O co? Ah, sim! Eu o pego pelo rabo com a mo esquerda e bato nas costas dele com a direita,
at ele gritar.
 E que nome lhe deu?
 Eu o chamo de Kilimanjaro  disse Nino terna. Esfreguei os olhos e de repente vi tudo ntido 
minha frente: Nachararian, o cavalo de Karabagh, a estrada ao luar e Nino sobre a sela do cavalo de Seid.
 Nino!  gritei, dando um pulo.  Como chegou at aqui?
 Arslan Ag contou a todo mundo na cidade que voc queria me matar. Ento, vimimediatamente.
Ela inclinou o rosto sobre mim. Seus olhos estavam cheios de lgrimas.
162
Kurbaii Smd
 Senti tanto a sua falta, Ali Khan!
Minha mo mergulhou nos cabelos de Nino. Beijei-a, seus lbios se abriram. O calor mido de sua
boca me embriagou. Deitei-a sobre a esteira, e com um puxo rasguei a seda colorida que cobria
seu corpo. A pele era macia e perfumada. Eu a acariciava. A respirao era agitada. Ela me olhou
nos olhos, e seus seios pequenos tremeram em minhas mos. Eu a agarrei, e ela se ps a gemer sob
meu forte abrao. Eu podia sentir as costelas sob sua pele. Elas eram estreitas e delicadas. Aninhei
o rosto em seu peito.
 Nino  disse eu, como se aquela palavra tivesse uma fora secreta e inexplicvel. Tudo o que
era visvel e palpvel desapareceu. S havia dois olhos georgianos, grandes e midos. Olhos que
refletiam tudo: medo, alegria, curiosidade e a dor mais pungente.
Ela no chorava. Porm, de repente, agarrou o cobertor e deslizou para baixo do edredom quente.
Escondeu o rosto em meu peito, e cada movimento daquele corpo esguio era um chamado da terra
que tem sede da chuva abenoada. Com cuidado, afastei o cobertor. O tempo parou...
Ficamos em silncio, cansados e felizes. De repente, Nino disse:
 Bom, ento vou para casa. Vejo que no vai me matar, afinal de contas.
 Veio sozinha?
 No, Seid Mustafa me trouxe at aqui. Disse que iria me matar, caso eu desapontasse voc. Ele
est sentado l fora com um revlver. Se eu desapontei voc, chame-o.
No o chamei. Beijei-a:
 E s veio por causa disso?
 No  respondeu ela com franqueza.
 Conte, Nino.
 O qu?
 Por que se calou naquela noite, sobre a sela do cavalo de Seid?
Ah e Nino
 Por orgulho.
 E por que est aqui agora?
 Tambm por orgulho.
Tomei sua mo e comecei a brincar com os dedos rosados:
 E Nachararian?
Nino esfregou o nariz em meu peito.
 Nachararian  disse ela devagar , voc precisa saber que ele no me raptou contra a minha
vontade. Eu sabia o que fazia, e achava que estava certa. Mas estava errada. A culpa foi minha, e
mereci a morte. Por isso me calei, e por isso vim para c. Pronto, agora j sabe tudo.
Eu lhe beijei a palma da mo, que estava quente. Ela dissera a verdade, embora o outro estivesse
morto e a verdade representasse um perigo para ela.
Nino se levantou no quarto, olhou em volta e disse, sria:
 Agora volto para casa. No precisa se casar comigo. Vou viver em Moscou.
Fui at a porta e olhei por uma fresta. Com o rosto marcado de bexiga, Seid Mustafa estava sentado
l fora, com as pernas cruzadas e um revlver na mo. A faixa verde estava bem presa  cintura.
 Seid  disse eu , chame um imame e mais uma testemunha! Vou me casar dentro de uma
hora.
 No vai precisar de imame  respondeu Seid.  Chamarei apenas duas testemunhas. Eu
prprio conduzo a cerimnia. Tenho autorizao para isso.
Fechei a porta. Nino estava deitada na cama, e os cabelos pretos lhe caam nos ombros. Ela riu:
 Ali Khan, pense no que est fazendo. Vai se casar com uma moa desonrada.
Eu me deitei a seu lado e nossos corpos se aninharam.
 Quer mesmo se casar comigo?  perguntou Nino.
 Se voc me aceitar tambm... afinal, sou kanli. Os inimigos esto atrs de mim.
164
Kurdan Saif
 Eu sei. Mas aqui no o encontraro. Vamos ficar juntos.
 Nino, quer ficar aqui? Nesta aldeia das montanhas, sem casa, sem criados?
 Sim  respondeu ela , quero ficar aqui, j que voc tem que ficar aqui. Vou cuidar da casa,
fazer o po e ser uma boa esposa.
 E no vai se aborrecer?
 No  disse ela simplesmente.  Mas como poderia? Vamos dormir debaixo da mesma
coberta...
Algum batu  porta. Vesti a roupa. Nino deslizou para dentro de meu roupo. Seid Mustafa
entrou no quarto com um turbante verde recm-amarrado na cabea. Duas testemunhas o seguiam.
Ele se sentou no cho. Tirou tinta e penas de uma caixinha de lato presa ao cinto. Somente para a
Glria de Deus, estava escrito na caixinha. Desdobrou uma folha de papel e colocou-a na palma da
mo esquerda. Mergulhou uma pena de bambu na tinta. Com letras enfeitadas, escreveu: Em nome
de Deus, o Misericordioso.
Ento, dirigiu-se a mim:
 Como se chama, senhor?
 Ali Khan, filho de Safar Khan, da casa Chirvanchir.
 F?
 Sou muulmano da corrente xiita, na interpretao do imame Djafar.
 O que deseja?
 Anunciar minha deciso de me casar com esta mulher.
 Como se chama, senhora?
 Princesa Nino Kipiani.
 F?
 Crist ortodoxa.
 O que deseja?
 Desejo me tornar a esposa deste homem.
Ah e Nino
165
 Pretende conservar sua f ou adotar a religio do marido?
Nino hesitou algum tempo, depois ergueu a cabea e disse, com orgulho e deciso:
 Pretendo conservar minha f.
Seid escrevia. O papel deslizava sobre sua mo, cobrindo-se de letras rabes com belos arabescos.
O contrato de casamento estava pronto.
 Assinem aqui  disse Seid. Escrevi meu nome.
 Com que nome devo assinar agora?  perguntou Nino.
 Com o atual.
Ela escreveu com mo firme: Nino Hanum Chirvanchir.
A seguir foi a vez das testemunhas. Por ltimo, Seid Mustafa tirou do cinto o selo com sua
assinatura e o estampou no papel. Na mais bela escrita sufi, estava escrito: Hafiz Seid Mustafa
Mechedi, escravo do Senhor do Mundo. Ele me estendeu o documento.
Ento abraou-me e disse em idioma persa:
 No sou um homem tolerante, Ali Khan. Mas Arslan Ag me contou que voc est se
arruinando nas montanhas e se entrega ao vcio. Isso  pecado. Nino me pediu que a trouxesse at
aqui. Se for verdade o que ela diz, ento ame-a. Mas, se no for verdade, vamos mat-la amanh.
 J no  mais verdade, Seid Mustafa. Apesar disso, no vamos mat-la.
Ele se calou atnito. Depois olhou em torno e deu uma risada.
Uma hora mais tarde, o cachimbo de haxixe foi jogado solenemente no abismo.
E foi assim que nos casamos.
De maneira inesperada, a vida valia a pena de novo. Tudo mudara. A aldeia sorria quando eu
caminhava pela rua, e eu sorria de volta, pois estava feliz. De madrugada, via Nino sair descala com um pcaro de
barro vazio. Ela corria para o riacho e voltava, tomando cuidado para no ferir os calcanhares nas
pedras afiadas. Levava o pcaro de gua no ombro direito. A mo pequena segurava o vaso
firmemente. S uma vez, bem no comeo, ela tropeou e deixou cair o pcaro. Chorou
amargamente aquela vergonha. As mulheres dos vizinhos a consolaram. Nino trazia gua todos os
dias, juntamente com todas as mulheres da aldeia. Em fila indiana, as mulheres subiam a montanha,
e de longe eu avistava as pernas nuas de Nino e seu olhar voltado para frente. Ela no olhava para
mim, e eu tambm desviava o olhar. Nino entendeu imediatamente o costume das montanhas. No,
sob hiptese alguma se deve mostrar o amor que se sente diante de outras pessoas. Ela entrava na
choupana escura, fechava a porta e colocava o pcaro no cho. Estendia um copo de gua, e de um
canto tirava po, queijo e mel. Comamos com as mos, como todas as pessoas no aul. Sentvamo-
nos no cho, e Nino logo aprendeu a difcil arte de se sentar com as pernas cruzadas. Depois da
refeio, Nino lambia os dedos, mostrando os dentes brancos e reluzentes:
 Pelos costumes daqui  disse ela , eu teria que lavar seus ps. Mas, j que estamos sozinhos
e eu caminhei at o riacho,  voc que vai lavar os meus.
Eu mergulhava na gua aqueles brinquedos pequenos e divertidos que ela chamava de ps. Ela
chapinhava, fazendo gotas espirrarem sobre minha cara. Depois, amos para o terrao. Eu me
sentava numa almofada, com Nino a meu lado. s vezes, ela cantarolava um pouco. s vezes se
calava, voltando para mim o rosto de madona. Eu sentia um grande bem-estar, como nunca sentira
na vida. Se pudesse, ficaria naquele terrao pelo resto da vida. Ficaria sozinho com Nino, que tinha
ps to pequenos e usava as calas bufantes do Daguesto, de um vermelho berrante. Nada
Ali e Nino
167
fazia supor que estava acostumada a viver, pensar e agir de maneira diferente das outras mulheres
do aul.
Ningum tinha criados em toda a aldeia, e ela tambm se recusava a t-los. Fazia a comida,
conversava com as mulheres das casas vizinhas e me contava os pequenos mexericos da aldeia. Eu
cavalgava, saa para caar, trazia o animal abatido e comia os pratos exticos que sua fantasia
criava.
Certa vez, fui at uma aldeia vizinha chamada Chunsach. Voltei com produtos da civilizao: uma
lamparina de petrleo, um alade, um gramofone e um xale de seda... Os olhos dela se iluminaram
quando viu o gramofone. Infelizmente, em toda a aldeia de Chunsach, s consegui achar dois
discos. Uma dana das montanhas e uma ria da Ada de Verdi. Ns as tocvamos alternadamente,
tantas vezes, que no final no sabamos distinguir uma da outra. De noite, ela se aninhava embaixo
da coberta como um animalzinho:
 Est feliz, Ali Khan?
 Muito. E voc? No quer voltar para Baku?
 No  respondeu ela, sria , quero mostrar que sei agir como agem todas as mulheres da
sia: servindo ao marido.
De Baku chegavam notcias esparsas. Os pais de Nino imploravam que fssemos para um lugar
melhor, ou nos ameaavam com sua maldio. O pai de Nino nos visitou uma vez. Ficou furioso
quando viu a choupana de sua filha:
 Pelo amor de Deus, partam imediatamente! Nino vai ficar doente neste fim de mundo.
 Nunca me senti to bem, pai  disse Nino , e, alm disso, no podemos partir. No pretendo
ficar viva to cedo.
 Mas existem pases neutros onde nenhum Nachararian poderia ach-los. A Espanha, por
exemplo.
 Mas pai, como chegar  Espanha?
 Pela Sucia.
 No viajo para a Sucia!  gritou Nino, irritada. O prncipe partiu. Todos os meses mandava
roupa, bolos e livros. Nino conservava os livros e distribua o resto ao povo
  ( Kurban Sala
da aldeia. Meu pai tambm nos fez uma visita. Nino o recebeu com um sorriso tmido. Era assim
que costumava sorrir na escola diante de uma equao com muitas incgnitas. Mas a equao logo
foi resolvida:
 Voc cozinha?
 Sim.
 E sai para buscar gua?
 Sim.
 Estou cansado da longa viagem. Pode lavar meus ps? Ela foi buscar o pcaro e lavou os ps
dele.
 Obrigado  disse ele, tirando do bolso um longo colar de prolas rosadas e colocando-o no
pescoo de Nino.
 Voc tem uma boa esposa, Ali Khan, mas ela no cozinha bem. Vou lhe mandar um cozinheiro
de Baku.
 No, por favor  exclamou Nino , quero servir meu marido.
Ele riu e lhe mandou dois brincos de grandes brilhantes da cidade.
Nossa aldeia vivia em paz. S uma vez Kasi Mullah chegou com a grande notcia: tinham agarrado
um estrangeiro nas proximidades da aldeia. Aparentemente era um armnio. Ele estava armado.
Toda a aldeia correu para ver. Eu era hspede do aul. Minha morte representaria vergonha eterna
para cada um dos camponeses. Sa tambm, para ver o estrangeiro. Era um armnio. Mas ningum
sabia se era um dos Nachararians. Os sbios da aldeia chegaram, deliberaram e anunciaram a
deciso: o homem devia ser espancado e expulso da aldeia. Se fosse um dos Nachararians, avisaria
os outros. Se no fosse, Deus reconheceria a boa inteno dos camponeses e os perdoaria.
 noite, quando se apagava a lamparina de petrleo, Nino ficava deitada a meu lado, de olhos bem
abertos no quarto escuro. Fazia longas consideraes: se era realmente necessrio pr tanto alho no
carneiro assado, se o poeta Rustaveli tivera um envolvimento com a rainha Tamar. E o que ela faria
Afi e Nino   ((L,/ 169
caso sentisse dores de dente na aldeia? E por que no dia anterior a vizinha tinha espancado o
marido com uma vassoura?
 A vida  cheia de segredos  disse ela preocupada, e adormeceu. Durante a noite, acordou de
repente e resmungou com orgulho: Meu nome  Nino. Depois adormeceu de novo, e eu cobri
seus ombros estreitos.
Nino, pensei, na verdade voc merece coisa melhor do que viver numa aldeia do Daguesto.
Em algum lugar de um outro planeta, a guerra continuava. Porm, no ouvamos nenhuma notcia.
As montanhas estavam cheias de lendas do tempo de Chamil. Os relatrios de guerra no chegavam
at ns. s vezes, alguns amigos mandavam jornais. Eu nunca lia uma nica linha:
 Voc se lembra de que ainda estamos em guerra?  perguntou Nino certa vez.
Dei uma risada:
  verdade, Nino, quase me esquecia.
No, no podia haver vida melhor, ainda que fosse s um jogo entre passado e futuro. Um presente
casual de Deus a Ali Khan Chirvanchir.
Ento chegou a carta. Foi trazida por um mensageiro cujo cavalo chegou exausto, coberto por uma
espuma de suor. No era de meu pai, nem de Seid Mustafa. No envelope estava escrito: De Arslan
Ag para Ali Khan.
 O que ele quer?  perguntou Nino, admirada. O mensageiro disse:
 Outras cartas esto a caminho. Arslan Ag me deu muito dinheiro para que o senhor recebesse a
carta dele em primeiro lugar.
Acabou nossa paz no au pensei, abrindo a carta. Li em voz alta:
Em nome de Deus, eu o sado, Ali Khan! Como vo voc, seus cavalos, seu vinho, suas ovelhas e
sua gente? Eu tambm vou bem, assim como meus cavalos, meu vinho e minha gente. Queria lhe
contar: grandes coisas acontece-
170
Kutmtt Sau
ram em nossa cidade. Os presidirios fugiram da priso e agora caminham pelas ruas. Onde foi
parar a polcia?, perguntar voc. Mas prepare-se: a polcia trocou de lugar com os prisioneiros.
Os policiais foram levados para o presdio  beira-mar. E os soldados? No h mais soldados. J
estou vendo, meu amigo, com certeza se pergunta: como nosso sbio governador tolera esse estado
de coisas? Mas saiba que no temos mais governador. Ontem ele decidiu fugir, cansado de
governar cidados to pouco respeitveis. Deixou algumas calas e um velho distintivo. Agora voc
est rindo, Ali Khan. Pensa que tudo  mentira. Mas fique sabendo que no  mentira. Com certeza
pergunta: Sim, e por que o czar no manda uma nova polcia e um novo governador? Pois fique
sabendo de mais uma: j no existe czar. No existe mais nada. Ainda no sei que nome do a tudo
isso, mas ontem espancamos o diretor da escola e ningum estava l para nos impedir. Sou seu
amigo, Ali Khan, e queria que voc recebesse a notcia atravs de mim, embora muita gente na
cidade esteja lhe escrevendo hoje. Saiba tambm que todos os Nachararians fugiram, e no h mais
polcia. Que a paz o acompanhe, Ali Khan. Seu amigo e criado,
Arslan Ag.
Levantei o olhar. Nino empalidecera de repente.
 Ali Khan  disse ela, com a voz trmula , o caminho est livre. Vamos partir, partir, partir!
Tomada por um estranho xtase, ela repetia aquela palavra. Abraou-me, soluando. Os ps nus
pisavam inquietos na areia do terrao.
 Sim, Nino, claro que vamos partir.
Eu me sentia alegre e triste ao mesmo tempo. As montanhas brilhavam no esplendor amarelo de
seus penhascos calvos. As choupanas pareciam colmeias, e o pequeno minarete chamava em
silncio para a prece e a contemplao.
Aquele foi nosso ltimo dia no aul.
Captuo 21
A ALtGRiA E o MEDO SE MISTURAVAM no rosto das pessoas. Faixas de cor escarlat com
inscries absurdas foram penduradas nas ruas. Nas esquinas, vendedoras de feira exigiam
liberdade para os ndios da Amrica e os bosqumanos da frica. A frente de batalha se esvaziara.
O gro-duque tinha desaparecido, e legies de soldados maltrapilhos vagueavam pela cidade. De
noite se ouviam tiros, de dia as lojas eram saqueadas.
Nino se inclinou sobre o atlas.
 Estou procurando um pas sem guerras  disse ela, percorrendo as fronteiras coloridas com o
dedo.
 Talvez Moscou? Ou So Petersburgo?  perguntei, zombando. Ela deu de ombros. Os dedos
descobriram a Noruega.  Claro,  um pas sem guerras  disse eu , mas como se chega l?
 Impossvel  suspirou Nino.  E os Estados Unidos?
 De submarino  respondi, alegre.
 ndia, Espanha, China, Japo?
 Ou esto em guerra, ou no tm acesso.
 Ali Khan, estamos num beco sem sada.
Tem razo, Nino.  intil fugir. Precisamos ajudar
nossa cidade a tomar juzo, pelo menos at a chegada dos turcos.
172
KUIKW Saia
 Por que meu marido sempre tenta bancar o heri?  perguntou Nino.  No gosto nada de
faixas, cartazes e discursos. Se continuar assim, fujo para a casa de seu tio na Prsia.
 Isso no vai continuar assim  disse eu, saindo de casa.
Uma reunio fora convocada no salo da Associao Beneficente Islmica. Os melhores homens,
aqueles que, na casa de meu pai, tinham manifestado preocupao pelo destino do povo, no
estavam presentes. Eram rapazes de bons msculos que enchiam o salo. Na soleira, cumprimentei
Ilias Beg. Ele tinha voltado da frente de batalha juntamente com Mehmed Haidar. Agora estavam
livres do juramento de guerra, pois o prprio czar havia renunciado ao trono. Apareceram na cidade
bronzeados de sol, orgulhosos e robustos. A guerra lhes fizera bem. Pareciam homens que tinham
vislumbrado outro mundo, e a viso desse outro mundo estaria guardada para sempre em seus
coraes.
 Ali Khan  disse Ilias Beg , temos de fazer alguma coisa. O inimigo est s portas da cidade.
 Sim, precisamos nos defender.
 No, precisamos atacar.
Foi at a tribuna. Ento falou alto, em tom de comando:
 Muulmanos! Deixem-me apresentar mais uma vez a situao de nossa cidade. Desde o incio
da revoluo, a frente de batalha se desfaz. Desertores russos de todos os partidos polticos,
armados e dispostos a saquear tudo, esto acampados diante de Baku. Na cidade h uma nica
formao militar muulmana. Somos ns, os voluntrios da Diviso Selvagem. Somos inferiores
aos russos, tanto em homens quanto em munio. A segunda unidade de guerra de nossa cidade  a
formao militar do Partido Nacionalista Armnio Dachnak-Tutun. Os lderes desse partido, Stepa
Lalai e Andronik, fizeram contato conosco. Eles esto alistando cidados armnios num exrcito
que se deslocar
Ai e Nino
para Karabagh e a Armnia, a fim de proteger essas regies. Ns concordamos com a formao
desse exrcito e com a marcha para a Armnia. Em compensao, os armnios se juntaram a ns
num ultimato aos russos, onde exigimos que soldados e fugitivos russos no tenham mais
permisso de entrar em nossa cidade. Se os russos recusarem a proposta, teremos condies,
juntamente com os armnios, de impor nossa exigncia pela fora das armas. Muulmanos, alistem-
se na Diviso Selvagem! O inimigo est s portas da cidade.
Eu ouvia em silncio. Sentia um cheiro de guerra e sangue. Havia muitos dias, praticava o manejo
da metralhadora no ptio da caserna. Agora, minha nova habilidade seria posta  prova. Mehmed
Haidar, de p a meu lado, brincava com a cartucheira. Eu me virei e disse:
 Venham at minha casa depois da reunio, voc e Ilias. Seid Mustafa vem tambm. Precisamos
conversar.
Ele acenou. Fui para casa. Nino preparou o ch. Os amigos chegaram logo. Estavam armados, e at
mesmo da faixa verde de Seid pendia um punhal. Havia um silncio estranho entre ns. s
vsperas da luta, a cidade tinha um aspecto inquietante e opressivo. As pessoas ainda andavam
pelas ruas, ocupadas com seus afazeres. Mas sua atividade tinha algo de irreal e fantasmagrico.
Era como se adivinhassem que a vida de todos os dias em breve perderia o sentido.
 Vocs tm armas suficientes?  perguntou Ilias Beg.
 Cinco carabinas, oito revlveres, uma metralhadora e munio. Alm disso, temos um poro
para as mulheres e crianas.
De repente, Nino ergueu a cabea.
 No quero me esconder num poro  decidiu ela.  Vou defender minha casa junto com
vocs.
A voz dela era dura e obstinada.
174
Kiiitan Smii
 Nino  respondeu calmamente Mehmed Haidar  , deixe os tiros para ns. Voc cuida das
feridas.
Nino baixou os olhos. Num tom abafado, disse:
 Meu Deus, nossas ruas se tornaro um campo de batalha. O teatro ser o quartel-general.
Atravessar a rua Nikolai logo ser mais difcil do que viajar para a China. Teremos que mudar a
poltica ou derrotar um exrcito para chegar ao Colgio da Rainha Tamar. Imagino vocs
rastejando no Jardim do Governador, armados at os dentes.  beira do lago, onde eu antigamente
costumava encontrar Ali Khan, ser montada uma metralhadora. Vivemos numa cidade estranha.
 No haver luta  disse Ilias.  Os russos aceitaro o ultimato.
Mehmed Haidar deu uma risada sombria:
 Esqueci-me de contar que encontrei Assadullah agora h pouco. Ele disse que os russos no
aceitam o ultimato e exigem nossa rendio. Mas no vou depor as armas!
 Isso significa luta  disse Ilias  , para ns e nossos aliados armnios.  Nino se calou, com o
rosto voltado para a janela. Seid Mustafa endireitou o turbante:
 Al, Al  disse ele  , no estive na frente de batalha. No sou to esperto quanto Ali Khan.
Mas conheo a Lei. Uma aliana de guerra entre muulmanos e infiis  um problema srio. Alis,
 um problema srio depender de aliados, sejam eles quem forem.  o que diz a Lei, e a vida 
assim. Quem conduz as tropas armnias? Stepa Lalai! Vocs o conhecem. Em 1905, seus pais
foram assassinados por muulmanos. No acredito que ele tenha se esquecido disso. E tambm no
acredito que os armnios lutem conosco contra os russos. Afinal de contas, quem so esses russos?
Uma corja de maltrapilhos, anarquistas e ladres. Seu lder se chama Stepan Chaumian e 
armnio.  muito mais plausvel uma unio entre anarquistas armnios e nacionalistas armnios do
que entre nacionalistas muulmanos e nacio-
175
nalistas armnios.  o Segredo do Sangue. Essa unio vai acabar em discrdia. Podem acreditar
nisso, como se estivesse escrito no Coro.
 Seid  disse Nino , alm do sangue, existe tambm o bom senso. Se os russos vencerem,
tanto Lalai como Andronik estaro em dificuldades.
Mehmed Haidar riu de repente.
 Perdo, amigos  disse ele , eu s estava imaginando o que ser dos armnios se vencermos
a guerra. Quando os turcos invadirem a Armnia, no estaremos l para defend-la.
Ilias Beg parecia muito irritado:
 No se deve dizer nem pensar uma coisa dessa! A questo armnia tem uma soluo muito
simples. Os batalhes comandados por Lalai sero deslocados at a Armnia. E as famlias
acompanharo os soldados. Daqui a um ano, no haver mais armnios em Baku. Eles tero um
pas s para eles, e ns teremos o nosso. Seremos apenas vizinhos.
 Ilias Beg  disse eu , Seid tem um pouco de razo. Voc se esqueceu do Segredo do Sangue.
Stepa Lalai teria de ser um canalha para esquecer o dever do sangue, pois seus pais foram
assassinados por muulmanos.
 Ou teria de ser um poltico, Ali Khan! Um homem que reprime o mpeto do sangue para poupar
o sangue de seu povo. Se ele for esperto, ficar do nosso lado. Em seu prprio interesse e no
interesse do povo.
E assim continuamos a discutir at o anoitecer. Ento, Nino disse:
 No sei se vocs so polticos, ou apenas pessoas sensatas. Mas espero que daqui a uma semana
estejam aqui novamente, sos e salvos. Pois se a cidade estiver em luta...
Ela no terminou a frase.
De noite, ela ficou deitada a meu lado, sem dormir, com a boca semi-aberta e os lbios midos. Em
silncio, olhava fixamente pela janela. Eu a abracei. Ela voltou o rosto para mim e disse, baixinho:
Kuiban Saia
 Tambm vai lutar, Ali Khan?
 Claro que sim, Nino.
 Sim  disse ela  , claro que sim.
De repente, ela envolveu meu rosto com as mos e o apertou contra o peito. Ento me beijou, com
os olhos bem abertos. Nino parecia tomada de paixo selvagem. Calada e insacivel, ela colou seu
corpo no meu, com um sentimento de prazer, submisso e medo da morte. O rosto parecia
mergulhado em outro mundo, um mundo que s ela conhecia. De repente, ela caiu em si, segurou
minha cabea bem diante dos olhos e disse, de maneira quase inaudvel:
 A criana se chamar Ali.
Ento ela se calou novamente, corn o olhar velado em direo  janela.
Sob o luar plido, o velho minarete mostrava seu perfil esguio e gracioso. As sombras do muro da
fortaleza eram escuras e ameaadoras. Ao longe, ouvia-se um rudo metlico. Algum afiava o
punhal. Aquele rudo parecia um pressgio. Ento o telefone tocou. Levantei-me e cambaleei pelo
quarto escuro. Ouvi a voz de Ilias Beg no aparelho:
 Os armnios se aliaram aos russos e exigem que todos os muulmanos deponham as armas. At
amanh s trs da tarde. Claro que vamos recusar. Voc ficar encarregado da metralhadora perto
do muro,  esquerda do Portal de Zizianachvili. Mando mais trinta homens. Prepare tudo para a
defesa do portal.
Pus o fone no gancho. Sentada na cama, Nino me fitava. Apanhei o punhal e verifiquei se estava
afiado.
 O que houve, Ali?
 O inimigo est s portas da cidade, Nino.
Eu me vesti e chamei os criados. Eles chegaram, fortes e desajeitados, os ombros largos. Dei uma
carabina a cada um. Depois, fui falar com meu pai. Ele se olhava num espelho, enquanto o criado
escovava seu casaco tcherkess.
 Qual ser sua posio, Ali Khan?
 Ao lado do Portal de Zizianachvili.
Afi e Nino
177
 Muito bem. Estarei no salo da Associao Beneficente, como membro do estado-maior.  Seu
sabre tinia, e ele cofiou o bigode.  Seja corajoso, Ali. Os inimigos no podem atravessar o muro.
Se ocuparem a praa diante do portal, abra fogo com a metralhadora. Assadullah vai reunir os
camponeses das aldeias para atac-los pelas costas na rua Nikolai.  Ps o revlver no coldre e
piscou, cansado:  s oito da noite, parte o ltimo vapor para a Prsia. Voc precisa tirar Nino
daqui. Se os russos vencerem, estupraro todas as mulheres.
Fui at o meu quarto. Nino falava ao telefone:
 No, mame  dizia ela , fico aqui. No h perigo. Obrigada, papai, no se preocupe, temos
comida suficiente. Sim, muito obrigada. Mas, por favor, me deixem em paz. No, no posso ir, j
disse que no!
A ltima frase soou como um grito. Ela desligou.
 Voc tem razo, Nino  disse eu , no estar em segurana na casa de seus pais. s oito
horas parte um vapor para a Prsia. Faa as malas.
Ela corou.
 Est me mandando embora, Ali Khan? Nunca tinha visto Nino com o rosto to rubro.
 Em Teer voc estar em segurana, Nino. Se os inimigos vencerem, estupraro todas as
mulheres.
Ela ergueu a cabea e disse em tom de desafio:
 Ningum vai me estuprar. No a mim. No se preocupe, Ali!
 Fuja para a Prsia, Nino, ainda  tempo.
 Pare com isso!  disse ela, sria.  Ali, sinto tanto medo! Medo do inimigo, da guerra e de
todas as coisas terrveis que nos esperam. Mas fico aqui, apesar de tudo. No posso ajud-lo. Mas
sou sua. Tenho de ficar, e ponto final.
Sua deciso era definitiva. Beijei-a nos olhos e senti orgulho. Era uma boa esposa, embora no
ouvisse meu conselho. Sa de casa.
178
Kuiean Sait
Amanhecia. O ar estava cheio de poeira. Escalei o muro. Meus criados estavam deitados por trs
das ameias, com suas carabinas. Os trinta homens de Ilias Beg observavam atntamente a praa
Duma vazia. Com seus bigodes e rostos morenos, tinham um aspecto lerdo, calado e tenso. A
metralhadora, com o pequeno cano de disparo, parecia um nariz russo, empinado e largo. Tudo em
volta permanecia no mais absoluto silncio. Vez por outra, mensageiros corriam ao longo do muro.
Eles traziam ordens breves. Em algum lugar, ancios e lderes religiosos ainda tentavam, no ltimo
minuto, o milagre da conciliao.
O sol nasceu. Do cu, uma luz rubra veio se refletir nas pedras. Olhei em direo  minha casa.
Nino estava sentada no telhado, com o rosto virado para o sol. Por volta de meio-dia, ela veio at o
muro. Trouxe comida e bebida e examinou a metralhadora, curiosa. Sem dizer nada, ficou agachada
 sombra at que eu a mandasse para casa.
Era uma hora da tarde. No minarete, Seid Mustafa cantava sua orao em tom lamentoso e solene.
Depois veio at ns, arrastando desajeitadamente uma carabina presa s costas. Em sua faixa estava
pendurado o Coro. Olhei para a praa Duma, alm do muro. Vi poeira e alguns vultos, curvados de
medo, atravessando a praa rapidamente. Uma mulher de vu corria, maldizendo e tropeando, em
direo aos filhos que brincavam na praa.
Um, dois, trs. Rompendo o silncio, os sinos da Prefeitura comearam a tocar. E ao mesmo tempo,
como se o toque dos sinos abrisse uma porta para outro mundo misterioso, ouviram-se os primeiros
tiros nos arredores da cidade...
Captufo 22
Era uma noite sem lua. O veleiro deslizava sobre as ondas indolentes do mar Cspio. A gua que
salpicava o barco e espirrava para dentro era amarga e salgada. De noite, a vela preta lembrava as
asas abertas de um grande pssaro.
Eu estava deitado no casco encharcado do veleiro, embrulhado numa pele de carneiro. O barqueiro,
um tekine de rosto largo e imberbe, olhava indiferente para as estrelas. Levantei a cabea, e minha
mo deslizou pela l do carneiro.
 Seid Mustafa?  perguntei.
Um rosto marcado de bexiga se inclinou sobre mim. O misbaha de contas vermelhas nos dedos...
Era como se a mo bem-tratada de Seid brincasse com gotas de sangue.
 Quieto, Ali Khan, sou eu  disse ele. Vi lgrimas em seus olhos e me levantei:
 Mehmed Haidar est morto  disse eu.  Vi seu corpo na rua Nikolai. Tinham-lhe cortado as
orelhas e o nariz.
Seid se aproximou de mim:
 Os russos vieram de Bailov e cercaram o passeio  beira-mar. Voc expulsou as pessoas para
longe da praa Duma.
 Sim  eu me lembrei , ento chegou Assadullah com a ordem de ataque. Avanamos com
baionetas e punhais. Voc cantou a orao Ia sin.
180
 Kuieiw Snid
 E voc.    voc bebeu o sangue do inimigo. Sabe quem estava lutando na esquina com a rua
Achum? Todos os parentes de Nacharanan. Eles foram eliminados.
 Foram eliminados  repeti ; mandei instalar oito metralhadoras no telhado da casa Achum.
Tnhamos toda a regio sob controle   .
Seid Mustafa esfregou a testa Seu rosto estava polvilhado de cinza:
 Deram tiros Ia no alto, o dia inteiro. Algum disse que voc estava morto. Nino tambm ouviu
isso, mas ficou calada. Ela no queria se esconder no poro  Ficou calada no quarto. Enquanto isso,
as metralhadoras disparavam De repente, ela cobriu o rosto com as mos e gritou No quero mais,
no quero mais! O tiroteio continuou at as oito da noite  Ento a munio acabou. Mas os
inimigos no sabiam disso. Pensavam que fosse uma armadilha. Musa Nagi tambm esta morto. Foi
estrangulado por Lalai
Eu ouvia em silncio O tekme do Deserto de Areias Vermelhas olhava fixamente para as estrelas.
Seu cafet de seda flutuava na brisa.
Seid disse
 Ouvi dizer que voc estava lutando na multido, perto do Portal de Zizianachvih Mas no vi
nada. Eu estava na outra extremidade do muro
 Sim, eu lutei na multido. Vi uma jaqueta de couro preto Avancei com o punhal, e a jaqueta se
tingiu de vermelho Aiche, minha prima, tambm esta morta
A gua era lisa. O barco cheirava a alcatro. Era um barco sem nome, como as praias do Deserto de
Areias Vermelhas. Seid disse baixinho:
 Nos, que estvamos nas mesquitas, nos cobrimos com mortalhas  Ento pegamos punhais e
avanamos contra o inimigo. Quase todos esto mortos. Mas Deus no quis que eu morresse lhas
tambm esta vivo Ele esta escondido no campo  E como saquearam sua casa, Ali No sobrou
Ali eNmo
181
nem um tapete, nem um s movei, nem uma s loua S as paredes nuas.
Fechei os olhos. Tudo em mim era uma nica dor. Vi carroas com cadveres e Nino com uma
trouxa de roupa, a noite, na margem encharcada de petrleo de Bibi-Eibat. O barco com o homem
do deserto atracou. O farol brilhava na ilha Nargin. A cidade desapareceu na neblina da noite. As
torres de perfurao nos olhavam como sentinelas assustadoras
Agora eu estava embrulhado numa pele de carneiro, e a dor surda dilacerava meu peito. Levantei-
me Nino estava deitada sob um pequeno abrigo de lona O rosto dela parecia estreito e muito plido.
Apertei sua mo fria e senti o ligeiro tremor de seus dedos
Meu pai estava sentado por trs de nos, ao lado do barqueiro. Eu ouvia rases desconexas
 e o senhor acredita de fato que no osis Tchardchui e possvel mudar a cor dos olhos?
 Sim, Khan. No mundo inteiro, s ha um lugar onde se pode mudar a cor dos olhos. Um santo
profetizou
 Nino  disse eu  , meu pai conversa sobre os milagres do osis Tchardchui. E preciso ser
como ele para suportar este mundo
 Pois eu no suporto mais  disse Nino  , no suporto. Ah Khan, a poeira das ruas ficou
vermelha de sangue
Ela escondeu o rosto nas mos e chorou em silencio Seus ombros tremiam . Sentado ao lado, eu
pensava na praa diante do grande muro, no corpo de Mehmed Haidar estirado na rua Nikolai e na
jaqueta de couro preto que ficara vermelha de repente.
Estar vivo era um sentimento doloroso
Bem ao longe, ouvi a voz de meu par A ilha Tcheleken tem cobras?
 Sim, Khan, cobras enormes e venenosas Mas nunca foram vistas por olhos humanos  S um santo
do osis Merv contou uma vz.
182  (T, KurOan Saui
Eu no agentava mais. Fui at o leme e disse:
 Pai, a sia est morta. Nossos amigos caram. Fomos expulsos. Deus nos castiga, e voc
conversa sobre as cobras da ilha Tcheleken.
O rosto de meu pai continuou sereno. Ele se apoiou no pequeno mastro e me olhou longamente:
 A sia no est morta. Apenas suas fronteiras mudaram. Para sempre. Baku agora pertence 
Europa. E no  por acaso. No h mais asiticos em Baku.
 Pai, defendi nossa sia por trs dias, com metralhadora, baioneta e punhal.
 Voc  corajoso, Ali Khan. Mas o que  a coragem? Europeus tambm podem ser corajosos.
Voc no  mais um asitico, assim como todos os que lutaram a seu lado. No odeio a Europa. A
Europa me deixa indiferente. Voc a odeia, porque tem alguma coisa de europeu. Freqentou a
escola russa, sabe latim e se casou com uma europia. Voc ainda  asitico? Se tivesse vencido,
teria implantado a Europa em Baku do mesmo jeito, sem querer. Tanto faz se somos ns ou os
russos quem ir construir as novas estradas e fbricas. No havia outra sada. Para ser um bom
asitico, no  suficiente sentir sede de sangue e matar inimigos aos montes.
 E o que  preciso, ento?
 Voc  metade europeu, Ali Khan, e por isso faz essa pergunta. Mas no tem sentido responder,
porque voc s acredita nas coisas visveis. Seu rosto est voltado para a terra. Por isso a derrota
lhe di, e por isso voc revela sua dor.
Meu pai se calou, com o olhar velado. Tal como todas as pessoas mais velhas de Baku e da Prsia,
ele conhecia outro mundo, diferente do mundo real, um mundo de sonhos ocultos no qual podia se
refugiar, inatingvel. Eu tinha uma vaga idia daquele mundo de paz quase extratrrena, no qual era
possvel enterrar amigos e ao mesmo tempo conversar com um barqueiro sobre os milagres do osis
Tchardchui.
 Nino
Bati  porta daquele mundo, mas ningum veio abrir. Estava envolvido demais em nossa realidade
dolorosa.
Eu prprio no era mais um asitico. Ningum me fez essa acusao explicitamente, mas todos
pareciam saber isso. Eu me tornara um estrangeiro, sonhando com o regresso ao lar no mundo
imaginrio da sia.
De p no barco, olhei para o espelho escuro das guas. Mehmed morto, Aiche morta, nossa casa
devastada.
Agora, eu viajava no pequeno veleiro para o pas do x, a grande e pacfica Prsia.
De repente, Nino estava a meu lado.
 Prsia  disse ela, baixando os olhos , o que vamos fazer l?
 Descansar.
 Sim, descansar. Quero dormir, Ali Khan, um ms ou um ano inteiro. Dormir num jardim com
rvores verdes. E sem tiros por perto.
 Ento voc est indo para o pas certo. A Prsia dorme h mil anos, e l raramente se ouvem
tiros.
Fomos at o convs. Nino adormeceu imediatamente. Continuei acordado por muito tempo,
admirando a silhueta de Seid e as gotas de sangue em seus dedos. Ele rezava. Tambm conhecia
aquele mundo oculto que comea onde termina a realidade visvel.
Por trs do sol nascente estava a Prsia. Sentamos sua respirao, acocorados no cho do veleiro,
comendo peixes secos e bebendo gua. O selvagem do povo dos tekines conversava com meu pai e
olhava para mim com indiferena, como se eu fosse um objeto.
No entardecer do quarto dia, uma faixa amarela surgiu no horizonte. Parecia uma nuvem. Era a
Prsia. A faixa se alargou. Vi cabanas de barro e ancoradouros modestos. Enseli  o porto do x.
Atracamos no cais de madeira apodrecida. Um homem de sobrecasaca e gorro alto de pele de
carneiro se aproximou. Em sua testa brilhava o leo de
184
Kuiean Sai
prata com a pata erguida e o sol nascente Dois guardas do porto, descalos e maltrapilhos, o
seguiam devagar. O homem voltou para nos os olhos grandes e redondos e disse.
 Como uma criana que se alegra aos primeiros raios de sol no dia de seu nascimento, eu lhes
desejo boas-vindas, nobres estrangeiros. Tm documentos?
 Somos da Casa Chirvanchir  respondeu meu pai.
 Ento, o Grande Leo do Imprio, Assad es Saltaneh, para quem se abre o Porto dos Diamantes
do X, tem a felicidade de compartilhar o mesmo sangue que vocs?
 E meu irmo.
Desembarcamos. O homem nos acompanhou. Quando chegamos ao armazm, ele disse:
 Assad es Saltaneh adivinhou que viriam. Ele mandou uma maquina mais possante que o leo,
mais rpida que o cervo, mais bela que a guia e mais segura que uma fortaleza
Viramos a esquina, um Ford antigo e gasto, com pneus remendados, ofegava na rua. Entramos. A
maquina tremeu. O chofer nos olhava como o capito de um barco a vapor. Depois de apenas meia
hora, o carro se ps em movimento. Seguimos para Teer, passando por Recht.
Captufo 23
ENSELI, RECHT , ESTRADAS E ALDEIAS envoltas pelo sopro do deserto. De tempos em
tempos, o Abi-Iesid surge no horizonte como um fantasma. E a gua do Diabo, a Fata Morgana da
Prsia. A longa estrada para Recht corre ao longo de um leito de no. O prprio rio secou e esta
cheio de fendas. No ha gua nos nos da Prsia. Unicamente, aqui e ali, algumas poas e charcos.
Penhascos se erguem nas margens secas, projetando sombras imensas. Com seus ventres gordos,
lembram gigantes pre-histoncos saciados e sonolentos. Ao longe ouvem-se os sinos de uma
caravana. O carro diminui a marcha. Os camelos caminham pela encosta ngreme. O guia da
caravana segue a frente, segurando uma vara Pessoas de trajes escuros vo atras. Os camelos
continuam a caminhar, fortes e tensos. Os sininhos ao pescoo ecoam devagar, a cada passo. A
direita e a esquerda, sacolas escuras e compridas pendem dos lombos cinzentos. Tecidos de
Isfahan? L de Gihan? O carro para. So cadveres que esto empilhados nos lombos dos camelos.
Cem, duzentos cadveres, envoltos em lenis escuros. Os camelos desfilam diante de nos, com
suas cabeas que parecem espigas ao vento. Por desertos e montanhas, pela ardncia branca das
estepes de sal, por osis verdes e grandes lagos, a caravana transporta sua carga. Bem longe na
direo oeste, na fronteira turca, os
Kuifian Snu
camelos se sentaro no cho seco, dobrando os joelhos. Funcionrios com a cabea coberta pelo
fez, o barrete vermelho dos turcos, apalparo os cadveres, e a caravana seguira seu caminho at as
cpulas da cidade santa de Kerbela. No tmulo do mrtir Hussem, a caravana para Mos
cuidadosas levam os cadveres a cova, para que descansem na areia de Kerbela at que a trombeta
do arcanjo os desperte do sono. Nos nos inclinamos numa reverencia, cobrindo os olhos com as
mos:
 Rezem por nos no tmulo do santo!  gritamos, e o guia responde-
 Nos e que precisamos de orao.
E a caravana se afasta, silenciosa e vaga como o Abilesid, a Fata Morgana do grande deserto.
Atravessamos as ruas de Recht. Madeira e barro encobrem o horizonte. Aqui, os milnios passados
espreitam. O olhar abarca casas de barro e ruelas estreitas. A estreiteza das ruas sugere um medo do
espao aberto. Tudo tem a mesma cor Cinza ou carvo em brasa. Tudo e minsculo, talvez por
fora do destino. S aqui e ali uma mesquita se da a ver de repente.
Homens com turbantes redondos que parecem abboras e o crnio raspado O rosto deles lembra
uma mascara.
Por toda parte, p e sujeira No que os persas gostem de p e sujeira. Mas eles deixam as coisas tal
como esto, pois sabem que afinal de contas tudo se transforma em p. Entramos depressa na
pequena casa de ch. Ha um cheiro de haxixe no ar. Todos encaram Nino com um olhar de
esguelha Envolto em trapos, com os cabelos desgrenhados, a boca aberta, os lbios cobertos de
baba, um dervixe esta de p num canto, com um pratinho de cobre cinzelado na mo Olha para
todos os presentes, mas no ve nenhum deles, como se adivinhasse um mundo invisvel e esperasse
receber um sinal Um silencio insuportvel o envolve. De repente, da um salto, sempre com a boca
aberta, e grita-
Ai L Nino
187
 Vejo o sol nascendo no Ocidente! A multido se assusta.
Um mensageiro do governador surge a porta.
 Sua Excelncia ordenou uma patrulha, por causa da mulher nua.
Ele se refere a Nino, que no usa vu. O rosto de Nino no se altera. Ela no entende o idioma
persa Passamos a noite na casa do governador De manh, a patrulha sela os cavalos. Ela nos
acompanhara at Teer Por causa da nudez de Nino, que no esconde o rosto, e por causa dos
ladres que vagam pelo pais.
Devagar, o carro se arrasta pelo deserto. Kasvin Runas antigas. O x Chapur reuniu aqui suas
tropas. Os retrados sefevidas mantinham sua corte aqui, juntamente com artistas, mecenas e
apstolos.
Mais oitenta, mais setenta, mais sessenta quilmetros. A estrada vai dando voltas como uma cobra
Os ladrilhos do Porto Municipal de Teer so coloridos. As cores so suaves e macias. As quatro
torres do porto se destacam contra o fundo coberto de neve do longnquo Demavend O arco rabe
com uma inscrio sabia me encara como o olho escuro de um demnio. Mendigos que murmuram
maldies horrveis, dervixes, andarilhos em trapos coloridos se renem em meio ao p, embaixo
do grande porto Estendem as mos para nos, com os dedos finos e nobres. Cantam o esplendor da
Cidade Imperial de Teer, em tom de melancolia e aflio. Mas ha algum tempo eles chegaram
cheios de esperanas a Cidade das Muitas Cpulas. Agora se renem no p, eles mesmos
transformados em p e entulho, cantando ladainhas tristes sobre a cidade que os rejeitou.
O carro pequeno continua pelo burburinho das ruas, passando pela praa dos Canhes e o Porto
dos Diamantes do Palcio Imperial, e ento, de novo fora dos muros da cidade, segue pela estrada
larga at o subrbio de Chimran.
188
Kuifmn Sauf
Os portes do Palcio de Chimran esto abertos de par em par. Um perfume de rosas nos envolve.
Os azulejos dos muros so frescos e agradveis. Corremos pelo jardim, passando pelo chafariz. O
quarto escuro com janelas cobertas  como uma fonte de gua fresca. Eu e Nino nos jogamos nas
almofadas macias e mergulhamos ao mesmo tempo num sono sem fim.
Dormimos, acordamos, cochilamos, sonhamos e dormimos mais um pouco. O quarto fresco com as
janelas cobertas era um alvio. Muitas almofadas, esteiras e estofos cobriam os divs baixos e o
cho. Ouvamos em sonhos o canto do rouxinol. Era uma sensao deliciosa cochilar naquela casa
grande e tranqila, longe de todos os pensamentos, longe do muro corrodo de Baku. As horas se
passavam. De tempos em tempos, Nino suspirava, erguia-se tonta de sono e descansava a cabea
em minha barriga. Eu afundava o rosto nas almofadas macias, que exalavam o aroma doce de um
harm da Prsia. Uma indolncia infinita tomou conta de mim. Ficava deitado horas a fio com
vontade de coar o nariz, mas a preguia era grande demais para estender a mo. Por fim, o nariz
parou de coar, e adormeci novamente.
De repente, Nino acordou, ergueu-se na cama e disse:
 Estou morrendo de fome, Ali Khan!
Fomos at o jardim. O sol se punha. Roseiras envolviam o chafariz. Ciprestes se projetavam em
direo ao cu. Imvel, um pavo de cauda aberta olhava para o sol poente. Ao longe se erguia o
cume branco do Demavend. Bati palmas. Um eunuco de rosto balofo veio correndo. Atrs
cambaleava uma velha que carregava tapetes e almofadas. Ns nos sentamos  sombra de um
cipreste. O eunuco trouxe gua e uma bacia, e cobriu o tapete estirado no cho com os quitutes da
culinria persa.
 Melhor comer com os dedos do que escutar disparos de metralhadora - disse Nino, servindo-
se do arroz fume-
Ali e Nino
189
gante com a mo esquerda. O eunuco fez uma cara de horror e desviou o olhar. Ensinei a Nino
como se come arroz na Prsia: com trs dedos da mo direita. Ela riu pela primeira vez desde nossa
fuga de Baku, e senti uma grande paz dentro de mim. A vida era bela no Palcio de Chimran, no
pas silencioso do x, pas de poetas devotos e sbios. De repente, Nino perguntou:
 E onde foi parar seu tio, Assad es Saltaneh, com todo o harm?
 Est no palcio da cidade, suponho. Com as quatro esposas. E o harm? O harm  apenas este
jardim, com os quartos em volta.
Nino riu:
 Ento, afinal de contas fui aprisionada num harm. Eu sabia!
Um segundo eunuco, um velho ressecado, perguntou se podia nos cantar alguma coisa...
Recusamos. Trs moas enrolaram o tapete, a velha de antes levou embora os restos de comida, e
um menino foi alimentar o pavo.
 Quem so todas estas pessoas, Ali Khan?
 So criados.
 Meu Deus, quantos criados trabalham aqui?
Eu no sabia exatamente e chamei o eunuco. Ele refletiu longamente, mexendo os lbios em
silncio. Por fim, chegou  concluso de que o harm era mantido por vinte e oito pessoas.
 E quantas mulheres vivem aqui?
 Quantas o senhor ordenar, Khan. No momento, s uma esposa est sentada a seu lado. Mas
temos bastante espao. Assad es Saltaneh se mudou com as prprias esposas para a cidade. Agora
este harm  seu, Khan.
Ele se sentou de ccoras e continuou com dignidade:
 Meu nome  laia Kuli. Sou o guardio de sua honra, Khan. Sei ler, escrever e calcular... Tenho
experincia em todos os assuntos de administrao e sei lidar com as mulheres. Pode confiar em
mim. Reparei que sua esposa  uma
-i 90
kuibait Said
selvagem, mas aos poucos vou lhe ensinar bons costumes. Diga-me quando ela tem suas regras,
para que eu tome nota. Preciso saber para poder avaliar o temperamento. Porque com certeza ela
tem temperamento. Eu prprio vou lava-la e fazer a depilao. Vejo que ela tem plos at nas
axilas! E uma coisa lastimvel a educao das mulheres em alguns pases. Amanh vou pintar as
unhas dela de vermelho, e antes de dormir darei uma olhada em sua boca.
 Meu Deus, por que isso?
 Mulheres com dentes estragados tm mau hlito. Preciso ver os dentes dela e sentir o hlito.
 Por que essa criatura no para de tagarelar?
 Ele garante que e um bom dentista, e que esta a disposio se precisarmos dele. Parece uma
pessoa bem esquisita.
Eu estava um pouco constrangido e disse, voltado para
o eunuco:
 Compreendo, laia Kuh, que e um homem experiente e sabe tudo sobre a cultura do pais... Mas
acontece que minha esposa esta gravida, e e preciso poupa-la. Por isso, vamos adiar a educao
dela at o nascimento do filho.
Ao falar, eu sentia que minha face corava. Nino realmente estava grvida, mas apesar disso eu
mentira.
 O senhor e sbio, Khan  disse o eunuco ; mulheres grvidas aprendem muito devagar.
Alias, existe um meio de garantir que seja um menino. Porem  acrescentou ele, examinando o
corpo esguio de Nino , acho que isso ainda pode esperar alguns meses.
La fora, na varanda, ouvia-se o arrastar de muitos pantufos. Eunucos e mulheres trocavam sinais
misteriosos, laia Kuh foi ver o que se passava e voltou com uma expresso seria.
 Khan! Sua Reverencia, o erudito Hafiz Seid Mustafa Mechedi, gostaria de apresentar suas
saudaes. Eu nunca ousaria incomoda-lo, Khan, em meio aos prazeres do harem.
Ali i Nino
Mas Seid e um sbio da estirpe dos profetas. Ele o espera na casa grande.
Ao ouvir a palavra Seid, Nino ergueu a cabea.
 Seid Mustafa?  perguntou ela.  Pois que entre, vamos tomar ch todos juntos!
Daquela vez, a reputao da casa Chirvanchir escapou da runa, pois o eunuco no entendia russo.
Sena impensvel que a esposa de um Khan recebesse um estranho no harem. Eu disse, um pouco
envergonhado:
 Seid no pode entrar aqui. Estamos no harem.
 Ah, sim. Que costumes estranhos! Ento esta bem, vamos recebe-lo Ia fora.
 Nino, receio que.,   como posso explicar .. receio que tudo seja diferente na Prsia. Quero
dizer... Seid e homem, no e mesmo?
Nino arregalou os olhos, espantada:
 Quer dizer que no posso me mostrar diante de Seid, que me levou at voc no Daguesto?
 Receio que no, Nino, pelo menos da primeira vez.
 Esta bem  disse ela, num tom de frieza sbita.  Mas ento v.
Um pouco abatido, fui receber Seid. Nos nos sentamos na grande biblioteca para tomar ch. Ele
explicou sua inteno de viajar ao encontro do tio famoso, em Meched, at que Baku fosse
libertada das mos dos infiis. Eu lhe dei razo. Seid era um homem bem-educado. No perguntou
por Nino, nem mencionou o nome dela. De repente, a porta se abriu:
 Boa noite, Seid.
A voz de Nino soava tranqila, mas abafada. Mustafa deu um salto. O rosto marcado pela bexiga
exprimia alguma coisa semelhante ao terror. Nino se sentou na esteira:
 Mais um pouco de ch?
La fora, muitos pantufos se arrastavam desesperadamente, para Ia e para ca A honra da casa
Chirvanchir tora
192
Kurdan Saitf
definitivamente por gua abaixo. Seid precisou de vrios minutos para se recuperar do espanto.
Nino sorriu amuada:
 No tive medo das metralhadoras em Baku, e agora seus eunucos no me metero medo.
E, assim, ficamos juntos at tarde da noite. Seid era um homem de tato.
Antes que eu me retirasse para dormir, o eunuco se aproximou humildemente:
 Senhor, pode me castigar. Eu no a vigiei o tempo todo. E quem iria adivinhar que ela fosse to
selvagem, to selvagem? A culpa  minha.
Seu rosto balofo revelava a mais profunda contrio.
Caytufo
QUE ESTRANHO! QUANDO SOARAM os ltimos tiros na margem encharcada de petrleo de
Bibi-Eibat, achei que nunca mais seria feliz. Porm, depois de quatro semanas nos jardins
perfumados de Chimran, eu me sentia repleto de paz. Era como voltar para casa. Eu vivia como
uma planta respirando o ar fresco de Chimran.
Eu raramente ia  cidade. Nessas ocasies, visitava parentes e amigos e flanava, acompanhado por
alguns criados, pelo labirinto escuro do bazar de Teer.
Passagens estreitas, lojas que na verdade so tendas, tudo coberto por um enorme teto de barro. Eu
me perco em meio  profuso de rosas, nozes, tapetes, xales, roupas de seda e jias. Descubro
jarros com arabescos dourados, antigos colares e braceletes de filigranas, almofadas de marroquim
e perfumes raros. Pesadas moedas de prata deslizam para o bolso do mercador persa. Meus criados
carregam todas as maravilhas do Oriente. E tudo  para Nino. Ela no deve olhar para o roseiral
com tanto medo estampado no rosto pequeno.
Os criados levam a carga, curvados. Eu sigo adiante. Numa esquina h diferentes edies do Coro
em marroquim, com miniaturas pintadas: uma moa sob um cipreste, e ao lado um prncipe de
olhos amendoados; um rei em pie-
194
Kurban Sau
na caa, uma lana e uma cora voadora. De novo, as moedas de prata fazem rudo. Mais alm, dois
mercadores se abaixam de ccoras diante de uma mesinha. O primeiro tira moedas de prata de uma
bolsa larga e as estende ao outro. Este as examina com atno, morde e pesa as moedas numa
pequena balana. Depois, coloca-as num grande saco. O mercador leva a mo ao bolso cem vezes,
talvez mil ou dez mil vezes, at liquidar a dvida. Seus gestos so precisos e cheios de dignidade.
Tidchareti Comrcio! O prprio Profeta foi um mercador.
O bazar tem caminhos que se entrelaam, como um labirinto. Perto dos dois mercadores, um sbio
folheia um livro, acocorado. O rosto do ancio se parece com os sulcos de um penhasco coberto de
musgo. Seus dedos finos e longos inspiram tolerncia e considerao. As folhas amareladas e
bolorentas do in-flio exalam o perfume das rosas de Xiraz, o canto do rouxinol do Ir, hinos de
exaltao, um vulto de olhos amendoados e longos clios. Cuidadosamente, a mo bem-tratada
folheia o livro antigo.
Sussurros, rudos, gritos. Eu regatio o preo de um tapete antigo de Kerman, de cores delicadas.
Nino gostou das linhas suaves daquele jardim estampado no tecido. Algum vende gua de rosas e
leo da mesma flor. Milhares de rosas se unem numa nica gota de essncia, como milhares de
pessoas no labirinto estreito do bazar de Teer. Vejo Nino inclinada sobre um frasco de leo de
rosas.
Os criados esperam, exaustos.
 Levem tudo isso imediatamente para Chimran. Eu vou depois.
Os criados desaparecem na multido. Mais alguns passos e transponho, curvado, a porta estreita de
uma casa de ch persa. O lugar est cheio de gente. No meio, um homem de barba ruiva, com as
plpebras semicerradas, recita um poema de amor de Hafiz. Os ouvintes suspiram em doce enlevo.
Ento, o homem apanha o jornal e l:
Ai e Nino
195
 Nos Estados Unidos, foi inventada uma mquina capaz de trazer at os ouvintes a palavra
falada. Sua Majestade Imperial, o Rei dos Reis, cujo brilho ofusca a luz do sol, cuja mo alcana
at o planeta Marte, cujo trono  mais alto que o mundo, o sulto x Ahmed, recebeu no Palcio
Imperial de Bague o representante do atual monarca da Inglatrra. Na Espanha, veio ao mundo uma
criana de trs cabeas e quatro ps. A populao considera esse acontecimento um mau
pressgio.
As pessoas em volta do estalos com a lngua, admiradas. O homem de barba ruiva dobra o jornal.
De novo se ouve uma cano. Desta vez, trata-se do cavaleiro Sorem e de seu filho Sorab. Mas eu
quase no escuto. Olho para o ch dourado e fumegante. Penso que as coisas no so como deviam
ser.
Eu me sinto feliz, estou na Prsia e vivo num palcio. Nino vive no mesmo palcio, mas est muito
infeliz. No Daguesto, ela tinha aceitado de bom grado todas as privaes da vida selvagem. Mas,
uma vez ali, no entrava em acordo com as regras da etiqueta persa. Ela quer caminhar comigo
pelas ruas, embora isso seja proibido pela polcia. Marido e mulher no podem receber visitas
juntos, nem podem sair juntos. Ela me pede que lhe mostre a cidade, e fica irritada quando tento
argumentar:
 Gostaria de lhe mostrar a cidade, Nino. Mas o problema  que... no posso mostrar voc 
cidade.
H recusa e perplexidade naqueles olhos grandes e escuros. Como fao para convenc-la de que
no fica bem a esposa de um Khan andar pela cidade sem vu? Compro os vus mais caros:
 Veja, Nino, como so bonitos! Eles protegem o rosto do sol e da poeira. Eu prprio gostaria de
usar vu.
Ela sorri tristemente e afasta os vus:
 Uma mulher com o rosto coberto  uma indignidade, Ali Khan. Eu me desprezaria se tivesse de
usar vu.
196   Kurean Said
Eu lhe mostro o decreto policial. Ela o rasga, e eu mando alugar um coche fechado com janelas de
vidro grosso.
E, assim, fui passear com Nino pela cidade. Na praa dos Canhes, ela avistou meu pai e quis
descer para cumpriment-lo. Foi terrvel. Tive de comprar metade do bazar para que ela desistisse...
Estou sentado sozinho, olhando para a xcara de ch.
Nino se consome de tdio, mas no posso fazer nada. Ela quer se encontrar com as outras mulheres
da comunidade europia da cidade. Mas isso no  possvel. A esposa de um Khan no deve se
reunir s mulheres infiis. Elas tero tanta pena de Nino pelo fato de suportar o harm, que ao final
Nino ser de fato incapaz de suport-lo.
H pouco tempo ela visitou minhas primas e tias e voltou para casa transtornada:
 Ali Khan  disse ela em desespero , elas queriam saber quantas vezes por dia voc me honra
com seu amor. Dizem que voc est sempre comigo.  o que os maridos contam para elas. E no
conseguem imaginar que estejamos fazendo outra coisa. Deram-me uma receita contra demnios e
recomendaram um amuleto. Ele serve para me proteger contra uma possvel rival. Sua tia Sultan
Hanum perguntou se no era cansativo ser a nica esposa de um marido to jovem, e todas queriam
saber como fao para impedir que voc saia procurando os rapazes danarinos. Sua prima Suata me
perguntou com muita curiosidade se voc j tinha tido doenas imundas. Dizem que minha situao
 invejvel. Ali Khan, eu me sinto coberta de sujeira.
Eu a consolei to bem quanto podia. Ela ficou acocorada no canto, olhando em volta como uma
criana assustada, e precisou de algumas horas para se acalmar.
O ch esfriou completamente. Estou sentado na casa de ch, para que as pessoas vejam que no
passo todo o meu tempo no harm. No convm ficar sempre ao lado da mulher. Meus primos j
esto zombando de mim. S
A  Nino
197
algumas horas do dia pertencem  esposa. As demais pertencem ao marido. Mas sou a nica
distrao de Nino, sou seu jornal, seu teatro, seu caf, seu crculo de amigos e ao mesmo tempo seu
marido. Por isso no posso deix-la sozinha, por isso compro tudo o que h no bazar, pois hoje 
noite haver uma grande recepo na casa do tio em homenagem a meu pai. Um prncipe estar
presente, e Nino ter de ficar em casa, em companhia do eunuco encarregado de sua educao.
Saio do bazar e volto para Chimran. Nino est sentada no grande salo coberto de tapetes,
pensativa diante de uma montanha de brincos, braceletes, xales de seda e frascos de perfume. Ela
me beija suavemente, em silncio. Um desespero parece crescer dentro de mim. O eunuco traz
sorvete e olha para a montanha de presentes com uma atitude de reprovao. No se deve deixar a
esposa to malacostumada.
A vida de um persa tem incio  noite.  quando as pessoas se animam, os pensamentos se tornam
mais leves e as lnguas, mais soltas. Calor, p e sujeira sobrecarregam o dia. De noite se manifesta
o estranho ritual da etiqueta persa chamado Techachut, que amo e admiro porque  diferente dos
costumes de Baku, do Daguesto e da Gergia. Eram oito horas quando os coches de gala de meu
tio estacionaram diante de nossa casa. De acordo com as regras da etiqueta, havia um coche para
meu pai e outro para mim. Trs pechemeds, arautos e ordenanas, estavam postados diante de cada
coche segurando compridos lampies, cujo brilho cegante iluminava os rostos compenetrados.
Desde que eram jovens, a nica tarefa de suas vidas era correr diante dos coches e gritar
atno! com profunda dignidade.
As ruas estavam vazias. Apesar disso, os ordenanas gritavam atno!, obedecendo  etiqueta.
Seguimos por travessas estreitas, beirando muros infindveis de barro cin-
198
Kutean imi
zento, que escondem casernas ou choupanas, palcios ou reparties. Na rua, s se vem esses
muros que protegem a vida persa dos olhares indesejveis.
Ao luar, as cpulas redondas das lojas do bazar pareciam bales de gs sustentados por uma mo
invisvel. Paramos diante de um muro largo, interrompido por um porto de metal amarelo
belamente trabalhado. O porto se abriu, e penetramos no ptio do palcio.
Nos dias normais, quando eu visitava aquela casa sozinho, um velho criado de roupa gasta abria a
porta para mim. Mas, naquela noite, guirlandas e lampies pendiam da fachada do palcio, e oito
homens se inclinaram quando os coches estacionaram diante da soleira.
O ptio imenso era dividido em duas metades por um muro baixo. O harm ficava do outro lado do
muro. Ali se ouviam o murmrio de uma fonte e o canto de um rouxinol. Deste lado do ptio,
peixes dourados nadavam num simples tanque retangular.
Descemos do coche. O tio apareceu  soleira. Ele cobria o rosto com a mo pequena. Inclinou-se
profundamente e conduziu-nos para dentro da casa. O giande salo, com colunas folheadas a ouro e
paredes de madeira entalhada, estava cheio de gente. Vi gorros pretos de pele de carneiro, turbantes
e mantos largos, de tecido leve e cor castanho-escura. No meio estava sentado um homem mais
velho com um enorme nariz curvo, cabelos grisalhos e sobrancelhas compridas. Era Sua Alteza
Imperial, o prncipe. Todos se levantaram quando entramos no salo. Primeiro cumprimentamos o
prncipe, depois os outros convidados. Por fim nos sentamos nas almofadas macias. Os demais
seguiram nosso exemplo. Assim, ficamos todos sentados durante um minuto ou dois. De repente,
ns nos levantamos e de novo nos inclinamos uns diante dos outros. Finalmente nos sentamos em
definitivo, envoltos em silncio digno. Os criados trouxeram xcaras azuis com ch aromtico.
Ali e Nino
199
Cestos de frutas passaram de mo em mo, e Sua Alteza Imperial rompeu o silncio com estas
palavras:
 Viajei para longe e conheo muitos pases. Em nenhum lugar os pepinos e os pssegos tm
melhor sabor do que na Prsia.
Ele descascou um pepino, polvilhou-o com sal e comeu devagar, com os olhos tristes.
 Sua Alteza tem razo  disse meu tio.  Estive na Europa e sempre me espantou que as frutas
dos infiis fossem to pequenas e feias.
  um grande alvio quando volto para a Prsia  disse um embaixador do Imprio, que vivia
numa corte europia e estava de visita  cidade.  Ns, persas, no temos nada a invejar do resto
do mundo. Pode se dizer que s existem persas e brbaros.
 No mximo, podem-se incluir alguns indianos  opinou o prncipe.  Quando estive na ndia
h alguns anos, conheci pessoas bastante civilizadas, com um grau de cultura quase igual ao nosso.
Mas mesmo nesse ponto  fcil cometer um engano. Um indiano de boa estirpe que eu conhecia, e
que por algum tempo considerei igual a ns, acabou se revelando um brbaro. Estvamos  mesa e,
imaginem s, ele se ps a comer as folhas externas do p de alface.
Os convidados ficaram horrorizados. Um imame de turbante pesado e faces cavadas disse, numa
voz baixa e cansada:
 A diferena entre persas e no-persas  que somos os nicos capazes de apreciar a beleza.
  verdade  disse meu tio , prefiro um belo poema a uma fbrica barulhenta. Pode ser que
Abu Seid tenha sido um herege, mas eu o admiro porque foi o primeiro a introduzir em nossa
literatura os rubaiats, que so a mais bela forma de poesia.
Ele pigarreou e recitou, quase cantando:
200
Kiirean Saiii
 Te medress v minar viran nechud In kar kalendri bisman nechud Ta iman kafr v kaft iman
nechud Ek bend hakikat musulman nechud.
 Terrvel  disse o imame.  Terrvel. Mas que sonoridade!  E ele repetiu, encantado:  Ek
bend hakikat musulman nechud.
Ele se levantou, apanhou um gracioso jarro de gua pratado, de pescoo longo e estreito, e
cambaleou para fora do salo. Depois de um instante, voltou e colocou o jarro no cho. Ns nos
levantamos para cumpriment-lo em voz alta, pois seu corpo estava limpo dos resduos
desnecessrios.
Meu pai perguntou:
  verdade, prncipe, que nosso primeiro-ministro Vossugh ed Davl pretende assinar um novo
tratado com a Inglatrra?
O prncipe sorriu:
 Isso o senhor tem de perguntar para Assad es Saltaneh... embora no seja segredo para ningum.
 Sim  disse o tio  ,  um tratado excelente. De agora em diante os brbaros sero nossos
escravos.
 Escravos? Como assim?
 Bem, os ingleses amam o trabalho, e ns amamos a beleza. Eles amam a guerra, e ns amamos a
paz. E assim chegamos a um acordo. No precisamos mais nos preocupar com a segurana de
nossas fronteiras. A Inglatrra se encarrega da segurana do Ir, constri estradas e prdios e ainda
nos d dinheiro. Pois a Inglatrra sabe apreciar nossa contribuio  cultura mundial.
O rapaz sentado ao lado de meu tio era meu primo Bahram Khan Chirvanchir. Ele ergueu a cabea
e disse:
Enquanto mesquita e escola no forem devastadas, / A obra daqueles que buscam a Verdade no estar concluda. /
Enquanto F e Impiedade no se unirem, / Ningum pode ser verdadeiramente muulmano. (N.T.)
Ali e Nino
201
 O senhor acredita que a Inglatrra nos protege por causa de nossa cultura ou por causa de nosso
petrleo?
 Ambas as coisas iluminam o mundo e carecem de proteo  disse o tio com indiferena.
Afinal, ns mesmos no podemos ser soldados.
 E por que no?  perguntei desta vez.  Eu, por exemplo, lutei por meu povo e estaria
disposto a lutar de novo.
Assad es Saltaneh me encarou com ar de reprovao e o prncipe pousou a xcara:
 No sabia  disse ele com presuno  que havia soldados entre os Chirvanchirs.
 Mas Alteza! Na verdade, ele era oficial.
 D no mesmo, Assad es Saltaneh. Oficial...  repetiu ele, projetando os lbios numa expresso
de desdm.
Eu me calei. Tinha esquecido completamente que, aos olhos da nobreza persa, os soldados
pertencem a uma catgoria inferior.
Somente o primo Bahram Khan parecia ter outra opinio. Ele ainda era jovem. Muchir ed Davleh,
um nobre cheio de condecoraes sentado ao lado do prncipe, explicou-lhe longamente que o Ir
estava sob a proteo divina e que no mais carecia da espada para brilhar neste mundo. No
passado, os filhos do Ir j tinham comprovado sua coragem.
 Na Cmara dos Tesouros do Rei dos Reis  concluiu ele , h um globo de ouro. Nesse globo,
todos os pases esto representados por diferentes pedras preciosas. Mas s o Ir  assinalado pelos
diamantes mais raros. Isso  mais do que um smbolo.  a pura verdade.
Pensei nos soldados estrangeiros que ocupavam o pas e nos policiais maltrapilhos do porto de
Enseli. Ali estava a sia, depondo as armas diante da Europa com medo de se tornar europia. O
prncipe desprezava a profisso dos soldados, e no entanto descendia daquele x em cujo reino meu
antepassado conquistara Tbilisi. Naquela poca, o Ir sabia
Kurfinn Said
pegar em armas sem perder a identidade. Mas os tempos tinham mudado. O Ir entrara em
decadncia, tal como acontecera sob o reino dos sefvidas devotados s artes. O prncipe preferia
um poema a uma metralhadora, talvez porque tivesse mais intimidade com a poesia. O prncipe era
velho, e meu tio, tambm. O Ir morria, mas morria com graa.
Um poema de Ornar, o Construtor de Tendas, me veio  lembrana:
Num grande tabuleiro oriundo do Dia e da Noite, O Destino joga com os homens uma partida de
xadrez. Ele os dispe aqui e ali, joga com eles at o xeque-mat, E por fim deixa cada um deles
onde antes estava.
Absorto em meus pensamentos, no percebi que tinha declamado o poema em voz alta. O rosto do
prncipe se iluminou.
 Suponho que o senhor se tornou soldado por acaso  disse ele com condescendncia.  Vejo
que  uma pessoa educada. Se pudesse decidir sobre seu destino, escolheria realmente a profisso
de soldado?
Eu me inclinei:
 O que eu escolheria, Alteza? Bem, acho que apenas quatro coisas: lbios vermelhos como rubi,
o som de guitarras, ensinamentos sbios e vinho tinto.
A famosa estrofe de Dakiki me permitira conquistar a aprovao de todos os hspedes. At o
imame de faces cavadas sorriu para mim, afvel.
Era quase meia-noite quando se abriu a porta para a sala de jantar. Entramos. Sobre os tapetes tinha
sido estendida uma imensa toalha. Criados estavam postados nos cantos, segurando lampies.
Sobre a toalha havia pes rabes, grandes e brancos. No meio, erguia-se uma enorme travessa de
metal cheia de pilaf. Inmeros pratos pequenos, grandes e mdios cobriam a toalha. Ns nos
sentamos e comemos as
A  Nino
203
diferentes iguarias de cada prato, sem nos preocuparmos com a seqncia. Comamos depressa, de
acordo com o costume, pois comer  a nica coisa que os persas fazem rapidamente. Uma
montanha de arroz fumegava no meio da sala. O imame pronunciou uma breve orao.
Meu primo Bahram Khan estava sentado a meu lado. Ele comia pouco e olhava para mim com
curiosidade:
 Est gostando da Prsia?
 Sim, muito.
 Quanto tempo pretende ficar aqui?
 At os turcos conquistarem Baku.
 Eu o invejo, Ali Khan.
Havia admirao em sua voz. Ele enrolou uma fatia de po e encheu-a de arroz quente.
 Voc esteve sentado por trs de uma metralhadora e viu chorar os inimigos. A espada do Ir est
enferrujada. Ns nos entusiasmamos com os poemas que Firdusi escreveu h mil anos, e sabemos
distinguir um verso de Dakiki de outro escrito por Rudaki. Mas nenhum de ns sabe construir uma
estrada ou comandar um regimento.
 Estradas...  repeti, pensando na plantao de meles ao luar, perto de Mardakiani. Era bom
que ningum soubesse construir estradas na sia. Caso contrrio, um cavalo de Karabagh jamais
seria capaz de alcanar um carro europeu.
 E para que precisa de estradas, Bahram Khan?
 Para transportar soldados em caminhes, embora os ministros afirmem que no precisamos de
soldados. Mas no  verdade! Precisamos de metralhadoras, escolas, hospitais, um sistema de
impostos bem organizado, novas leis e pessoas como voc. O que menos nos faz falta so versos
antigos. O Ir degenera ao som desses versos melanclicos. Mas temos agora outras canes.
Conhece o poema de Achraf, que vive em Gilian?  Ele se inclinou e recitou, baixinho:
Sofrimento e desgosto se abatm sobre nosso pas.
204
Kutean Sau
Levantai-vos, segui o atade do Ir. A juventude foi sacrificada no cortejo fnebre da Prsia. E seu
sangue tingiu de vermelho a lua, os campos, as colinas e os vales.
 Versos terrveis, diria o prncipe. Com certeza, um poema assim ofenderia profundamente seu
senso artstico.
 Conheo um poema ainda mais bonito  disse Bahram Khan teimosamente.  O autor se
chama Mirza Ag Khan. Oua: Que o Ir seja poupado do domnio do inimigo infiel. A noiva do
Ir no deve dividir o leito com o noivo russo. Sua beleza etrea no deve servir para a satisfao
do lorde ingls.
 Nada mau  disse eu, sorrindo. Aparentemente a jovem Prsia se distinguia da Prsia antiga
pelo mau gosto potico.  Mas diga, Bahram Khan, que objetivos tem na vida?
Ele se sentou ereto no tapete vermelho-plido e respondeu:
 J esteve na praa Maidani Sipeh? Ali foram colocados cem canhes velhos e enferrujados,
voltados para os quatro pontos cardeais. Sabia que essas relquias empoeiradas e estpidas de uma
raa agonizante so as nicas armas de toda a Prsia? E que no h nenhuma fortaleza, nenhum
navio de guerra, nenhum soldado alm dos cossacos russos, dos fuzileiros ingleses e dos
quatrocentos baadurans da guarda imperial? Veja, aqui esto seu tio e o prncipe, e todos estes
nobres com suas condecoraes e ttulos pomposos, com os olhos turvos e as mos fracas,
envelhecidas e enferrujadas como os canhes da praa Maidani Sipeh. Eles no vivero muitos
anos. E j deviam ter se retirado da vida pblica. Nosso destino esteve por muito tempo nas mos
cansadas de prncipes e poetas. A Prsia  como a mo estendida de um velho mendigo. Eu gostaria
que esta mo ressecada se transformasse no punho fechado de um rapaz cheio de vida. Fique aqui,
Ali Khan. Ouvi falar muito a seu respeito. Contam que voc resistiu at o fim por trs de uma me-
AlieNino
205
tralhadora, defendendo o muro de Baku, e que numa noite de luar mordeu a garganta de um inimigo
at a morte. Aqui, h muitas coisas para se defender alm de um muro velho, e voc ter vrias
metralhadoras.  melhor do que ficar sentado num harm ou remexer as maravilhas exticas do
bazar. Eu me calei absorto. Teer! A cidade mais antiga do mundo. Os babilnios a chamavam de
Roga-Rei, a Cidade Imperial. P de velhas lendas, ouro plido de palcios decadentes, colunas
retorcidas do Porto dos Diamantes, linhas descoradas de velhos tapetes e ritmos tranqilos de
sbios rubaiats... tudo isso se mostrava diante de mim, em passado, presente e futuro.
 Bahram Khan  disse eu , vamos supor que voc atinja seu objetivo. Quando estradas de
asfalto e fortalezas forem construdas, e quando os piores poetas forem introduzidos nas escolas
mais modernas, o que ser ento da alma da sia?
 A alma da sia?  Ele sorriu.  No final da praa dos Canhes, construiremos um grande
edifcio. Ali guardaremos a alma da sia: os estandartes das mesquitas, os manuscritos dos poetas,
as miniaturas coloridas e os rapazes danarinos, pois tambm eles pertencem  alma da sia. Na
fachada escreveremos, com as mais belas letras da escrita kufi, a palavra museu. O tio Assad es
Saltaneh poderia ser o guarda do museu, e Sua Alteza Imperial seria o diretor. Quer nos ajudar a
construir o belo edifcio?
 Vou pensar nisso, Bahram Khan.
A refeio terminara. Os hspedes se reuniram de novo no salo, em pequenos grupos. Eu me
levantei e sai para a varanda aberta. O ar era fresco. O jardim exalava o aroma das rosas iranianas.
Sentei-me no cho, com um misbaha entre os dedos, e contemplei a noite. Chimran ficava l longe,
por trs da cpula de barro do bazar. Ali dormia minha Nino, em meio s almofadas e tapetes.
Provavelmente dormia com os lbios entreabertos, os olhos inchados de tanto
206  ( Kuimn Said
chorar. Uma profunda aflio tomou conta de mim. Todas as maravilhas do bazar no eram
suficientes para que os olhos dela voltassem a sorrir.
Prsia! Ser que eu devia permanecer ali? Entre eunucos e prncipes, dervixes e lunticos? Ser que
devia ajudar a construir estradas de asfalto, convocar exrcitos e trazer a Europa para um pouco
mais perto do interior da sia?
E de repente senti que nada, absolutamente nada no mundo era mais importante para mim do que o
sorriso nos olhos de Nino. Quando aqueles olhos tinham sorrido pela ltima vez? Algum dia em
Baku, perto do muro apodrecido. Uma saudade insuportvel tomou conta de mim. Vi o muro
coberto de p e o sol se pondo por trs da ilha Nargin. Ouvi os chacais ganindo para a lua perto do
Portal do Lobo Cinzento. A areia do deserto recobria as estepes perto de Baku. A costa encharcada
de petrleo se estendia ao longo do mar Cspio. Os mercadores regatavam em volta da Torre da
Donzela, e seguindo a rua Nikolai chegava-se ao Colgio da Rainha Santa Tamar. Sob as rvores
do ptio, Nino segurava sua pasta de deveres escolares, com os grandes olhos que mostravam
curiosidade e surpresa. O aroma das rosas persas desapareceu subitamente. Eu evocava a cidade
natal como uma criana chamando a prpria me, mas adivinhava surdamente que aquele lar no
existia mais. Sentia a brisa do deserto ao redor de Baku e o leve cheiro de mar, areia e petrleo.
Nunca deveria ter deixado aquela cidade na qual Deus me fizera vir ao mundo. Estava acorrentado
ao velho muro como um co preso no quintal da casa. Olhei para o cu. As estrelas persas eram
grandes e distantes como as jias na coroa do x. At ento, eu nunca tivera a sensao to ntida
de ser um estrangeiro. Meu lugar era em Baku. Perto do velho muro sob cuja sombra os olhos de
Nino rebrilharam um dia. Bahram Khan tocou meus ombros:  Ali Khan, est sonhando? J
refletiu sobre minha proposta? Quer ajudar a construir a casa do Ir renovado?
 Primo Bahram Khan  disse eu , eu o invejo, pois s um exilado sabe o que significa o lar.
No posso ajudar a construir o Ir. Afiei meu punhal nas pedras do muro de Baku.
Ele me olhou com um ar de tristeza.
 Madinun  disse ele, usando um termo rabe que significa ao mesmo tempo apaixonado e
louco.
Ele tinha o mesmo sangue que eu, e adivinhara meu segredo. Eu me levantei. No grande salo, os
hspedes cheios de condecoraes se inclinavam diante do prncipe, que se despedia. Vi sua mo
magra, de dedos longos e ressecados e unhas tingidas de vermelho. No, no era por aquele motivo
que eu viera  Prsia, para amortalhar num museu suntuoso os versos de Firdusi, os suspiros de
amor de Hafiz e as mximas de Saadi.
Entrei no salo e inclinei-me diante da mo do prncipe. Seu olhar era triste e ausente, cheio de
pressentimentos sobre a runa iminente. Ento voltei para Chimran, pensando na praa com os
canhes enferrujados, nos olhos cansados do prncipe, no silncio humilde de Nino e no enigma da
decadncia sem escapatria.
Caytufo 25
O MAPA i I.NHA c ORES berrantes, que se podiam confundir facilmente umas com as outras. Os
nomes das cidades, montanhas e rios se sobrepunham num emaranhado ilegvel. Eu estava sentado
diante do mapa aberto no div e segurava bandeirinhas coloridas. A meu lado, havia tambm um
jornal em cujas colunas os nomes das cidades, montanhas e rios eram to ilegveis quanto no mapa.
Eu me inclinava sobre o mapa e o jornal, esforando-me para decifrar os erros de um e conferir as
informaes do outro. Espetei uma bandeirinha verde num crculo pequeno. Ao lado do crculo
estava escrita a palavra Elisabethpol (Gandja). As ltimas cinco letras j cobriam as montanhas
de Sanguldak. De acordo com um comunicado do jornal, o advogado Feth Ali Khan, de Choia, em
Gandja, teria declarado a Repblica Livre do Azerbaijo. A fileira de bandeirinhas verdes a leste de
Gandja representava o exrcito que Enver Pax enviara para libertar nosso pas. Pela direita se
aproximavam os regimentos de Nuri Pax, da cidade de Agdach.  esquerda, Mursal Pax ocupava
os vales do Elissu. No meio lutavam os batalhes de voluntrios. Agora o mapa parecia inteligvel.
O lao turco se estreitava lentamente ao redor da cidade russa de Baku. Basta avanar mais um
pouco as bandeirinhas verdes, e as vermelhas do inimigo se apertam todas, em desordem, na grande
mancha do mapa com a legenda Baku.
AieNmo
209
laia Kuli, o eunuco, esperava de p por trs de mim. Ele se esforava para entender meu jogo com
as bandeirinhas. Quando me viu mudando a posio delas no papel colorido, deve ter pensado que
eu era um feiticeiro e que aquilo era algum tipo de magia negra. Talvez confundisse a causa com o
efeito, achando que bastava colocar as bandeirinhas verdes sobre a mancha vermelha de Baku para
afastar minha cidade, como por magia, das mos dos infiis. Ele no queria me incomodar durante
o ritual misterioso e limitou-se a cumprir seu dever, apresentando o relatrio em voz sria e
montona:
  Khan, ela jogou o pratinho de hena no cho e me arranhou quando tentei tingir-lhe as unhas,
embora eu tivesse comprado a hena mais cara. De manh bem cedo, eu a levei at a janela e peguei
sua cabea nas mos com toda a delicadeza, pedindo que abrisse a boca. Afinal,  Khan,  meu
dever examinar os dentes. Mas ela se afastou com violncia e me deu um tapa com a mo direita.
No doeu muito, mas foi um vexame e tanto. Perdoe seu escravo, Khan, mas no tenho coragem de
raspar os plos dela.  uma mulher estranha. No usa amuletos nem toma precaues para proteger
o filho. Se nascer uma menina, Khan, fique sabendo que a culpa no  minha,  de Nino Hanum. E
deve estar possuda por um mau esprito, pois comea a tremer quando toco nela. Conheo uma
velha senhora da mesquita AbdulAsim. Ela sabe exorcizar os maus espritos. Talvez seja uma boa
idia levar sua esposa para um exame. Pense um pouco, Khan: ela lava o rosto com gua gelada,
para que a pele se estrague. Escova os dentes com escovas duras, ao invs de fazer como todas as
pessoas, que limpam os dentes com o dedo indicador direito mergulhado em pomada aromtica. S
os maus espritos poderiam lhe ter dado idias to erradas.
Eu mal o ouvia. Quase todos os dias, ele se apresentava em meu quarto e transmitia relatrios
sempre iguais. Seus olhos se enchiam de preocupao e respeito, pois era um
210
KM bem Said
homem consciencioso e se sentia responsvel por meu futuro filho. Nino lutava contra ele de
maneira infantil mas tenaz. Jogava almofadas no pobre eunuco, caminhava sem vu em cima do
muro da casa, jogava os amuletos pela janela e cobria as paredes do quarto com fotografias de
todos os seus primos da Gergia. Ele me relatava tudo isso com um ar assustado e aflito. De noite,
Nino se sentou no div diante de mim e explicou seu plano de batalha para o dia seguinte:
 O que acha, Ali Khan?  perguntou ela, coando o queixo pensativa.  Devo molhar o rosto
dele com uma mangueira, ou atirar-lhe um gato? No, tive uma idia melhor. Fao ginstica todo
dia no jardim perto da fonte, e ele ter de praticar comigo, pois est engordando muito. Ou melhor
ainda: vou fazer ccegas nele at que tenha um ataque. Ouvi dizer que uma pessoa pode morrer de
ccegas.
At pegar no sono, ela ruminava aqueles sonhos sombrios de vingana. No dia seguinte, o eunuco
anunciava atrrado:
 Ali Khan, Nino Hanum est perto da fonte, fazendo os movimentos mais estranhos com os
braos e pernas. Fiquei com medo, senhor. Ela dobra o corpo para a frente e para trs, como se no
tivesse ossos. Talvez seja uma maneira de rezar para um deus desconhecido. Ela quer que eu imite
os movimentos dela. Mas sou muulmano devoto, Khan, e s me inclino diante de Al. Temo pelos
ossos dela e pela salvao de minha alma.
Seria intil mandar o eunuco embora. Um outro viria tomar o lugar dele, pois no se pode manter
uma casa sem eunucos. Ningum mais saberia vigiar as criadas da casa, nenhuma outra pessoa
saberia fazer as contas, administrar o dinheiro e verificar as despesas. Somente o eunuco  capaz
disso. Ele no tem desejos e, por isso,  incorruptvel.
Assim, eu me calava, examinando a fileira de bandeirinhas verdes ao redor de Baku. . . O eunuco
pigarreou e disse, ansioso por cumprir seu dever:
211
 Devo trazer aqui a senhora da mesquita AbdulAsim?
 Para qu, laia Kuli?
 Para exorcizar os maus espritos do corpo de Nino. Suspirei, pois a velha sbia da mesquita
Abdul-Asim
dificilmente estaria  altura dos maus espritos da Europa.
 No e necessrio, laia Kuli. Sei alguma coisa sobre conjurao de maus espritos. Mas vou fazer
tudo no devido tempo. No momento, meus poderes mgicos esto concentrados nestas
bandeinnhas.
Os olhos do eunuco revelavam medo e curiosidade:
 Quando as bandeirinhas verdes expulsarem as vermelhas, ento sua cidade natal estar livre? 
isso mesmo, Ali Khan?
 Exatamente, laia Kuli.
 E por que no espeta de uma vez as bandeirinhas verdes no lugar certo?
 No posso, laia Kuli, meus poderes no so suficientes.
Ele me encarou cheio de preocupao:
 Pois devia pedir a Deus que lhe conceda esses poderes. Na semana que vem comea a festa do
ms de muarr. Se dirigir preces a Deus no muarr, ele lhe conceder os poderes de que precisa.
Dobrei o mapa e me senti ao mesmo tempo cansado, confuso e triste. Aos poucos, a tagarelice do
eunuco me dava nos nervos. Nino no estava em casa. Os pais dela tinham vindo para Teer, e ela
passava muitas horas na pequena manso alugada pela ilustre famlia. Ela se encontrava ali em
segredo, com outros europeus. Eu sabia disso e me calava, pois sentia muita pena. O eunuco
permanecia imvel, esperando minhas ordens. Pensei em Seid Mustafa. Meu amigo viera de
Meched para uma rpida visita. Eu o via raramente, pois ele passava os dias em mesquitas, tmulos
de santos e conversas espirituais com dervixes maltrapilhos.
212
Kurban Saiif
 laia Kuli  disse eu por fim  , v at a casa de Seid Mustafa. Ele mora perto da mesquita
Sepahselar. Pergunte a ele se pode me fazer a honra de uma visita.
O eunuco partiu. Fiquei sozinho. Meus poderes de fato no bastavam para mover as bandeirinhas
verdes at Baku. Os batalhes turcos lutavam em algum lugar das estepes de meu pas. E ao lado
dos turcos lutavam os batalhes de voluntrios sob a nova bandeira do Azerbaijo. Eu conhecia
essa bandeira, sabia quantos batalhes lutavam e em que batalhas estavam envolvidos. Ilias Beg se
alistara como voluntrio. Eu ansiava pelo campo de combat, com a nvoa matinal do orvalho
fresco. Mas o caminho para a frente de batalha estava fechado. Esquadres ingleses e russos
vigiavam as fronteiras. A ponte larga sobre o rio Araxes que ligava o Ir  zona de guerra estava
agora bloqueada por cercas de arame, metralhadoras e soldados. Como um caramujo na concha, o
Ir se arrastava em seu retiro pacfico. Nenhum homem, nenhum rato, nenhuma mosca deveria ter
acesso  regio infestada onde os soldados lutavam e trocavam tiros, ao invs de declamar poemas.
Por outro lado, muitos fugitivos de Baku tinham chegado a Teer. Entre eles estava Arslan Ag, o
rapaz tagarela de gestos inquietos. Ele percorria as casas de ch e escrevia artigos em que
comparava as vitrias dos turcos s campanhas militares de Alexandre, o Grande. Um dos artigos
foi proibido, pois o censor achou que a exaltao de Alexandre implicava um insulto secreto contra
a Prsia, outrora derrotada por Alexandre. Desde ento, Arslan Ag se considerava um mrtir de
suas opinies. Ele me visitou e descreveu com todos os detalhes os atos hericos que eu teria
praticado durante a defesa de Baku. Na fantasia dele, legies de soldados inimigos teriam desfilado
diante de minha metralhadora, com o nico intuito de serem fuzilados por mim. Quanto a ele,
passara os dias de luta no poro de uma grfica, imprimindo manifestos patriticos que no foram
proclamados em parte alguma. Ele os leu
Ali e Nino
213
para mim em voz alta, pedindo que lhe contasse os sentimentos de um heri na frente de batalha.
Eu o entupi de doces e o despachei para fora de casa. Ele deixou um cheiro de tinta de impresso e
uma caderneta em branco, na qual pretendia anotar os tais sentimentos de um heri na frente de
batalha. Olhei para as folhas em branco, pensei no olhar triste e ausente de Nino, pensei em minha
vida emaranhada e apanhei a pena para escrever. No para anotar os sentimentos de um heri na
frente de batalha, e sim para descrever o caminho que nos tinha conduzido, a mim e a Nino, aos
jardins perfumados de Chimran, onde os olhos dela nunca mais tinham podido sorrir.
Sentado, eu escrevia com a pena de bambu da Prsia. Pus em ordem as anotaes soltas que tinha
comeado a escrever na escola, e o passado surgiu diante de mim. Mas Seid Mustafa entrou no
quarto e me abraou, encostando em meu ombro o rosto marcado pela bexiga.
 Seid  disse eu , minha vida virou uma confuso. Bloquearam o caminho para a frente de
batalha, Nino nunca mais deu uma risada, e agora estou aqui, derramando tinta ao invs de sangue.
Que devo fazer, Seid Mustafa?
Meu amigo me encarou com um ar tranqilo e penetrante. Ele usava um manto preto, e seu rosto
estava emagrecido. O corpo franzino parecia curvado sob o peso de um segredo. Ento, sentou-se e
disse:
 Com as mos no vai conseguir nada, Ali Khan. Mas uma pessoa pode usar outra coisa alm das
mos. Olhe para meu traje, e voc saber o que quero dizer. No mundo invisvel reside o poder
sobre os homens. Se for capaz de penetrar o mistrio, esse poder ser seu.
 No entendo, Seid. Sinto dor na alma e procuro um caminho para sair da escurido.
 Voc est voltado para as coisas terrenas, Ali Khan, mas esquece o mundo invisvel que governa
nossas vidas. No ano de 680, o Ano da Fuga, Hussein, o neto do Profeta, foi
214
Kuiinm Said
morto em Kerbela pelos inimigos da f. Ele era o Redentor e o arauto do Mistrio. Com seu sangue,
o Todo-Poderoso coloriu o sol nascente e o sol poente. Doze imames reinaram sobre a comunidade
da Xia, que somos ns, os xiitas: o primeiro foi Hussein, e o ltimo  o Imame dos ltimos Dias,
que at hoje conduz secretamente o povo da Xia. As aes desse Imame Oculto so visveis, e no
entanto ele permanece inatingvel. Eu o reconheo no nascer do sol, no milagre da colheita e nas
tempestades do mar. Ouo sua voz nos disparos de uma metralhadora, nos suspiros de uma mulher
e no choro de uma criana. E o Invisvel ordenou que o luto seria o destino da Xia. Luto pelo
sangue de Hussein, derramado na areia do deserto perto de Kerbela. Um ms de cada ano 
consagrado ao luto.  o ms do muarr. Todos os que sofrem devem chorar no Ms do Luto. No
dcimo dia de muarr cumpre-se o destino da Xia, pois esse  o dia da morte do mrtir... Os
sofrimentos que o jovem Hussein enfrentou devem ser compartilhados pelos seguidores devotos.
Quem aceita compartilhar os sofrimentos recebe tambm uma parte da graa. Por isso os devotos se
flagelam no ms de muarr. O caminho da graa e a alegria da salvao se revelam aos fiis,
enredados em suas dificuldades, na dor da mortificao. Esse  o segredo do muarr.
 Seid  disse eu, cansado e irritado , perguntei como fao para que a alegria volte  minha
casa, pois sinto uma grande angstia, e voc me conta belas histrias da aula de religio. Devo
andar agora pelas mesquitas flagelando minhas costas com correntes de ferro? Sou religioso e
cumpro os mandamentos da Lei. Acredito no mundo invisvel, mas no acho que o caminho para
minha felicidade tenha algo a ver com o mistrio do santo Hussein.
 Pois eu acho o contrrio, Ali Khan. Voc me perguntou o caminho, e eu o mostrei.  o nico
caminho que conheo. Ilias Beg derrama seu sangue na frente de batalha perto de Gandja. Voc no
pode ir at l. Por isso, devia
215
consagrar seu sangue ao mundo invisvel no dcimo dia, conforme o ritual do muarr. No me diga
que a penitncia sagrada  intil; nada  intil neste vale de lgrimas. Lute pela ptria no ms do
muarr, assim como Ilias est lutando em Gandja.
Eu me calei. O coche de Nino, com as janelas de vidro grosso, entrou no ptio. Podia-se distinguir
o rosto dela por trs do vidro. A porta para o jardim do harm se abriu, e de repente Seid Mustafa
pareceu ficar com muita pressa.
 Venha me ver amanh na mesquita Sepahselar. Ento vamos poder continuar a conversa.
Captuo 26
EsiA\AMOS DEITADOS EM DIVAS. No cho entre ns, via-se um tabuleiro de nardi de
madreprola, com peas de marfim. Eu tinha ensinado a Nino o jogo de dados da Prsia. Agora,
apostvamos nos dados quase tudo: moedas, brincos, beijos e os nomes de nossos futuros filhos.
Nino perdia, pagava suas dvidas e continuava jogando. Os olhos dela brilhavam de concentrao, e
os dedos tocavam as peas de marfim como se fossem jias valiosas.
 Desse jeito voc acaba comigo, Ali  suspirou Nino, empurrando oito moedas de prata que eu
tinha acabado de ganhar.
Ela afastou o tabuleiro, apoiou a cabea em meu colo, olhou pensativa para o teto e mergulhou num
devaneio. Aquele era um grande dia, pois Nino tinha realizado seus planos de vingana. Acontecera
assim:
Logo cedo, gemidos e queixas ecoaram pela casa. laia Kuli, o inimigo de Nino, apareceu com a
bochecha inchada e o rosto transtornado.
 Dor de dente  disse ele com um ar de quem est prestes a se suicidar. Os olhos de Nino
brilharam de triunfo e alegria. Ela o conduziu at a janela e examinou sua boca, franzindo a testa.
Ento balanou a cabea, preocupada. Pegou um barbante grosso e amarrou com ele o dente oco
Ah e Nino
de laia Kuli. A outra ponta do barbante foi amarrada na maaneta de uma porta aberta.
 Muito bem  disse ela, correndo at a porta e batndo-a com toda a fora. Com um grito de
gelar os ossos, o eunuco caiu no cho apavorado, olhando para o dente pendurado na maaneta.
 Diga a ele, Ali Khan, que  nisso que d limpar os dentes com o indicador da mo direita.
Traduzi aquela frase ao p da letra, e laia Kuli apanhou o dente no cho. Mas a sede de vingana de
Nino ainda no fora totalmente satisfeita:
 Diga-lhe tambm, Ali Khan, que ainda no est curado. Ele deve ir para a cama e cobrir a
bochecha com compressas quentes, durante seis horas. E no deve comer doces durante uma
semana, pelo menos.
laia Kuli acenou com a cabea e se foi, ao mesmo tempo aliviado e assustado.
 Que vergonha, Nino  disse eu , tirar a ltima alegria do coitado!
 Bem feito  disse Nino sem piedade, apanhando o tabuleiro de nardi. Ento ela perdeu a
partida, e a justia foi restaurada.
Agora ela olhava para o teto, acariciando meu queixo com os dedos:
 Quando Baku ser libertada, Ali?
 Talvez em duas semanas.
 Catorze dias!  suspirou ela.  Tenho saudades de Baku e mal posso esperar pela chegada dos
turcos. Sabe, as coisas mudaram tanto! Enquanto voc se sente bem aqui, sou desonrada todos os
dias.
 Como assim, desonrada?
 Todos me tratam como se eu fosse um objeto caro e frgil. No sei qual  meu preo, mas no
sou frgil e muito menos um objeto! Pense no Daguesto! L era muito diferente. No, em Teer
no posso ser feliz. Se Baku no for
Kiitbati Sau
libertada logo, temos de ir para outro lugar. No sei nada sobre os poetas de que este pas tanto se
orgulha. Mas sei que, na festa de Hussein, as pessoas arranham o peito, ferem a cabea com
punhais e flagelam as costas com correntes de ferro. Hoje, muitos europeus saram da cidade para
no presenciar esse espetculo. Tudo isso me revolta. Eu me sinto vtima de uma vontade maligna
que pode me assaltar a qualquer momento.
Ela ergueu em minha direo o rosto delicado. Os olhos eram fundos e escuros, como nunca os
tinha visto antes. As pupilas estavam dilatadas, e o olhar meigo se voltava para dentro. S os olhos
de Nino traam o fato de que ela estava grvida.
 Est com medo, Nino?
 Medo de qu?  perguntou ela, com admirao sincera.
 Algumas mulheres sentem medo da gravidez.
 No  respondeu Nino, sria , no estou com medo. Sinto medo de ratos, crocodilos, exames
e eunucos. Mas no da gravidez. Seno, eu tambm sentiria medo de apanhar uma gripe.
Beijei os clios frios. Ela se levantou e jogou os cabelos para trs.
 Vou visitar meus pais, Ali Khan.
Acenei com a cabea, embora soubesse muito bem que as regras do harm eram ignoradas na
pequena manso dos Kipianis. O prncipe recebia amigos da Gergia e diplomatas europeus. Nino
bebia ch, comia biscoitos ingleses e conversava com o cnsul holands sobre a pintura de Rubens
e a questo da mulher oriental.
Ela se foi. Vi o coche de janelas de vidro grosso deixar o ptio. Fiquei sozinho e pensei nas
bandeirinhas verdes e nos poucos centmetros de papel colorido que me separavam do lar. Havia
uma penumbra no quarto. Eu ainda sentia o leve perfume de Nino nas almofadas macias do div.
Escorreguei para o cho e apanhei o misbaha. Com uma espada na pata esquerda, o leo de prata
rebrilhava na parede do quarto. Olhei para ele. Uma sensao de impotncia tomou conta de mim.
Era uma vergonha estar sentado sob a sombra protetora do leo de prata, enquanto o povo sangrava
at a morte nas estepes perto de Gandja. Eu tambm era um objeto. Um objeto caro, protegido e
bem-cuidado. Era um Chirvanchir, destinado a receber um ttulo de nobreza qualquer e a exprimir
sentimentos elevados numa linguagem elevada e clssica. Enquanto isso, o povo sangrava at a
morte na plancie perto de Gandja. Senti um profundo desespero. Na parede, o leo de prata parecia
caoar de mim. A ponte sobre o rio Araxes fora bloqueada, e no havia passagem que me
conduzisse do Ir at a alma de Nino.
Puxei o misbaha com fora. O fio se rasgou e as contas amarelas se espalharam no cho.
Ao longe soaram os golpes abafados de um tamborim. Era um som urgente e ameaador, como a
exortao do Imame Invisvel. Fui at a janela. Cheia de p, a rua ardia. O sol estava a pino sobre
Chimran. As batidas de tambor soaram mais perto, e gritos breves, repetidos mil vezes,
acompanhavam o ritmo:
 Xah seh... Vah seh!  Os gritos significavam: X Hussein... pobre Hussein!
A procisso surgiu na esquina. Carregadas por mos fortes, trs bandeiras enormes, bordadas de
ouro pesado, flutuavam sobre a multido. Na primeira bandeira, em grandes letras douradas, estava
escrito o nome de Ali, lugar-tenente de Al na terra. No veludo preto da segunda bandeira viam-se
os traos largos de uma mo esquerda, a mo de Ftima, filha do Profeta, que abenoava e
expulsava ao mesmo tempo. E, em letras que pareciam cobrir o cu, uma nica palavra estava
escrita na terceira bandeira: Hussein, neto do Profeta, mrtir e redentor.
220
Kuran Sac
Devagar, a multido desfilou pela rua.  frente seguiam os penitentes beatos, em trajes pretos de
luto e com as costas nuas, segurando correntes pesadas. No ritmo dos tambores, levantavam as
mos e golpeavam com as correntes os ombros tintos de sangue. Homens de peito largo surgiram
depois, num semicrculo amplo, caminhando com dois passos para a frente e um para trs. Em voz
rouca, lanavam na rua seu grito abafado: Xah seh... Vah seh! A cada grito, davam socos duros
no peito aberto e cabeludo. Seguiam depois os descendentes do Profeta, de cabea baixa, com a
faixa verde de sua condio social. Por trs, no manto branco da morte, vinham os mrtires do
muarr. Tinham a cabea raspada e traziam nas mos longos punhais. Os rostos eram sombrios e
impenetrveis, como se olhassem para outro mundo. Xah seh... Vah seh! Os mrtires feriam a
cabea com os punhais, que rebrilhavam e zuniam no ar. Seus mantos estavam cobertos de sangue.
Um deles vacilou. Amigos acorreram e o levaram para fora da procisso. O mrtir cado tinha nos
lbios um sorriso de beatitude.
Continuei de p, diante da janela. Um sentimento que eu no conhecia se apoderara de mim. Um
chamado de advertncia ecoou em minha alma, e senti profunda necessidade de entrega e
abnegao. Vi as gotas de sangue na poeira da rua. O ritmo do tamborim trazia alvio e liberdade.
Ento era aquele o mistrio invisvel, o Portal da Dor que deveria conduzir  Graa da Redeno.
Comprimi os lbios. E com mais fora ainda agarrei o batnte da janela. A bandeira de Hussein
passou diante de mim. Vi a mo de Ftima, e todo o mundo visvel desapareceu ao meu redor. Mais
uma vez ouvi o som abafado do tambor, e o unssono dos gritos selvagens me penetrou. De repente,
eu fazia parte daquela multido. Caminhava no semicrculo dos homens de peito largo, e golpeava
com os punhos o peito nu. Mais tarde, percebi em volta de mim a escurido fria de uma mesquita, e
ouvi o chamado pungente do imame. Algum me ps nas
A/ f Nino
221
mos uma corrente pesada, e senti nas costas uma dor lancinante. Passaram-se horas. Vi uma
grande praa. Minha garganta gritava com violncia e jbilo: Xah seh... Vah seh! Um dervixe de
rosto exausto estava diante de mim. Eu distinguia suas costelas sob a pele murcha. Os fiis olhavam
para a frente, cantando em transe. Entrou na praa um cavalo coberto com um xairel
ensangentado. Era o cavalo do jovem Hussein. O dervixe de rosto exausto soltou um grito alto e
prolongado. Seu pratinho de cobre voou para longe e ele se jogou sob as patas do cavalo. Eu
cambaleava. Batia na pele nua com os punhos fechados. Xah seh... Vah seh A multido gritava
de jbilo. Um homem num manto branco e manchado de sangue foi trazido para perto de mim. De
longe, chegaram muitas tochas acesas, e eu me afastei com elas. De repente, estava sentado no
ptio de uma mesquita, e as pessoas ao meu redor usavam barretes redondos e altos e tinham
lgrimas nos olhos. Algum cantava a Cano do jovem Hussein, com uma voz sufocada de dor. Eu
me levantei. A multido recuou. A noite era fria. Passamos diante dos prdios do governo e vimos
bandeiras negras nos mastros. A fileira infindvel de tochas parecia um rio no qual se refletem as
estrelas. Vultos encapuzados espiavam nas esquinas. Diante do porto do consulado, patrulhas nos
observavam com as baionetas apontadas para baixo. Pessoas se amontoavam no telhado das casas.
Uma caravana de camelos desfilou na praa dos Canhes, diante das fileiras de fiis. Ouviram-se
gritos queixosos. Mulheres caram no cho, retorcendo os membros sob o luar plido. A famlia do
jovem santo estava sentada na liteira dos camelos. Por trs, num cavalo preto, com o rosto coberto
por uma viseira sarracena, desfilava o terrvel califa lesid, o assassino do santo. Pedras voaram em
sua direo, atingindo a viseira do califa. Ele cavalgou mais rpido e foi se esconder no ptio do
Pavilho de Exposies do X Nassr ed-Din. No dia seguinte, o ritual da paixo deveria continuar
ali. Bandeiras pretas
220
Kutan Said
Devagar, a multido desfilou pela rua. A frente seguiam os penitentes beatos, em trajes pretos de
luto e com as costas nuas, segurando correntes pesadas. No ritmo dos tambores, levantavam as
mos e golpeavam com as correntes os ombros tintos de sangue. Homens de peito largo surgiram
depois, num semicrculo amplo, caminhando com dois passos para a frente e um para trs. Em voz
rouca, lanavam na rua seu grito abafado- Xah seh. Vah seh A cada grito, davam socos duros
no peito aberto e cabeludo. Seguiam depois os descendentes do Profeta, de cabea baixa, com a
faixa verde de sua condio social. Por trs, no manto branco da morte, vinham os mrtires do
muarr Tinham a cabea raspada e traziam nas mos longos punhais Os rostos eram sombrios e
impenetrveis, como se olhassem para outro mundo. Xah seh Vah seh Os mrtires feriam a
cabea com os punhais, que rebrilhavam e zuniam no ar Seus mantos estavam cobertos de sangue.
Um deles vacilou. Amigos acorreram e o levaram para fora da procisso. O mrtir cado tinha nos
lbios um sorriso de beatitude.
Continuei de p, diante da janela. Um sentimento qae eu no conhecia se apoderara de mim. Um
chamado de advertncia ecoou em minha alma, e senti profunda necessidade de entrega e
abnegao Vi as gotas de sangue na poeira da rua. O ritmo do tamborim trazia alivio e liberdade
Ento era aquele o mistrio invisvel, o Portal da Dor que deveria conduzir a Graa da Redeno
Comprimi os lbios. E com mais fora ainda agarrei o batnte da janela. A bandeira de Hussein
passou diante de mim Vi a mo de Ftima, e todo o mundo visvel desapareceu ao meu redor. Mais
uma vez ouvi o som abafado do tambor, e o unssono dos gritos selvagens me penetrou. De repente,
eu fazia parte daquela multido. Caminhava no semicrculo dos homens de peito largo, e golpeava
com os punhos o peito nu. Mais tarde, percebi em volta de mim a escurido fria de uma mesquita, e
ouvi o chamado pungente do imame Algum me ps nas
A c Nino
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mos uma corrente pesada, e senti nas costas uma dor lancinante. Passaram-se horas. Vi uma
grande praa. Minha garganta gritava com violncia e jbilo: Xah seh Vah seh! Um dervixe de
rosto exausto estava diante de mim. Eu distinguia suas costelas sob a pele murcha. Os fieis olhavam
para a frente, cantando em transe. Entrou na praa um cavalo coberto com um xairel
ensanguentado. Era o cavalo do jovem Hussein. O dervixe de rosto exausto soltou um grito alto e
prolongado. Seu pratinho de cobre voou para longe e ele se jogou sob as patas do cavalo. Eu
cambaleava. Batia na pele nua com os punhos fechados. Xah seh... Vah seh A multido gritava
de jbilo. Um homem num manto branco e manchado de sangue foi trazido para perto de mim De
longe, chegaram muitas tochas acesas, e eu me afastei com elas. De repente, estava sentado no
ptio de uma mesquita, e as pessoas ao meu redor usavam barretes redondos e altos e tinham
lagrimas nos olhos. Algum cantava a Cano do jovem Hussein, com uma voz sufocada de dor. Eu
me levantei A multido recuou A noite era fria. Passamos diante dos prdios do governo e vimos
bandeiras negras nos mastros. A fileira infindvel de tochas parecia um no no qual se refletem as
estrelas. Vultos encapuzados espiavam nas esquinas. Diante do porto do consulado, patrulhas nos
observavam com as baionetas apontadas para baixo. Pessoas se amontoavam no telhado das casas.
Uma caravana de camelos desfilou na praa dos Canhes, diante das fileiras de fieis Ouviram-se
gritos queixosos. Mulheres caram no cho, retorcendo os membros sob o luar plido. A famlia do
jovem santo estava sentada na liteira dos camelos. Por trs, num cavalo preto, com o rosto coberto
por uma viseira sarracena, desfilava o terrvel califa lesid, o assassino do santo. Pedras voaram em
sua direo, atingindo a viseira do califa. Ele cavalgou mais rpido e foi se esconder no ptio do
Pavilho de Exposies do X Nassr ed-Dm No dia seguinte, o ritual da paixo deveria continuar
ali Bandeiras pretas
KM rim i Snid
a meio pau pendiam tambm do Porto dos Diamantes do Palcio Imperial. A guarda dos
baadurans usava trajes de luto e mantinha a cabea baixa. O imperador no estava presente. Tinha
se retirado para o palcio de vero em Bague. A multido se espalhou pela rua Ala ed Davleh, e de
repente eu estava sozinho na praa dos Canhes vazia e escura. As bocas dos canhes enferrujados
me fitavam com indiferena. Sentia dores pelo corpo, como se tivesse levado mil bordoadas.
Toquei meus ombros e senti uma crosta espessa de sangue. Estava tonto. Atravessei a praa e me
aproximei de um coche vazio. O cocheiro me olhou com ar de compreenso e piedade:
 Pegue um pouco de esterco de pombos e misture com leo. Aplique nas feridas. Isso alivia
muito  disse ele, provavelmente por experincia prpria. Cansado, eu me joguei no estofamento.
 Para Chimran  gritei , para a casa Chirvanchir. O cocheiro fez estalar o chicote. Ele seguia
pelas ruas
acidentadas, virando-se para trs de vez em quando para dizer com admirao:
 O senhor deve ser um homem muito piedoso. Reze por mim tambm. Pois eu mesmo preciso
trabalhar e no tenho tempo. Meu nome  Sorhab lussuf.
Lgrimas escorriam pelo rosto de Nino. Ela estava sentada no diva, com as mos juntas, em atitude
de desamparo. Tinha a boca aberta, com os cantos voltados para baixo, e rugas profundas entre as
bochechas e o nariz. Soluava, e seu corpo pequeno tremia. Ela no dizia palavra. Lgrimas claras
pingavam em seu rosto indefeso. Eu estava diante dela, abalado pela violncia daquela dor. Ela no
se mexia, no secava as lgrimas, e seus lbios tremiam como folhas de outono. Apertei as mos
frias, imveis e alheias. Beijei os olhos midos, e ela olhou para mim com ar ausente, sem
compreender.
 Nino  exclamei , Nino, o que foi?
Afi c Nino
Ela levou a mo  boca, como para fech-la. Quando deixou cair o brao, vi a marca funda dos
dentes nas costas da mo.
 Eu odeio voc, Ali Khan!  gritou ela, assustada.
 Nino, voc est doente?
 No, eu odeio voc.
Ela mordia o lbio inferior. Tinha a expresso de uma criana doente e ferida. Olhava com pavor
para minhas roupas esfarrapadas e meus ombros nus, com estrias vermelhas.
 O que foi, Nino?
 Eu odeio voc.
Ela se arrastou at o canto do div e se sentou com as pernas dobradas e o queixo apoiado no joelho
pontudo. Ento, parou de chorar de repente.
 Mas o que foi que eu fiz, Nino?
 Voc me mostrou sua alma, Ali Khan.  Ela falava sem expresso, baixinho, como em sonho.
 Eu estava na casa de meus pais. Bebamos ch, e o cnsul holands nos convidou para uma
visita  casa dele. Ele mora na praa dos Canhes e queria nos mostrar um ritual brbaro do
Oriente. O cortejo de fanticos passou diante de nossa janela. Senti um mal-estar ao ouvir o
tamborim e ver os rostos selvagens. Orgia de autopunio, disse o cnsul fechando a janela, pois
vinha da rua um cheiro forte de suor e sujeira. De repente, ouvimos gritos horrveis. Olhamos para
fora, e um dervixe esfarrapado se jogou embaixo dos cascos de um cavalo. E ento, ento... o
cnsul estendeu a mo e perguntou, admirado: Mas aquele no ...? Ele no terminou. Olhei na
direo em que ele apontava e vi no meio dos fanticos um homem de roupas rasgadas, que batia
no peito e flagelava as costas com uma corrente. Aquele homem era voc, Ali Khan! Corei at a
raiz dos cabelos com vergonha de ser sua mulher, a esposa de um fantico. Segui cada um de seus
movimentos, sentindo o olhar de piedade do cnsul. Acho que depois disso bebemos ch ou
comemos alguma coisa, no sei. Eu tinha
224
Kuifmn Smd
dificuldade para me manter em p. Percebi que um abismo nos separa. Ali Khan, o jovem Hussein
destruiu nossa felicidade. Para mim, voc  um selvagem entre selvagens. Acho que nunca mais
poderei encar-lo de outra maneira.
Ela se calou, prostrada e dolorida porque eu tinha procurado no mundo invisvel uma sensao de
paz e de volta ao lar.
 E agora, Nino?
 No sei. No podemos ser felizes de novo. Quero ir embora daqui... para algum lugar onde
nunca mais me lembre dos fanticos da praa dos Canhes.
 Ir embora para onde, Nino?
 Ah, no sei!  Ela tocou minhas costas feridas com os dedos.  E por que fez isso?
 Por sua causa, Nino. Mas voc no entenderia.
 No  disse ela, desconsolada.  Quero partir. Estou cansada, Ali Khan. A sia  horrvel.
 Voc me ama?
 Sim  disse ela em desespero, deixando cair as mos no colo. Peguei-a nos braos e levei-a at
o quarto de dormir. Tirei sua roupa. Ela dizia palavras sem sentido, cheias de medo febril.
 Nino  disse eu , mais algumas semanas e voltamos para nossa casa em Baku.
Ela meneou a cabea e fechou os olhos cansada. Tonta de sono, agarrou minha mo e apertou-a
contra o peito. Fiquei sentado assim longamente, sentindo o corao dela batr na palma de minha
mo. Ento, tambm tirei a roupa e me deitei. Seu corpo estava quente. Ela parecia uma criana
deitada sobre o lado esquerdo, com os joelhos erguidos e a cabea escondida debaixo da coberta.
Ela acordou cedo, pulou por cima de mim e correu para o banheiro. Ficou l dentro muito tempo,
lavando-se e borrifando gua, sem me deixar entrar... Por fim, saiu do banheiro evitando olhar para
mim. Ela trazia na mo um
A! e Nino
225
potinho de blsamo. Com uma atitude de culpa, passou o blsamo em minhas costas feridas.
 Voc devia ter batido em mim, Ali Khan  disse ela, obediente.
 No pude, passei o dia inteiro batndo em mim mesmo e estava sem foras.
Ela afastou o blsamo. O eunuco trouxe ch. Ela o bebeu depressa e se virou constrangida na
direo do jardim. De repente, ela olhou firmemente em meus olhos e disse:
 No adianta, Ali Khan. Eu odeio voc e vou odilo enquanto estivermos na Prsia. No posso
fazer nada.
Ns nos levantamos, fomos at o jardim e nos sentamos calados na beirada do chafariz. O pavo
desfilou diante de ns. O coche de meu pai entrou com grande rudo no ptio da casa principal. De
repente, Nino deixou pender o rosto para o lado e disse com timidez:
 Bem, acho que nada me impede de jogar dados com o homem que odeio.
Fui buscar o tabuleiro de nardi e comeamos a jogar, melanclicos e perplexos... Ento deitamos
de barriga para baixo, inclinamos a cabea sobre a fonte e contemplamos nosso reflexo. Nino
enfiou a mo na gua clara e nossos rostos se deformaram sob as pequenas ondas:
 No fique triste, Ali Khan. No odeio voc. S odeio este pas estranho e estas pessoas. Tudo
isso vai passar assim que voltarmos para casa...
Ela encostou o rosto na gua e o molhou durante algum tempo. Ento ergueu a cabea, e gotas
escorreram por sua face e seu queixo:
 Acho que vai ser um menino... mas ainda faltam sete meses  concluiu ela, com ar de orgulho e
superioridade.
Sequei o rosto dela e beijei suas faces frias. E ela sorriu.
Nosso destino dependia agora dos regimentos que
marchavam pela plancie esbraseada do Azerbaijo em di-
226
Kutbati SmA
reao  cidade de Baku, cercada de torres de perfurao e ocupada pelo inimigo.
Ao longe, ouviu-se de novo o tambor do santo Hussein. Agarrei a mo de Nino, levei-a depressa
para casa e fechei as janelas. Peguei o gramofone e as agulhas mais novas. Ento coloquei um
disco, e uma voz grave de baixo comeou a berrar a ria do ouro do Fausto de Gounod. Era a
msica mais barulhenta que se podia ouvir. Enquanto Nino me abraava com medo, o baixo
poderoso de Mefisto abafava os sons montonos do tambor e o grito antiqussimo:
Xah seh... Vah seh!
Captuo 27
Nos PRIMEIROS DIAS DO L i UNO persa, o exrcito de Enver Pax ocupou Baku. A notcia
correu por bazares, casas de ch e ministrios. Os ltimos soldados russos que defendiam a cidade,
esfomeados e isolados de seus batalhes, fugiram para os portos da Prsia e do Turquesto. Eles
contavam que a bandeira vermelha com o crescente branco tremulava agora, vitoriosa, no alto da
velha cidadela. Arslan Ag publicou nos jornais de Teer relatos fantsticos sobre a entrada dos
turcos, mas meu tio Assad es Saltaneh proibiu esses jornais, pois odiava os turcos e acreditava fazer
assim um favor aos ingleses. Meu pai foi falar com o primeiro-ministro, e este, depois de alguma
hesitao, permitiu a reabertura da ligao martima entre Baku e a Prsia. Viajamos para Enseli, e
ali o vapor Nassr ed-Din acolheu a multido de exilados que voltavam para a ptria libertada.
Soldados robustos com gorros altos de pele estavam perfilados no cais de Baku. Ilias Beg fez uma
saudao com a espada. O comandante turco pronunciou um discurso, no qual se esforou para
adaptar o suave idioma turco de Istambul aos sons speros de nosso dialeto nativo. Fomos para
nossa casa saqueada e devastada. Por dias e semanas a fio, Nino se transformou numa dona-de-
casa. Ela tinha longas discusses com carpinteiros, revirou todas as lojas de mo-
228
Kuidan Saicf
veis e calculou com ar preocupado o comprimento e a largura de nosso quarto. Marcou encontros
secretos com arquitetos e decoradores, e um dia a casa se encheu com o rudo de pedreiros e o
cheiro de tinta, madeira e argamassa.
Em meio a essa confuso domestica, Nino parecia radiante e consciente de sua responsabilidade,
pois ficara combinado que ela prpria escolheria os moveis, a decorao e o papel de parede
De noite, ela me contou com uma expresso de beatitude envergonhada:
 No fique bravo com sua Nino, Ah Khan. Comprei camas, camas de verdade em vez de divs. O
papel de parede deve ser em cor clara, e os tapetes ficaro estendidos no cho. O quarto do beb
ser pintado de branco  Tudo ser completamente diferente do harem na Prsia.
Ela me abraou e encostou o rosto no meu, pois tinha um sentimento de culpa Ento, virou a cabea
de lado e ps a lngua estreita para fora, tentando alcanar a ponta do nariz Ela sempre fazia assim
diante das situaes difceis da vida- exames, consultas medicas e enterros. Pensei na testa do
jovem Hussem e concordei com tudo o que ela dizia, embora me doesse a idia de pisar os tapetes
com os ps e ter de me sentar a mesa a moda europia. Agora, restava-me apenas a laje de cima
com vista para o deserto Felizmente, Nino no tinha sugerido uma reforma do telhado.
Cal, poeira e barulho enchiam a casa. Eu estava sentado na laje com meu pai. Deixei pender a
cabea de lado e passei a lngua nos lbios, exatamente como Nino costumava fazer Meu olhar
exprimia culpa, e o olhar de meu pai era sarcstico
 Nada a fazer, Ah Khan. Cuidar da casa e tarefa da mulher Nino enfrentou a situao na Prsia
bastante bem, embora no fosse nada fcil para ela. Agora e sua vez. No se esquea do que eu
disse  Baku se tornou parte da Europa. Para sempre! A penumbra fria dos quartos fechados e os
tapetes vermelhos na parede pertencem agora a Prsia
mo
229
 E quanto a voc, pai?
 Tambm perteno a Prsia. Volto para Ia assim que a criana nascer. Pretendo viver em
Chimran, esperando o dia em que tambm coloquem ali as camas europeias e o papel de parede
branco.
 Mas eu fico aqui, pai.
Ele meneou a cabea gravemente.
 Eu sei. Voc ama esta cidade, e Nino ama a Europa Mas a mim incomodam a nova bandeira, a
agitao poltica e o cheiro de impiedade que paira no ar
Ele olhou para baixo em silencio De repente, parecia-se com o irmo, Assad es Saltaneh
 Sou um velho, Ah Khan As coisas novas me aborrecem. Voc tem de ficar aqui. E jovem e
corajoso, e com certeza ser uti! no Azerbaijo
Ao crepsculo, mi passear pelas ruas da cidade. Patrulhas turcas estavam dispostas nas esquinas,
em posio de sentido e com olhar vazio. Conversei com alguns oficiais, e eles me contaram sobre
as mesquitas de Istambul e as noites de vero em Tath-su No Palcio do Governador tremulava a
bandeira do novo governo, e o Parlamento funcionava provisoriamente no prdio da escola. A
velha cidade parecia mergulhada num baile de mascaras. O advogado Feth Ah Khan era primeiro-
ministro Despachava leis, regulamentos e decretos. Mirza Assadullah, irmo daquele Assadullah
que defendia o extermnio de todos os russos da cidade, era ministro do Exterior e assinava acordos
com pases vizinhos. A sensao inusitada de liberdade poltica me contagiou. De repente, sentia
simpatia pelos novos brases, uniformes, cargos e leis. Pela primeira vez, era como estar em casa
em meu prprio pais. Os russos passavam por mim com ar furtivo e tmido, e meus antigos
professores de escola me cumprimentavam com todo o respeito.
No clube, a orquestra tocava canes do Azerbaijo a noite toda, no era preciso tirar o goiro e lhas
Beg dava as
boas-vindas, juntamente comigo, aos oficiais turcos que voltavam da frente de batalha. Eles
contavam sobre o cerco de Bagd e sobre a marcha pelo deserto do Sinai. Conheciam as dunas de
areia da Tripolitnia, as estradas lamacentas da Galicia e as tempestades de neve das montanhas
armnias. Bebiam champanha sem se preocupar com os mandamentos do Profeta, e falavam de
Enver Pax e do futuro Reino de Turan, que deveria reunir todas as pessoas de sangue turco. Eu
bebia aquelas palavras cheio de espanto e reverncia, pois tudo parecia irreal como uma sombra,
como um sonho inesquecvel. No dia seguinte, um desfile militar foi organizado nas ruas da cidade.
Do alto do cavalo, o pax desfilou com o peito coberto de estrelas diante dos soldados e saudou a
nova bandeiia. O orgulho e a gratido tomaram conta de nos, esquecemos todas as diferenas entre
sunitas e xiitas e nos sentimos dispostos a bei]ar a mo musculosa do pax e morrer pelo califa
osmanli. Apenas Seid Mustafa permanecia de lado, com dio e desprezo estampados no rosto. Por
entre as estrelas e crescentes que cobriam o peito do pax, ele descobrira uma cruz militar blgara,
e o smbolo de uma f estranha no peito de um muulmano o irritava.
Depois do desfile, Ilias, Seid e eu nos sentamos no passeio a beira-mar. Folhas de outono caam das
arvores, e meus amigos discutiam apaixonadamente sobre os pontos bsicos do novo governo. Ilias
Beg, baseado em sua vivncia das marchas e combats perto de Gandja, e nas conversas que tivera
com jovens oficiais turcos, chegara  concluso de que unicamente reformas europias urgentes
podiam salvar nosso pas de uma nova invaso dos russos.
  possvel construir fortalezas, introduzir reformas e abrir estradas sem deixar de ser um bom
muulmano!  gritou ele pattico.
Seid franziu a testa e disse com os olhos cansados:
 Por que no tenta ser mais radical, Ilias Beg?  perguntou ele com frieza.  Diga de uma vez
que  possvel
Ali e Nino
231
beber vinho e comer carne de porco sem deixar de ser um bom muulmano. Pois os europeus
descobriram h muito tempo que o vinho faz bem  sade e a carne de porco  muito nutritiva.
Claro que ningum nos impede de continuarmos bons muulmanos. Mas talvez o arcanjo no porto
do Paraso tenha outra opinio. Ilias riu:
 Com certeza h uma diferena enorme entre marchar num desfile e comer carne de porco.
 Mas no entre comer carne de porco e beber vinho. Os oficiais turcos bebem champanha em
pblico e usam cruzes no peito.
Eu ouvia as palavras de meus amigos.
 Seid  perguntei ,  possvel ser um bom muulmano e ao mesmo tempo dormir numa cama
e comer com garfo e faca?
Seid sorriu quase com ternura:
 Voc sempre ser um bom muulmano. Eu o vi no Dia do Muarr.
Eu me calei. Ilias Beg endireitou o bon militar:
  verdade que voc vai morar numa casa europia, com mveis modernos e papel de parede?
 Sim,  verdade, Ilias Beg.
 Isso  bom  disse ele com deciso.  Vivemos agora numa capital. Emissrios estrangeiros
visitaro nosso pas. Precisamos de casas onde se possa receb-los, e precisamos de esposas que
saibam conversar com as esposas dos diplomatas. Voc tem a mulher certa, Ali Khan, e vai morar
na casa certa. Devia trabalhar no Ministrio do Exterior.
Dei uma risada:
 Ilias Beg, voc julga minha esposa, minha casa e a mim como se fssemos cavalos numa
competio de acordos internacionais. Por acaso acha que s estamos reformando nossa casa em
funo dos interesses internacionais?
232
eman Saicf
 Pois deveria ser assim  disse lhas com dureza. De repente, senti que ele tinha razo. Todos os
nossos esforos deviam estar voltados para o novo pais a ser construdo sobre a terra mesquinha e
anda do Azerbaijo.
Fui para casa. Quando Nino soube que eu no tinha nada contra pisos de assoalho e quadros a leo
na parede, nu alegremente e seus olhos brilharam, como outrora no bosque perto da fonte de
Pechapur.
Durante aqueles dias, eu costumava sair a cavalo para passear no deserto. Via o sol se pr a oeste,
numa mancha de sangue, e ficava deitado por horas a fio na areia macia. As tropas turcas
marchavam diante de mim. Mas agora o rosto dos oficiais era sombrio e tenso. A agitao do novo
governo nos fizera esquecer a trovoada distante dos canhes da guerra mundial. Em algum lugar,
bem ao longe, as tropas dos blgaros, aliados dos turcos, recuavam diante dos ata-
ques inimigos.
 Houve uma brecha. E impossvel restabelecer a frente de batalha  diziam os turcos, que no
bebiam mais champanha.
Noticias esparsas chegavam at nos com o impacto de um raio No porto distante de Mudros, um
homem curvado subiu a bordo do encouraado britnico Agamemnon O homem curvado era
Hussein Reuf Bei, ministro da Marinha do Alto Imprio Otomano, enviado plenipotencirio do
califa para o acordo de cessar-fogo. Ele se inclinou sobre uma mesa, assinou o nome numa folha de
papel, e os olhos do pax que governava nossa cidade se encheram de lagrimas.
Mais uma vez, ecoou nas ruas de Baku a cano do Remo de Turan, mas desta vez parecia um
canto fnebre. Em luvas de pelica, sentado na sela com o corpo teso, o pax passou as tropas em
revista. Os rostos turcos estavam tensos A bandeira da Casa Sagrada dos Osmanhs foi recolhida Os
tambores rufaram. O pax levou a testa a mo com a
Au t Amo
luva de pelica As colunas de soldados marcharam para fora da cidade, deixando entre nos uma
imagem de sonho das mesquitas de Istambul, dos palcios graciosos no estreito de Bosforo e do
homem descarnado que era califa e usava nos ombros o manto do Profeta.
Alguns dias mais tarde, eu estava no passeio a beiramar quando surgiram por trs da ilha Nargin os
primeiros navios com tropas de ocupao inglesas. O general tinha olhos azuis, um bigode curto e
mos largas e fortes. Soldados da Nova Zelndia, do Canada e da Austrlia se espalharam pela
cidade. A Union Jack tremulava agora ao lado da bandeira de nosso pais, e Feth Ali Khan me ligou
para pedir que o procurasse no Ministrio
Eu o encontrei sentado numa poltrona funda. Ele me dirigiu um olhar impetuoso:
 Ali Khan, por que no trabalha no servio publico? Eu prprio no sabia. Olhei para as pastas
grossas na
escrivaninha e senti remorsos
 Perteno a minha ptria, Feth Ali Khan. Estou ao seu dispor.
 Ouvi dizer que tem uma facilidade incrvel para lnguas estrangeiras. Quanto tempo levaria para
aprender ingls?
Sorri constrangido
 Feth Ah, no preciso aprender ingls Eu alo ingls ha muito tempo
Ele se calou, descansando a cabea grande no espaldar da poltrona-
 Como \ai Nmo?  perguntou de repente. Espantou-me o fato de que nosso primeiro-ministro,
contrariando todas as regras de boas maneiras, pedisse noticias de minha mulher.
 Ela tambm fala mgles?
 Sim
24
Kuiban S,itd
Ele se calou, cofiando o bigode largo.
 Feth Ali Khan  disse eu tranqilamente , sei o que deseja. Minha casa estar pronta dentro
de uma semana. Nino guarda dezenas de vestidos de gala no armrio Falamos ingls, e eu prprio
pagarei a conta do champanha.
Um sorriso fugaz cintilou sob o bigode
 Peo perdo, Ali Khan  disse ele, com suavidade no olhar.  No queria ofend-lo
Precisamos de pessoas como o senhor Em nosso pais ha poucos homens com esposas europeias e
um nome antigo, que falem ingls e tenham uma casa. Eu, por exemplo, nunca tive dinheiro
suficiente para aprender ingls, muito menos construir uma casa ou
me casar com uma europia.
Ele parecia cansado ao segurar a pena:
 A partir de hoje, o senhor ser adido no Departamento para a Europa Ocidental Apresente-se ao
ministro do Exterior Assadullah. Ele lhe explicara o servio E     e mas, por favor, no se irrite
ser que sua casa poderia estar pronta em cinco dias? Eu prprio me envergonho de lhe fazer este
pedido.
 Claro, Excelncia  respondi com firmeza, sentindo crescer em mim uma sensao de quem
acaba de trair e abandonar um amigo velho, fiel e querido.
Fui para casa. Os dedos de Nino estavam cobertos de argamassa e tinta De p em cima da escada,
ela pregava um quadro na parede Ficaria muito admirada se eu lhe dissesse que estava prestando
um servio ao pais. Por isso, beijei-lhe em silncio os dedos sujos e concordei com a aquisio de
uma geladeira para manter bem frios os vinhos estrangeiros
Captufo 28
VOC l LM ALGL M -\ TIA?
 No, no tenho nenhuma tia, mas meu criado quebrou a perna direita.
 Voc gosta de viajar?
 Sim, gosto de viajar, mas de noite s costumo comer fruta
As frases do manual de ingls eram de uma estupidez quase perversa. Nino fechou o livro com
rudo:
 Acho que j sabemos ingls suficiente para enfrentar a luta. Mas e voc, alguma vez provou
uisque?
 Nino  gritei em desespero , voc esta falando igual as frases desta gramtica
Bem, eu me sinto um pouco estpida. Mas isso e compreensvel, Ali Khan, porque foi causado
por um desejo equivocado de servir a ptria. Quem vem hoje a noite?  ela se esforou para
perguntar em tom de indiferena
Contei-lhe os nomes dos funcionrios e oficiais ingleses que deviam honrar nossa casa naquela
noite. Nino tinha uma expresso de orgulho, pois sabia muito bem que nenhum ministro do
Azerbaijo e nenhum general tinham uma esposa como a de Ali Khan, sofisticada, com maneiras
ocidentais, conhecimentos de lngua inglesa e pais de sangue nobre. Ela ajeitava o vestido de noite
e se examinava no espelho.
2ib
Kutdan Saicf
 Provei um gole de usque  disse ela sria.  Tem um gosto amargo e enjoativo. Talvez por
isso misturem com gua gasosa.
Pus a mo nos ombros de Nino. Ela me olhou com gratido:
 Ns levamos uma vida estranha, Ali Khan. Uma vez voc me aprisionou no harm. Mas agora
sou testemunha do progresso cultural de nosso pas.
Descemos a escada at o salo de recepes. Criados que tinham treinado sua pose estavam
comprimidos contra as paredes em volta, e havia quadros que representavam paisagens e animais.
Nos cantos se viam poltronas macias, e flores cobriam as mesas. Nino encostou o rosto nas suaves
ptalas de rosas:
 Lembra-se de uma coisa, Ali Khan? Eu j servi voc como meu marido, pois lhe trazia gua do
vale at o aul.
 E de qual servio voc gosta mais?
Com olhar sonhador, Nino no respondeu. Ouviu-se a campainha, e seus lbios tremeram de
excitao. Mas eram apenas os pais de sangue nobre. E Ilias Beg num uniforme de gala completo.
Ele percorreu os sales, admirado com tudo em volta, e balanou a cabea por fim:
 Preciso me casar tambm, Ali Khan  disse ele com gravidade.  Ser que Nino tem alguma
prima?
De p na soleira da porta, Nino e eu apertvamos as fortes mos inglesas. Os oficiais eram bastante
altos e tinham rostos corados. As damas usavam luvas, tinham olhos azuis e sorriam com graa,
mas cheias de curiosidade. Talvez esperassem ser recebidas por eunucos ou assistir a um
espetculo de dana do ventre. Ao im s disso, elas se deparavam com criados de boas maneiras.
Os pratos foram servidos pela esquerda, e nas paredes pendiam quadros com campinas verdes e
cavalos de corrida. Nino engasgou quando viu um jo\ em tenente beber um copo de usque cheio
at A bor-
A/J c Nmo
237
da e ignorar a gua gasosa que tinha sido servida. Fragmentos de conversas pairavam no salo.
Eram da mesma estupidez perversa que as frases da gramtica:
 Est casada h muito tempo, senhora Chirvanchir?
 Quase dois anos.
 Sim, passamos nossas npcias na Prsia.
 Meu marido gosta de cavalgar.
 No, ele no joga plo.
 Nossa cidade lhe agrada?
 Fico to feliz!
 Mas pelo amor de Deus! No somos selvagens! J no existe mais essa coisa de poligamia no
Azerbaijo. E, quanto aos eunucos, s os conheo dos romances.
Nino olhou em minha direo, e suas narinas rosadas tremeram com vontade de rir. A esposa de um
major tinha lhe perguntado at mesmo se ela j estivera alguma vez na pera:
 Sim  respondeu Nino suavemente , e tambm sei ler e escrever.
A esposa do major se deu por vencida, e Nino lhe estendeu uma travessa de sanduches.
Jovens ingleses, funcionrios e oficiais, se inclinavam diante de Nino. Suas mos tocavam nos
dedos delicados e seus olhares passeavam pelas costas nuas.
Desviei o olhar. Assadullah estava no canto do salo, fumando calmamente um charuto. Ele mesmo
nunca iria expor sua esposa aos olhares de tantos homens estranhos. Mas Nino era uma mulher da
Gergia, uma crist, e parecia destinada a oferecer aos olhares estranhos suas mos, olhos
e costas.
Eu sentia ao mesmo tempo raiva e vergonha. Fragmentos de conversas me chegavam at os ouvidos
e pareciam indecentes e vulgares. Baixei os olhos. Nino estava no outro canto do salo, cercada por
estranhos.
 Obrigada  disse ela, subitamente rouca , obrigada, o senhor  muito amvel.
Kutdan iiii
Levantei a cabea e vi o rosto dela, assustado e muito corado Ela atravessou o salo ao meu
encontro. Tocou minha manga como se procurasse proteo.
 Ali Khan  disse ela, baixinho , acho que se sente agora como eu me sentia em Teer quando
visitava suas tias e primas. O que fao com tantos homens? No gosto de ser olhada desse jeito.
Ento ela se virou e apertou a mo da esposa do major Ouvi quando dizia:
 A senhora realmente precisa visitar nosso teatro municipal. Shakespeare esta sendo traduzido
agora para o azen. A estreia de Hamlet e na prxima semana.
Afastei o suor da testa e pensei nas leis severas da hospitalidade. Uma velha mxima di?
Se algum entrar em teu quarto trazendo nas mos a cabea decepada de teu nico filho, mesmo
assim deves recebelo, oferecer-lhe comida e bebida e trata-lo com respeito 
Uma regra sabia, mas que as vezes no era nada fcil por em pratica
Eu servia usque e conhaque em muitos copos. Os oficiais fumavam charutos, mas ningum punha
os ps na mesa conforme eu esperava.
 Tem uma mulher encantadora e um lar encantador, Ali Khan  disse um oficial, dando
prosseguimento a minha sesso de tortura.
Talvez ele ficasse muito admirado se eu lhe contasse que s as consideraes polticas o salvaram
de uma bofetada. Um co infiel ousava elogiar publicamente a beleza de minha mulher Minha mo
tremia quando lhe servi mais conhaque, e algumas gotas se espalharam em volta do copo
Um funcionrio mais velho, de bigodes brancos e smoking branco, estava sentado no canto. Eu lhe
ofereci biscoitos Seus dentes eram compridos e amarelados, e os dedos eram curtos.
A/i t Nino
 Tem uma casa bastante europia, Ali Khan  disse ele no mais puro idioma persa.
 Vivo como as outras pessoas em nosso pais. Ele me olhou inquisidoramente:
 Entre a Prsia e o Azerbaijo parece haver uma enorme diferena cultural.
 Oh, sim1 Estamos sculos a frente Com certeza o senhor j sabe que temos uma industria
poderosa e uma rede de estradas de ferro. Infelizmente, o governo russo reprimiu nossa evoluo
cultural Temos poucos mdicos e poucos professores. Ouvi dizer que o governo pretende mandar
para a Europa um grupo de jovens talentosos, para que recuperem um pouco de tudo aquilo que
perdemos sob o domnio dos russos.
Continuei a falar desse modo por algum tempo. Tentei lhe servir usque, mas ele no bebia-
 Servi como cnsul na Prsia durante vinte anos  disse ele.  E lamentvel que as formas da
cultura oriental, to antigas e genunas, estejam em decadncia. Os orientais de hoje imitam nossa
civilizao e desprezam os costumes dos antepassados. Mas talvez o senhor tenha razo O estilo de
vida dos orientais e um assunto que s lhes diz respeito Seu pais tem as mesmas condies de se
tornar independente quanto, por exemplo, as republicas da America Central Acho que nosso
governo logo vai reconhecer a independncia poltica do Azerbaijo.
Fiz papel de idiota, mas o objetivo daquela recepo estava garantido. No outro lado do salo via-
se o ministro do Exterior Assadullah, cercado pelos nobres pais de Nino e por lhas. Atravessei o
salo
 O que o velho lhe disse?  perguntou ele
 Disse que sou um idiota, mas que a Inglatrra deve reconhecer em breve nossa independncia.
Mirza Assadullah suspirou aliviado
 Bem, acho que voc no e nenhum idiota, Ali Khan
240
Kwban Sait
 Obrigado, senhor ministro, mas o pior e que sou.
Ele apertou minha mo e se despediu dos outros hospedes. Quando beijou a mo de Nino ao sair,
percebi que ela lhe sussurrava alguma coisa com um sorriso misterioso. Ele balanou a cabea,
concordando.
Os hospedes foram embora a meia-noite, e o salo ficou impregnado do cheiro de tabaco e lcool.
Exaustos e aliviados, subimos as escadas at nosso quarto. De repente, sentamos uma espcie
estranha de euforia. Nino jogou para um canto os sapatos de salto alto, subiu na cama e comeou a
pular sobre o colcho de penas. Esfregou o nariz e ps o lbio inferior para a frente, como um
macaquinho fazendo caretas. Estufou as bochechas e enfiou os dois dedos indicadores na boca,
fazendo o ar escapar como um tiro:
 Ento, que tal meu papel de salvadora da ptria?  gritou Ento desceu da cama, foi at o
espelho e se olhou com admirao.
 Nino Hanum Chirvanchir, a Joana dAre do Azerbaijo! Sabe deixar a esposa do major
absolutamente encantada, e garante que nunca viu um eunuco.
Ela na e aplaudia com as mos pequenas. Usava um vestido de noite de cor clara, com as costas
cavadas at embaixo. Brincos compridos pendiam de seus lbulos delicados. O colar de prolas em
seu pescoo cintilava palidamente a luz dos lampies. Seus braos eram finos e femininos, e os
cabelos escuros desciam fartamente pela nuca. Diante do espelho, ela era encantadora em sua nova
beleza.
Cheguei perto dela e vi uma princesa europia com um olhar alegre e otimista. Abracei-a com a
sensao de que fazia aquilo pela primeira vez na vida. Sua pele era macia e perfumada, e os dentes
brilhavam-lhe por trs dos lbios como pedrmhas brancas. Nos nos sentamos pela primeira vez na
beirada da cama. Eu abraava uma mulher europia Os clios longos, finos e arqueados tocaram
meu rosto, e ela piscou suavemente. Era uma sensao maravilhosa. Peguei-
A/i  Nino
241
a pelo queixo e ergui sua cabea. Eu via o rosto oval, os lbios midos e sedentos, e olhos
sonhadores por trs dos clios semicerrados da Gergia. Acariciei sua nuca, e ela deixou pender a
cabea em minhas mos. Tinha uma expresso nostlgica e submissa. O vestido de noite e a cama
europia, de cobertas dobradas para fora e lenis frescos, desapareceram diante de mim. Vi Nino
no aul, no Daguesto, seminua, na pequena esteira sobre o cho de barro. Abracei seus ombros, e
de repente estvamos vestidos sobre o tapete plido de Kerman, diante de nossa suntuosa cama
europia. Vi o rosto de Nino sobre o tapete macio. As sobrancelhas se contraiam de prazer dolorido
Ouvi sua respirao, senti suas coxas estreitas, redondas e duras, e esqueci o velho ingls, os jovens
oficiais e o futuro de nossa republica
Mais tarde, estvamos deitados em silencio um ao lado do outro, olhando para o grande espelho
sobre nossas cabeas.
 O vestido esta arruinado  constatou Nino, como se confessasse uma grande alegria Depois nos
sentamos no tapete Nino aninhou a cabea em meu colo e pensou em voz alta:  O que a esposa
do major diria disso? Diria. Mas Ali Khan no sabe para que servem as camas?
Por fim, ela se levantou e cutucou meu joelho com o
p pequeno:
 Ser que o senhor adido podia tirar a roupa e ocupar seu lugar na cama de casal, conforme os
costumes de nosso corpo diplomtico? Que espcie de adido costuma rolar sobre o tapete?
Eu me levantei resmungando, tonto de sono, tirei as roupas e me deitei entre dois lenis, ao lado
de Nino. E assim adormecemos.
Dias e semanas se passaram. Hospedes chegavam, bebiam usque e elogiavam nossa casa. A
hospitalidade georgiana de Nino se transformou numa vida social intensa e alegre. Ela danava
com jovens tenentes e conversava sobre
242
Kmfain Said
artrite com as pessoas mais velhas. Contava s senhoras inglesas histrias do tempo da rainha
Tamar, levando-as a crer que a grande monarca tambm reinara sobre o Azerbaijo. Eu ficava
sentado no Ministrio, sozinho numa grande sala, escrevia o rascunho de notas diplomticas, lia os
relatrios de nossos representantes e olhava para fora, em direo ao mar. Nino vinha me encontrar
no servio, sempre feminina e alegre, com uma graa irrefletida. Uma amizade surpreendente a
ligava ao ministro do Exterior Assadullah. Quando ele nos visitava, ela fazia as honras da casa e lhe
dava sbios conselhos sobre assuntos de sociedade. Algumas vezes, encontrei os dois sussurrando
palavras misteriosas em cantos afastados da casa.
 O que est querendo com Mirza?  perguntei, e ela respondeu sorrindo que tinha a ambio de
se tornar a primeira mulher na funo de chefe do protocolo.
Na minha escrivaninha se empilhavam cartas, relatrios e memorandos. A construo do novo
governo estava em andamento, e era agradvel desdobrar cartas e documentos com nosso novo
braso impresso no alto da pgina.
Era um pouco antes do meio-dia quando o mensageiro trouxe os jornais. Abri o jornal oficial do
governo e vi meu nome em letras gordas na terceira pgina. Embaixo estava escrito:
Ali Khan Chirvanchir, adido do Ministrio do Exterior, foi promovido para nosso consulado em
Paris.
Seguia-se um longo pargrafo que louvava minhas excelentes qualidades, e onde reconheci o estilo
inconfundvel de Arslan Ag.
Levantei-me de um salto e corri pelas diferentes salas at o gabinete do ministro. Escancarei a
porta:
 Mirza Assadullah  gritei , o que significa isto?
 Ah!  Ele sorriu.  Uma surpresa para voc, meu amigo. Foi uma promessa que fiz a sua
esposa. Paris  a cidade apropriada para voc e Nino.
Ali e Nino   ((L/ 24J
Joguei o jornal para um canto e gritei, louco de raiva:
 Mirza, no existe lei que possa me obrigar a deixar minha ptria por vrios anos!
Ele me olhou admirado.
 Mas qual  o problema, Ali Khan? Esses postos no exterior so os mais cobiados da carreira
diplomtica. E voc  o homem certo para o cargo.
 Mas no quero viver em Paris, e peo demisso se me obrigarem a isso. Detesto o mundo
estranho, com suas ruas estranhas, pessoas e hbitos estranhos. Mas suponho que voc nunca
poder entender, Mirza!
 Realmente  disse ele com gentileza ; mas, se insiste, tambm pode ficar aqui.
Corri para casa. Subi as escadas e cheguei ao alto sem flego:
 Nino  disse eu , no posso aceitar, simplesmente no posso.
Ela ficou muito plida e suas mos tremiam.
 Nino, no me entenda mal. Amo a laje achatada que est sobre a minha cabea no lugar de um
telhado, amo o deserto e o mar. Amo esta cidade, o velho muro e as mesquitas nas ruelas estreitas.
Eu iria sufocar longe do Oriente, como um peixe fora da gua.
Ela fechou os olhos por um instante.
 Que pena  disse ela sem nfase, e meu corao doeu ao ouvir aquelas palavras. Sentei-me e
peguei sua mo.
 Em Paris eu me sentiria to infeliz quanto voc se sentiu na Prsia. Seria como estar exposto a
uma fora maligna. Pense no harm de Chimran. A Europa seria to insuportvel para mim quanto
a sia para voc.  melhor ficar em Baku, pois aqui a sia e a Europa se encontram e se penetram
sem sentir. No posso viver em Paris. L no existem mesquitas, muros antigos e pessoas como
Seid Mustafa. De tempos em tempos, preciso sentir a alma da sia para agentar todos os
estrangeiros que nos visitam. Em Paris eu aca-
244
Kutan Said
baria odiando voc, assim como voc me odiou na festa do muarr. No imediatamente. Mas algum
dia, depois de um carnaval ou um baile, eu comearia de repente a odiar voc por causa do mundo
estranho que tentou me impingir. Por isso fico aqui, acontea o que acontecer. Nasci neste pas e 
aqui que pretendo morrer.
Nino ficou calada o tempo todo. Quando terminei, ela se inclinou para mim, acariciando meus
cabelos:
Perdoe a sua Nino, Ali Khan. Fui muito estpida. No sei por qu, mas achei que teria mais
facilidade de se adaptar do que eu. Ficamos aqui e no se fala mais em Paris. Voc ter sua cidade
asitica, e eu terei minha casa europia.
Ela me beijou com carinho, e seus olhos brilharam.
 Nino,  muito difcil ser minha esposa?
 No, Ali Khan, nem um pouco. Mas  preciso ter bom senso.
Seus dedos acariciaram meu rosto. Nino era uma mulher forte. Eu sabia que tinha destrudo o
grande sonho de sua vida.
Sentei-a nos meus joelhos:
 Nino, quando nascer a criana, faremos uma viagem para Paris, Londres, Berlim ou Roma.
Estou lhe devendo uma viagem de npcias. Passaremos um longo vero onde voc quiser. E
voltaremos todos os anos  Europa. No sou um tirano. Mas minha casa tem de ficar no pas ao
qual perteno, pois sou filho do deserto, da areia e do sol.
 Sim  disse ela , e por falar nisso voc  um timo filho. Vamos esquecer a Europa. Mas a
criana que trago em mim no deve ser filha do deserto nem da areia. Deve ser apenas a filha de
Ali e Nino. Combinado?
 Combinado  respondi, sabendo que com isso aceitava ser o pai de um europeu.
Captulo 29
 SEU PARTO FOI MUITO DIFCIL, Ali Khan. E naquele tempo ningum chamava mdicos
europeus para acudir nossas mulheres.
Meu pai estava sentado diante de mim na laje de nossa casa, falando em voz baixa e melanclica:
 Quando as dores de parto ficaram muito fortes, demos a sua me o p de turquesas e diamantes
modos. Mas no ajudou muito. Penduramos o cordo umbilical na parede leste do quarto, entre a
espada e o Coro, para voc crescer forte e corajoso. Depois, enquanto voc usou o cordo em
volta do pescoo como amuleto, nunca teve problemas de sade. Quando tinha trs anos de idade,
voc jogou fora o cordo. Depois disso comeou a adoecer. Primeiro tentamos distrair a doena,
deixando vinho e doces no quarto. Soltamos um galo colorido para que ele corresse pelo quarto,
mas mesmo assim a doena no cedia. Ento, um sbio das montanhas trouxe uma vaca. Matamos a
vaca. O sbio fez um corte na barriga dela e retirou as vsceras. Colocou voc dentro da barriga da
vaca. Quando o retirou trs horas depois, sua pele estava toda vermelha. Mas voc nunca mais
ficou doente.
Um grito longo e abafado se ouviu dentro de casa. Eu me sentei ereto e imvel, escutando com
todas as foras. O grito se repetiu numa queixa interminvel.
246
Kuifmn Saui
 Ela esta amaldioando voc  disse meu pai tran quilamente  Toda mulher amaldioa o
mando na hora do parto Antigamente, a mulher tinha que matar um carneiro depois de parir
Salpicava de sangue o leito do mando e da criana, a fim de afastar a desgraa que tinha invocado
durante as dores de parto
 Quanto tempo isso pode durar, pai?
 Cinco horas, seis horas, talvez dez Ela tem quadris estreitos
Ele se calou Talvez pensasse na prpria esposa, mi nha me, que tinha morrido quando nasci De
repente, ele se levantou
 Venha  disse ele, e caminhamos at as duas estei rs de orao no meio da laje As esteiras
apontavam para a cidade de Meca, para a caaba Tiramos os sapatos Pisamos nas esteiras e demos
as mos um ao outro, cobrindo as cos tas da mo esquerda com a palma da direita
 Isso e tudo o que podemos fazer mas da mais r sultados do que a habilidade de todos os
mdicos
Ele se inclinou e pronunciou a orao em rabe
 Bisnn ilahi rrahmam rahim     Em nome de Deus misericordioso
Eu repetia as palavras Ajoelhei me na esteira de ora ao, tocando o cho com a testa
 Alhamdu hllahi rabi-l alamm, arrahmam rahim, mahh laumi dm     Louvado seja Deus
misericordioso, S berano dos Mundos, Senhor do Juzo Final
Eu me sentei na esteira cobrindo o rosto com as mos Os gritos de Nino chega\ am at meus
ouvidos, mas eu no os escutava mais Meus lbios pronunciavam sem esforo as palavras do Corao
 haka na budu vaiiaka nastam     Nos Te veneramos e Te pedimos perdo
Pus as mos nos joelhos Tudo ficou em silencio, e ouvi meu pai sussurrar
C 247
 Ihdma sirata Imustaqm sirata lladina anammta alaihim     Leva nos ao bom caminho, ao
caminho daqueles que recebem Tua graa
As linhas vermelhas da esteira de orao se confundiam diante de meus olhos Deitei o rosto no
tapete
 Garra Imagdumi alaihim vala ddalin     Daqueles que no mereceram Tua ira e que no
confundiste
E assim ficamos deitados no p, diante do rosto do Senhor Repetamos sempre de novo as palavras
da orao que Deus ditara ao Profeta em Meca, na lngua estrangeira dos nmades rabes Os gritos
de Nino se calaram  Sentei me de pernas cruzadas no tapete, o misbaha deslizou em minhas mos e
meus lbios sussurraram os trinta e trs no
ms do Senhor
Algum tocou meus ombros Olhei para cima, vi um rosto sorridente e ouvi palavras
incompreensveis Levantei-me Sentindo os olhares de meu pai postos sobre mim, desci lentamente
as escadas
As cortinas do quarto de Nino estavam fechadas Aproximei-me da cama Havia lagrimas em seus
olhos Suas faces estavam cavadas Ela sorria em silencio De repente, ela disse em idioma trtaro, a
linguagem simples de nosso povo, que falava muito mal
 Kis dir, Ah Khan, tchoh gusel bir kis  O kadar bahtianm     E uma menina, Ah Khan, uma
menina linda, estou to feliz
Apertei suas mos frias Ela fechou os olhos
 No a deixe adormecer, Ah Khan  Tem de ficar acordada mais um pouco  disse algum por
trs de mim
Acariciei seus lbios secos, e ela levantou o olhar, tran quila e exausta  Uma mulher de avental
branco se aproxi mou da cama Estendeu-me uma trouxa, e vi um bebe que parecia um brinquedo
pequeno e enrugado, com dedmhos minsculos e olhos grandes, sem expresso  O brinquedo
chorava com o rosto contrado
248
Kurbcm Saicf
  to bonita!  disse Nino encantada, esticando os dedos para imitar os movimentos do
brinquedo. Levantei a mo e toquei a trouxa com cuidado, mas o brinquedo j dormia com uma
expresso sria, a testa franzida.
 Vamos cham-la Tamar, em homenagem ao colgio  sussurrou Nino. Concordei com um
movimento de cabea. Tamar era um belo nome, usado tanto por cristos quanto por muulmanos.
Algum me conduziu para fora do quarto. Olhares curiosos estavam fixados em mim. Meu pai
pegou minha mo. Samos para o ptio.
 Vamos passear um pouco pelo deserto  disse ele.  Nino logo poder dormir.
Montamos os cavalos e partimos em galope selvagem pelas dunas de areia amarela. Meu pai dizia
alguma coisa, mas s com muito esforo compreendi que ele tentava me consolar. Eu no entendia
por qu, pois me sentia muito orgulhoso de ter uma filha enrugada e sonolenta, com um rosto srio
e olhos sem expresso.
Os dias se somavam uns aos outros como as contas enfiadas num misbaha. Nino levava o
brinquedo ao peito. De noite, cantava suaves canes georgianas, sacudindo a cabea, pensativa,
diante daquele ser pequeno e enrugado, feito  sua imagem e semelhana.
Nino me tratava agora com crueldade, pois eu era apenas um homem, incapaz de parir, amamentar
e trocar as fraldas. s vezes, eu estava sentado no Ministrio, remexendo documentos, e ela
telefonava para mim em estado de graa, para anunciar grandes acontecimentos e feitos
revolucionrios:
 Ali Khan, o brinquedo sorriu e estendeu as mos em direo ao sol.
  um brinquedo muito inteligente, Ali Khan. Mostrei-lhe uma esfera de vidro e ele olhou para
ela.
Afi e Nino
 Sabia, Ali Khan? O brinquedo desenha linhas na barriga com os dedos. Parece ter muito talento.
Mas, enquanto o brinquedo desenhava linhas na prpria barriga e seguia uma bola de vidro com
olhar aceso, homens adultos brincavam com fronteiras, exrcitos e pases na Europa distante. Eu lia
os relatrios sobre minha mesa. Olhava para o mapa onde estavam assinaladas as fronteiras
duvidosas dos futuros pases. Homens misteriosos com nomes difceis de pronunciar estavam
reunidos em Versalhes, decidindo o destino do Oriente. Um nico homem, um general loiro de
Ankara, ainda ousava resistir desesperadamente contra os vencedores. Nosso pas, o Azerbaijo,
teve sua independncia reconhecida pelas potncias europias. Senti pena de Ilias Beg quando fui
desiludi-lo com a notcia de que as tropas inglesas iriam retirar-se definitivamente do territrio de
nossa repblica soberana.
 Agora estamos livres para sempre!  exultou ele.  Nenhum estrangeiro no solo de nosso pas!
 Veja, Ilias Beg  disse eu, levando-o at o mapa , nossos aliados naturais deveriam ser a
Turquia e a Prsia, mas ambos esto impotentes agora. Estamos flutuando no ar, e ao norte
espreitam cento e sessenta milhes de russos, cobiando nosso petrleo. Enquanto os ingleses
estiverem aqui, nenhum russo, seja ele vermelho ou branco, ousaria transpor a fronteira. Mas, se os
ingleses se retirarem, s restaremos eu e voc para a defesa do Azerbaijo, alm de algumas tropas
que nosso pequeno pas consegue manter.
 Ora essa!  Ilias Beg sacudiu a cabea despreocupadamente.  Temos nossos diplomatas para
assinar acordos de amizade com os russos. O exrcito tem outras prioridades. Aqui  disse ele,
apontando para a fronteira sul do pas , temos de marchar at a fronteira armnia. H conflitos
ali. O general Mechmandar, ministro da Guerra, j despachou as ordens.
Era intil tentar convenc-lo de que a diplomacia s tem sentido quando  devidamente apoiada
pelo exrcito.
C Kurban Smd
As tropas inglesas se retiraram, as ruas se cobriram de bandeiras festivas, nossas tropas marcharam
at a fronteira armnia, e, em lalama, o posto militar na fronteira russa, permaneceram uma
patrulha e alguns funcionrios. No Ministrio, comeamos a definir acordos com russos brancos e
vermelhos. Meu pai voltou para a Prsia. Eu e Nino o acompanhamos at o cais. Ele nos olhava
com tristeza, sem perguntar se queramos ir com ele.
 O que vai fazer na Prsia, pai?
 Acho que vou me casar  respondeu ele, sereno. Beijou-nos com ar solene e pensativo. 
Virei visitar vocs de vez em quando. Se este pas desmoronar... bem, tenho algumas propriedades
em Mazendaran.
Ele atravessou a passarela, subiu a bordo e acenou longamente para ns, o velho muro, a ampla
Torre da Donzela, a cidade e o deserto, que lentamente desapareceram no horizonte.
Na cidade fazia calor. As cortinas do ministrio permaneciam semicerradas. Os delegados russos se
apresentavam com ar de astcia e tdio. Assinavam acordos infindveis, que se estendiam por
pargrafos, colunas e notas de rodap, com pressa e indiferena.
P e areia cobriam nossas ruas. O vento quente fazia voar pedacinhos de papel. Meus sogros de
sangue nobre foram passar o vero na Gergia, e no posto fronteirio de lalama ainda permaneciam
uma patrulha e alguns funcionrios.
 Assadullah  observei certa vez ao ministro , do outro lado de lalama espreitam trinta mil
soldados russos.
 Sei disso  respondeu ele sombrio.  Nosso comandante acha que so apenas manobras de
rotina.
 E se no forem? Ele me olhou irritado:
 Nossa funo  assinar acordos. Tudo o mais est nas mos de Deus.
Fui caminhar pelas ruas. Vi alguns sentinelas diante do edifcio do Parlamento, com as baionetas
apontadas para
C 251
baixo. No Parlamento, os partidos discutiam, e, nos subrbios das cidades, os operrios russos
ameaavam entrar em greve caso o governo no liberasse a exportao de petrleo para a Rssia.
Os homens lotavam os cafs, liam jornais e jogavam dados. Crianas brigavam na poeira quente. A
cidade jazia sob o sol trrido, e no minarete ecoava o chamado:
Levantem-se para a prece, levantem-se para a prece, orar  melhor que dormir!
Eu no dormia. Ficava deitado no tapete com os olhos fechados, pensando que a estao fronteiria
de lalama estava sendo ameaada por trinta mil soldados russos.
 Nino  disse eu , faz calor, o brinquedo no est acostumado com o sol e voc gosta de
rvores, sombra e gua fresca. Quer passar o vero com seus pais na Gergia?
 No  disse ela com firmeza , no quero. Eu me calei. Nino franziu a testa, pensativa.
 Mas acho que devamos fazer uma viagem juntos, Ali Khan. Faz calor na cidade. Voc tem um
stio em Gandja, cercado por videiras e jardins. Vamos para l. Voc se sentir em casa, e o
brinquedo ter sombra suficiente.
Tive de concordar. Partimos. Os vages do trem ostentavam o novo braso do Azerbaijo em plena
glria.
Uma estrada larga, empoeirada e comprida nos conduziu da estao at a cidade de Gandja. Casas
baixas circundavam as igrejas e mesquitas. Um leito seco de rio separava o bairro muulmano do
armnio. Mostrei a Nino a pedra sobre a qual, cem anos antes, meu antepassado Ibrahim cara,
atingido pelas balas russas. L adiante, no stio, bfalos pesados, imveis e indolentes ficavam
deitados na gua fria. Um cheiro de leite pairava no ar. As uvas eram do tamanho de olhos de vaca.
As cabeas dos camponeses eram raspadas no meio, e de cada um dos lados pendiam longos tufos
de cabelo. A casinha com o alpendre de madeira era cercada de rvores, e o brinquedo sorriu ao
avistar cavalos, ces e galinhas.
252
Kwan Said
Ns nos instalamos na casa. Por algumas semanas esqueci o Ministrio, os acordos e a estao
fronteiria de lalama. Estvamos deitados na grama e Nino mastigava uma palhinha amarga. Seu
rosto bronzeado de sol era claro e pacfico como o sol sobre a cidade de Gandja. Tinha vinte anos
de idade e ainda era muito magra para os padres orientais.
 Ali Khan, fique sabendo que este brinquedo  s meu. Da prxima vez ser um menino, e
poder ficar com ele.
Ento, ela explicava em detalhes seus planos para o futuro do brinquedo, que incluam tnis,
Oxford e estudos de francs e ingls, bem  moda europia.
Eu me calava, pois afinal de contas o brinquedo ainda era muito pequeno, e perto de lalama
espreitavam trinta mil soldados russos. Brincvamos na grama e comamos sobre amplos tapetes 
sombra das rvores. Nino nadava no riacho, mas procurava sempre um lugar acima de onde
ficavam os bfalos. Camponeses com seus gorros pequenos e redondos vinham at ns, inclinavam-
se diante do Khan e traziam cestos com pssegos, mas e uvas. No lamos jornais nem
recebamos cartas. Para ns, o mundo acabava nos limites do stio. Era uma vida quase to bela
quanto no auldo Daguesto.
Numa noite de vero, estvamos sentados no quarto e ouvimos um patar surdo de cavalos ao
longe. Sa para o alpendre, e um vulto magro vestido num traje tcherkess saltou do cavalo.
 Ilias Beg!  gritei, estendendo-lhe as mos. Mas ele no respondeu  saudao. Sob o claro da
lamparina de petrleo, seu rosto parecia cinzento e abatido:
 Os russos esto em Baku  disse ele depressa.
Concordei com a cabea, como se j soubesse da notcia h muito tempo. Um leve grito escapou
dos lbios de Nino por trs de mim:
 Mas como foi que aconteceu, Ilias Beg?
 Durante a noite chegaram os trens de lalama, lotados de soldados russos. Eles ocuparam a
cidade e o Par-
Afi e Nino
25 
lamento capitulou. Todos os ministros que no conseguiram fugir foram presos. O Parlamento foi
dissolvido. Os operrios russos decidiram apoiar seus compatriotas. No havia soldados em Baku, e
o exrcito estava disperso em postos perdidos na fronteira armnia. Pretendo organizar um corpo de
voluntrios.
Eu me virei. Nino desapareceu para dentro de casa, fez as malas e conversou com o brinquedo em
voz baixa, no idioma de seus antepassados. Enquanto isso, os criados prepararam a carroa. Ento,
partimos atravs dos campos. Ilias nos acompanhava a cavalo. Ao longe brilhavam as luzes de
Gandja. Por um instante senti que presente e passado se confundiam dentro de mim. Vi Ilias Beg
com o punhal enfiado no cinto, plido e srio, e Nino, tranqila e orgulhosa, como outrora na
plantao de meles em Mardakiani.
Chegamos a Gandja tarde da noite. As ruas estavam cheias de gente. Os rostos revelavam excitao
e incerteza. Sobre a ponte que separava os muulmanos dos armnios, viam-se soldados com armas
carregadas. Tochas iluminavam a bandeira do Azerbaijo na varanda do prdio do governo.
Caytuo 30
Es i ou SENTADO DiAN i h DO MURO da grande mesquita de Gandja, segurando um prato de
sopa. Soldados exaustos se deitaram no ptio. Perto do no, as metralhadoras ladram como ces Os
latidos malignos penetram no ptio da mesquita A Republica do Azerbaijo s tem alguns dias de
vida
Eu me sentei no ptio longe das outras pessoas. Tenho um caderno diante de mim, que vou
enchendo de frases rpidas para fixar o passado mais uma vez.
Foi assim que aconteceu ha oito dias, no quarto de hotel em Gandja.
 Voc enlouqueceu  disse lhas Beg
Eram trs horas da madrugada e Nino dormia no quarto ao lado
 Voc enlouqueceu  repetiu ele, percorrendo o quarto em todas as direes.
Eu estava sentado diante de uma mesa. A opinio de lhas Beg era o que menos me importava
naquele momento
 Vou ficar aqui. Os voluntrios se uniro a nos. Vamos lutar No posso abandonar meu pais.
Eu falava em voz baixa, como em sonho. lhas Beg parou e disse com olhar triste e teimoso:
 Ah Khan, frequentamos a escola juntos. No intervalo longo brigvamos com os meninos russos.
Eu cavalguei
Ali c Nino
255
atras de voc quando perseguiu o carro de Nacharanan. Eu trouxe Nino para casa sobre minha sela
Lutamos juntos no Portal de Zizianachvih. Agora voc tem de sair daqui Pelo bem de Nino, pelo
seu prprio bem ou pelo bem do pais, que talvez ainda precise de voc no futuro.
 Voc fica aqui, lhas Beg, e eu tambm.
 Fico aqui porque estou sozinho no mundo, sei comandar soldados e tive experincia em duas
campanhas militares. Mas, quanto a voc, fuja para a Prsia, Ah Khan.
 No posso fugir para a Prsia. E muito menos para a Europa
Fui at a janela. La embaixo, as tochas ardiam e os punhais tilintavam.
 Ali Khan, nossa republica no ficara de p mais oito dias.
Concordei com a cabea, indiferente. Pessoas com armas nas mos passaram diante da janela.
Ouvi passos no quarto ao lado e virei o rosto Nino estava na porta com um olhar de sono.
 Nino  disse eu , o ultimo trem para Tbihsi parte daqui a duas horas.
 Sim, temos de partir, Ah Khan.
 No, voc vai com a criana. Seguirei depois Preciso ficar aqui. Mas voc tem de partir
imediatamente A situao e muito diferente de quando estvamos em Baku. No pode ficar aqui,
Nino. Agora voc tem uma filha
Enquanto eu falava, as tochas brilhavam Ia fora. lhas Beg aguardava no canto do quarto,
cabisbaixo.
A sonolncia desapareceu dos olhos de Nino. Ela caminhou devagar at a janela e olhou para fora
Depois, voltou-se para lhas, mas ele desviou o olhar. Por fim, parou no centro do quarto e deixou
pender a cabea de lado.
 O brinquedo .    disse ela.  E voc no quer partir conosco?
 No posso, Nino.
256
wan Said
 Seu antepassado caiu na ponte de Gandja. Aprendi isso no exame final de historia.
Nino se sentou no cho e soltou um grito sbito, como um animal ferido prestes a morrer. Seus
olhos estavam secos e seu corpo tremia. Ela gritava. lhas se precipitou para fora do quarto.
 Irei ao seu encontro, Nino. Com toda a certeza, dentro de poucos dias.
Ela gritava Embaixo, as pessoas cantavam o canto selvagem da republica agonizante.
De repente, Nino se calou e olhou para a frente, imvel. Por fim, levantou-se. Apanhei as malas e a
trouxa com o brinquedo. Descemos calados as escadas do hotel. Ilias Beg esperava no carro.
Atravessamos as ruas cheias de gente at a estao
 Trs ou quatro dias, Nino  dizia lhas  , s trs ou quatro dias, e Ah Khan estar com vocs.
 Eu sei  respondeu Nino, meneando a cabea em silncio  Primeiro ficamos em Tbihsi e
depois vamos para Paris. Teremos uma casa com jardim. A prxima criana
ser um menino.
 Exatamente, Nino.
Minha voz tinha uma entoao clara e confivel. Ela apertou minha mo e olhou para longe.
Os trilhos da via frrea pareciam cobras compridas, e o trem emergiu da escurido como um
monstro maligno.
Ela me beijou rapidamente
 Adeus, Ah Khan! Daqui a trs dias nos vemos de novo.
 Claro, Nino. E depois, Paris1
Ela sorriu. Seus olhos eram como veludo macio. Fiquei de p na estao, incapaz de me mexer,
como se tivesse criado razes no asfalto duro lhas Beg a levou at o vago. Ela ps a cabea para
fora da janela Parecia quieta e perdida, como um passarinho assustado Acenou quando o trem se
ps em movimento, e lhas Beg saltou do vago
Ai e hino
Voltamos para a cidade. Pensei na republica que s tinha mais alguns dias de vida.
Amanhecia. A cidade parecia um deposito de armas. Os camponeses que chegavam das aldeias
traziam as metralhadoras e a munio que mantinham em algum esconderijo. Do outro lado do no,
no bairro armnio, ouviam-se tiros isolados. Mais alem, a Rssia se aproximava. A Cavalaria
Vermelha se espraiava pelo pais. Na cidade, apareceu um homem de sobrancelhas hirsutas, nariz
curvo e olhos fundos Era o prncipe Mansur Mirza Kadjar. Ningum sabia quem era e de onde
vinha. Ele descendia da famlia imperial dos Kadjars, e em seu gorro brilhava o Leo de Prata do
Ir. Assumiu o comando com a naturalidade de um descendente do grande Ag Mohammed.
Batalhes russos avanaram em direo a Gandja, e a cidade se encheu de fugitivos de Baku. Eles
contaram sobre ministros fuzilados, parlamentares presos e cadveres que, amarrados a uma pedra,
foram jogados nas profundezas do mar Cspio.
 Na mesquita Taza-Pir, os russos organizaram uma espcie de clube. Espancaram Seid Mustafa
quando ele tentou rezar diante do muro. Amarraram-no e enfiaram carne de porco na sua boca.
Mais tarde Seid fugiu para a Prsia, para a casa do tio em Meched. O pai dele foi assassinado pelos
russos.
Arslan Ag, que trouxera essa noticia, estava diante de mim. Ele olhava para as armas que eu
distribua entre os voluntrios.
 Quero lutar tambm, Ah Khan.
 Voce?l Voc, leito/inho coberto de tinta
 No sou um leito, Ah Khan Amo meu pais como qualquer outra pessoa. Meu pai fugiu para
Tbilisi  De-me armas
Seu rosto estava serio Seus olhos brilhavam. Eu lhe dei armas. Ele se ps a marchar na coluna que
conduzi at a ponte para uma suitida Soldados russos ocu-
258
Kurban Said
pavam as estradas do outro lado da ponte. Ns nos envolvemos em um corpo-a-corpo, sob a poeira
do meio-dia. Vi caretas de dor nos rostos largos e o fulgor de baionetas triangulares. Uma fria
selvagem tomou conta de mim.
 Irali! Adiante!  gritou algum, e baixamos as baionetas. O suor se misturava ao sangue.
Levantei a coronha. Um tiro atingiu meu ombro de raspo. A coronha se abatu com toda a fora
sobre a cabea de um russo. Os miolos cinzentos se espalharam na poeira da estrada. Avancei com
o punhal em direo a um inimigo. Ao cair, vi que Arslan Ag enfiava o punhal no olho de um
soldado russo.
Ao longe ecoava o som metlico dos clarins. Estvamos deitados por trs de uma esquina, atirando
s cegas em direo s casas armnias.  noite engatinhamos de volta pela ponte. Ilias Beg,
carregado de cartucheiras, sentou-se na ponte e instalou a metralhadora. Fomos at o ptio da
mesquita. Sob a luz das estrelas, Ilias me contou que, quando era criana, estava tomando banho de
mar e quase se afogou, apanhado por uma onda. Ento bebemos a sopa e comemos pssegos.
Acocorado diante de ns, Arslan Ag tinha falhas vermelhas de sangue entre os dentes.  noite, ele
se arrastou para perto de mim, tremendo com o corpo inteiro.
 Tenho medo, Ali Khan, sou to covarde!
 Ento deixe as armas e fuja pelos campos at o rio Pula, e de l para a Gergia.
 No posso. Quero lutar, pois amo meu pas como qualquer outra pessoa, mesmo tendo uma alma
covarde.
Eu me calei. Amanheceu de novo. Ao longe estrondeavam os canhes. Ilias Beg segurava um
binculo no minarete, ao lado do prncipe da famlia imperial dos Kadjars. Os clarins soaram num
lamento que chamava para a luta. No minarete tremulava uma bandeira, e todos entoavam a cano
do Reino de Turan.
 Ouvi contarem coisas  disse um homem de olhos sonhadores e rosto que parecia fadado 
morte.  Na Prsia
apareceu um homem chamado Reza. Ele conduz soldados e dispersa os inimigos. Kemal est em
Ankara, com um exrcito estacionado ao redor da cidade. No estamos lutando em vo. Vinte e
cinco mil homens marcham ao nosso encontro.
 No  disse eu , no so vinte e cinco mil. So duzentos e cinqenta milhes. Os
muulmanos do mundo todo. Mas s Deus sabe se chegaro a tempo.
Fui at a ponte. Sentei-me por trs da metralhadora. As cartucheiras deslizavam por meus dedos
como se fossem contas de um misbaha. Arslan Ag estava a meu lado, passando cartucheiras para o
vizinho. Plido, sorria. A linha russa parecia se mexer. Disparei a metralhadora como louco. L
longe, os clarins davam o toque de abrir fogo. Em algum lugar por trs das casas armnias, ouviu-se
a Marcha Budieni. Olhei para baixo e vi o leito do rio, seco e cheio de fendas. Russos corriam pela
praa, se ajoelhavam, miravam, disparavam. As balas ricocheteavam na ponte. Eu respondia com
fogo selvagem. Os russos caam como marionetes, e por trs deles se apresentavam novas fileiras,
que avanavam em direo  ponte e despencavam no leito empoeirado do rio. Eram milhares. O
matraquear fraco de minha metralhadora solitria ecoava na ponte de Gandja.
Como uma criana, Arslan Ag soltou um grito alto e dolorido. Voltei-me. Ele estava deitado na
ponte. O sangue escorria de sua boca aberta. Apertei o boto da metralhadora. Uma chuva de balas
se espalhou sobre os russos. Eles fizeram soar os clarins para o ataque.
Meu gorro caiu no leito do rio. Talvez um tiro o tivesse atingido. Ou talvez fosse o vento que batia
em meu rosto.
Rasguei o colarinho e abri o peito. O cadver de Arslan Ag jazia entre mim e o inimigo. Ento era
possvel ser covarde e ao mesmo tempo morrer pela ptria.
L longe, os clarins mandavam batr em retirada. A metralhadora se calou. Coberto de suor e
faminto, esperei que algum viesse me resgatar.
Kurbcm Saicf
O resgat chegou. Homens pesados e canhestros empurraram o cadver de Arslan Ag para
proteger a metralhadora. Voltei para a cidade.
E agora estou sentado aqui,  sombra do muro da mesquita, bebendo minha sopa. L adiante, na
entrada da mesquita, o prncipe Mansur se inclina sobre o mapa, juntamente com Ilias Beg. Um
grande cansao se apodera de mim. Em algumas horas estarei de novo na ponte. A Repblica do
Azerbaijo s tem mais alguns dias de vida.
Chega. Quero dormir, at que os clarins me chamem para o rio em cujas margens meu antepassado
Ibrahim Khan Chirvanchir deu a vida pela liberdade de seu povo.
Ali Khan Chirvanchir morreu s cinco horas e quinze minutos, na ponte de Gandja, em seu posto junto 
metralhadora. Seu cadver despencou para o leito seco do rio. De noite, desci at lpara cobri-lo. Tinha
levado oito balas. Em seu bolso achei este caderno. Se Deus me permitir, eu o entregarei a sua esposa. Ni o
enterramos no ptio da mesquita ao raiar do dia, um pouco antes que os russos avanassem para o ataque
final. Nossa repblica morreu no mesmo instante em que morreu \Khan Chirvanchir.
 - Capito de Cavalaria Ilias Beg,
filho de Seinal Ag,
da aldeia de Binigadi,
vizinha a Baku.
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BIBLIOTECA PBLICA DO PARAN

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